
Quando pensamos em religião, não podemos nos esquecer dos mitos de Criação. A cosmogonia ou cosmogênese de cada religião vai representar a Cosmovisão de seus adeptos, que nada mais é para nós agora que a nossa maneira de ver o mundo e a Divindade.
É a partir do mito de criação que nós definimos como serão os nossos deuses e o nosso comportamento perante eles. Podemos considerar os deuses como nossos senhores, como nossos familiares, ou como nós sendo parte deles. A princípio e grosso modo podemos classificar três tipos de cosmogênese nas diversas religiões. Estas cosmogonias definem claramente se a religião é Monoteísta, Politeísta ou Panteísta e a relação entre o Humano e o Divino dentro de cada uma delas.
A primeira e também a mais recente é a do Deus Criador. O Deus sempre existiu e tirou do de si ou do nada tudo o que existe, o que a principio cria uma divisão que impossibilita a união do divino, o Criador, com o mortal, a Criatura. O relacionamento do religioso deste tipo de cosmogonia com seu Deus é sempre uma relação de submissão, de inferioridade. O Deus Criador exige obediência total de seus devotos, mesmo que este não entenda as razões do Criador, por isto estas religiões são repletas de dogmas e mistérios que devem ser seguidos e nunca questionados. O sacerdote, ao invés de ter um papel moderador entre os devotos e a divindade tem uma tendência de ser o tradutor do sagrado, aquele que oficializa os rituais ao divino, tem um papel de policial da fé. Assim ele deixa de lado suas obrigações com a divindade e com seus devotos e passa a se intrometer na vida particular e pessoal dos beatos, que em seu sentido primário, queria dizer: “aquele que é feliz’ e hoje soa como aquele que vive sob a vontade do sacerdote”.
As religiões que seguem este mito de criação são monoteístas e como têm em si a origem da sua crença que é uma divisão entre o Universo (natureza) e Deus acabam dividindo tudo por dois, sendo assim além de monoteístas também dualistas.
A segunda e a que vamos explorar com mais profundidade é a que existe uma evolução dos deuses e do universo que os cercam. No mito primordial dos Pelasgos (antigos habitantes da Grécia) o Universo era amorfo e dominado por duas divindades o Caos, o nada com todas as possibilidades, e Nix, a noite negra, e uma enorme gama de deuses da escuridão. Um destes seres era Eurínome, a eterna caminhante, que perambulava pelas trevas até que um dia deu ritmo aos seus passos, criou a musica e dançou. Sua dança criou o movimento no espaço e este movimento gerou Boréas o Vento Norte, este fertilizou Eurínome que gerou Ofion e juntos dançaram e com este movimento deram forma ao Caos e a velocidade da frenética dança criou a Luz. (Leiam "Eurínome a Eterna Caminhante" aqui mesmo no Tribos) E deles nasceu Fanes, que gerou Gaia e Urano, que geraram os Titãs, que geraram os olímpicos, uma grande família da qual fazemos parte (vejam a coluna anterior Os Deuses e Nós)
A terceira cosmogênese é também a mais antiga, possivelmente a religião dos caçadores e coletores, a do Deus que é também o universo, como o Braman hindu, ele é tudo incluindo nós mesmos e por isto tudo é divino e tudo tem alma, já que não existe nenhuma divisão entre a divindade e o Universo (a natureza). Nestas religiões não existem praticamente leis ou dogmas, e cabe a cada um cuidar da sua evolução espiritual. Nelas ainda persiste um dualismo, a divisão entre o karma e o dharma, suas obrigações com a evolução já que cada ato seu tem uma resposta do infinito e as suas obrigações com a vida que levam neste plano. Este tipo de mito leva a religiões Panteístas ou animistas, onde tudo é impregnado pelo divino.
Creio que hoje encontramos no paganismo uma grande incoerência, já que uma grande parte dos que fizeram a opção pelo paganismo e se consideram politeístas ou animistas, não conseguiram ainda se livrar dos mitos de criação monoteístas, e mesmo quanto tentam escrever uma cosmogênese para os mitos em que acreditam, muitas vezes repetem a criação judaica cristã apenas trocando a figura do Pai criador, pela da Mãe criadora, fazendo com que a Deusa tire tudo do nada, sendo a senhora do universo.
Ainda que para muitos (principalmente para as feministas) a mudança do sexo da divindade já seja uma revolução, o mito cosmogênito não muda, continua sendo um mito criacionista, e portanto não existem alterações na pratica religiosa. E por isto, vemos o tempo inteiro discussões de regras e dogmas no paganismo, o que não deveria acontecer entre pagãos, já que o paganismo politeísta respeita a multiplicidade e a singularidade do divino em cada um. É como se um animista, que vê Deus e alma em tudo o que existe, pois tudo faz parte da grande divindade universal, resolvesse acreditar que o divino que mora nele é melhor que o divino que está no seu vizinho.
Assim fica a pergunta:
Em qual mito de criação você acredita?
Pense, analise e escolha uma cosmogênese de acordo com suas crenças e não uma que lhe seja imposta, pois esta liberdade de escolha garante a vida que você vai ter de acordo com suas convicções.
Se você crê em leis e dogmas que te obriguem a acreditar ou ser excluído, seja um bom monoteísta, lute contra as pesquisas de célula tronco, contra o uso dos anticoncepcionais, contra o aborto em caso de estupro e todas as outras coisas que vá contra os livros sagrados dos monoteístas revelados, milhões de pessoas vivem assim.
Se você prefere acreditar na evolução do universo e em deuses que sejam seus antepassados e podem conversar diretamente contigo, busque nos mitos evolucionistas aquele que te fale ao coração e que sua alma se identifique.
Ou se preferir busque os mitos onde você, os deuses e tudo que existe são parte de uma mesma força universal, e viva bem, pois a religião deve dar suporte para sua vida, seus sonhos e realizações e não para mantê-lo amarrado a regras e obrigações que você não aceita, pois ser obrigado a fazer o que não aceita atrapalha a busca da felicidade.
Você tem toda a liberdade do mundo para escolher o que você quer para você, mas por favor:
Não misture religiões e cosmogêneses conflitantes, pois ira atrapalhar sua vida.
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