
Geralmente vocês me vêem criticando o ato de se vestir de bruxo, mago, pagão ou qualquer outra coisa, mas, sempre tem um “mas” a verdade o que critico é o ato de se fantasiar para parecer algo que na verdade não é.
É claro que quem usa a fantasia acredita que é e apenas o fato de vestir-se o transforma, como o recente caso do menino de 5 anos vestido de Homem Aranha, resgatou um bebê de uma casa que pegava fogo em Santa Catarina. Outro menino, este de 4 anos, também vestido de Homem Aranha, salva sua irmã mais nova que caiu acidentalmente na piscina em Franca SP. Ambos correram risco de vida em suas aventuras, mas quando se é criança, é mais fácil em acreditar em tudo. Depois o ceticismo dos adultos destrói boa parte de nossa fantasia e por mais que na adolescência ainda queremos acreditar, mas sabemos que Papai Noel não existe e que o Coelhinho da Páscoa é só uma estratégia para vender chocolates.
Portanto minha critica não é sobre o fato de se vestir uma fantasia, mas sim por acreditar que apenas o ato de vestir-se, sem acreditar, transforma a pessoa em algo diferente.
O vestir-se e acreditar na roupa devem estar ligados as próprias crenças, senão, não funciona... é fake! Tenho medo de menininhas vestidas de bruxa me amaldiçoarem, elas realmente acreditam que são bruxas, e a chance da maldição funcionar é grande, nossa sorte é que estas menininhas não têm a maldade dos adultos. As criancinhas em geral são más, mas é uma maldade diferente da dos adultos.
Quando vejo adolescentes e jovens fantasiados fazendo caras e bocas de malvados, olhares sinistros e impostando a voz ainda desculpo, na juventude temos o direito a todos os erros, mas adultos fazendo isto é imperdoável.
Mas existem vários contrapontos, que vão variar dependendo da nossa crença.
Ainda adolescente, metido e querendo abraçar o mundo com os braços e pernas, eu vivia nos teatros e cinemas de arte com minha carteira de estudante falsificada. Queria conhecer tudo, para mudar o mundo como qualquer adolescente da minha época. Ia tanto ao Teatro Oficina (verdadeiro e original, não o simulacro do Oficina de Hoje, onde o Zé Celso é um simulacro do Zé Celso) e na montagem Galileu Galilei de Bertolt Brecht, dirigida pelo Zé Celso uma cena me marcou até hoje:
Galileu, já perseguido pela inquisição vai em busca de um cardeal que o protegia e incentivava suas teorias, só que este cardeal agora era Papa. O encontra pela manhã e começam a conversar como amigos, mas logo a seguir chegam os camareiros e começam a vestir o Papa. A cada paramento colocado no cardeal (interpretado pelo Renato Borghi) este endurece seus argumentos invertendo o que falava a pouco, deixava de ser o amigo de Galileu e se transformava em inimigo. Quando finalmente colocam sobre a sua cabeça a mitra papal, acusa Galileu de Heresia.
O habito faz ou não faz o monge? Depende do no que o homem que veste o habito acredite.
As grandes tendências da moda de cada ano são criadas pelos cardeais da alta costura, e os temas base são fantasias: marinheiro, soldado, étnicos e uma infinidade de coisas. A arte do estilista é transformar a fantasia em realidade, transformar uma fantasia carnavalesca em algo usável no dia a dia. E tanto a transforma que o produto final em nada se parece com a fantasia original, restam as cores da cartela e a tendência mariner é marcada pelas cores branco e azul, as militares nos caquis e verde oliva, as étnicas nos tons terra ou no colorido das estampas originais e nos detalhes de cada coleção. Mas no fundo são fantasias.
Já cansei de falar que o que hoje são roupas de bruxos, seriam impossíveis de serem usadas pelas bruxas da idade moderna, já que o preto e sua fixação sempre foram muito caros e quando vemos o povo invocar a imagem da bruxa usam as imagens criadas pela inquisição. O chapéu cônico era usado para denegrir o condenado, e não tinha nenhuma função mágica.
O que o povo confunde é roupa de bruxo, com roupas rituais, coisas criadas pela magia cerimonial do fim do século XIX e princípio do Século XX. As roupas rituais sim têm um sentido claro a de transformar a pessoa que acredita, no que a roupa significa. A identidade da pessoa numa religião iniciática é marcada pela roupa que veste e os adereços que ela usa, percebi isto quando vi Galileu Galilei. Nas Ordens secretas como a Maçônica, cada cargo na ordem é identificado por um adereço ou paramento. Assim como em varias correntes neopagãs sabemos quem é novato, iniciante, iniciado e também o grau de cada iniciado por seus adereços, mas isto só é conhecido pelos que participam. Portanto não existe a menor razão para se usar estes paramentos fora do ritual, mesmo porque ninguém fora do grupo sabe o seu significado e muito menos, dá a mínima importância para isto.
Amuletos de proteção, símbolos de fé e de divindades são outras coisas, que também dependem da crença de quem os usem, comprar estes em loginhas esquisotéricas (esquisito + esotérica) e ostentar também não tem o menor sentido, pois sem a fé e o real conhecimento de seu significado se transformam em bijuterias. Usar uma Cruz Cristã, uma Estrela de Davi, um Pentagrama Wicca, ou qualquer símbolo de divindade pagã ou afro, como os fios de contas coloridos, sem fé, significa que a pessoa está apenas se enfeitando.
O que quero dizer com tudo isto é que só existe sentido em vestir-se ou usar adereços religiosos nos rituais religiosos, fora disso é fantasia.
Mas, como sempre existe e vai existir um “mas” nunca vou condenar ninguém pelo seu gosto pessoal, cada um se veste conforme o seu próprio gosto ou sua própria fantasia, já que as tendências de moda também são fantasias estilizadas. “MAS” por favor, não venham me dizer que se veste desta ou daquela maneira por motivos religiosos, pois se assim for não te levarei em consideração, não vou te levar a sério.
P.S. A foto que ilustra esta coluna é uma estilização do estilo Vitoriano para outono inverno, uma boa opção para os góticos mais moderninhos, rsrsrsrsrsrsr
TEXTO PUBLICADO EM 10/02/2009
|