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Gwydyon Drake
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*O Nascimento de Teleté (final)


Enquanto Dionisio descansava de sua vitória contra os exércitos frígios nas margens do lago Astacida, onde, com seus cacheados cabelos sem trançar, elevou seus braços sobre um dos rios que abasteciam o lago e transformou suas torrentes em vinho branco, por compaixão ao exército inimigo que seria totalmente destroçado por suas forças. Com o vinho descendo o rio burburejando e o vento carregando o perfume de suas uvas, estancaram a batalha e ambos os exércitos, que há pouco guerreavam, se confraternizaram e por toda parte as palavras de um chefe inimigo que não cansava de repetir a todos que o cercavam:
Hebe, levanta sua taça e vem aqui com Ganimedes, e você troiano servidor de Zeus, que nasceu próximo daqui, venham encher as crateras deste rio para levar aos Deuses. E vocês meus amigos venham beber deste divino manancial, Eu daqui posso ver os céus, pois aquilo que chamam de néctar dos deuses, borbulha aqui espontaneamente na corrente terrena das Náiades.
E o que antes era uma batalha sangrenta se tornou apoteose dionisíaca.
Feliz por sua intervenção, Lineu descansava num bosque próximo ao lago e, quando virou-se para um barulho de corrida apressada, viu Nicea, e neste momento Eros soltou a mão da seu mais encantada flecha que cortando os ares cravou-se no peito do filho do raio. E súbito brotou uma incontrolável paixão, que fez o deus abandonar seu descanso e seguir apressadamente a donzela, enquanto dizia para si mesmo as palavras:
"Correrei até onde ela encontre a sua caça, até onde ela faça seu leito perfumado pelo seu corpo virgem e vou declarar todo o meu amor. E se ela me rechaçar como fez a Himno, se me mandar embora como uma colérica amazona vomitando suas ameaças, eu cairei de joelhos como um suplicante, abraçarei suas pernas, não com um ramo de oliveira, já que esta planta é da Sem Mãe, a donzela que não conhece o amor, mas com ramas de videira, carregada com suculentos cachos das gotas que contém a essência do vinho.
E se ainda assim, esta moça de curvo arco se desgostar, permanecerei firme ainda que ela me fira com sua lança, ou que com suas delicadas mãos ela arranque os cachos do meu transado cabelo. Nunca me separarei desta donzela, pois quando a vi , foi como se toda Astácida tivesse florescido em uma nova primavera.
Eu deveria como meu pai me transformar num touro e carregar esta donzela, caminhando sobre as águas com ela, para que ela cheia de medo agarrasse firmemente com as suas delicadas mão aos meus cornos e me guiasse como um leme. Por ela eu me choveria em ouro sobre o seu corpo, uma beleza resplandecente como esta merece um amante dourado.
Se aproximando dela, elevou sua voz e prometeu mil coisas, mil maravilhas, mil dotes e tudo o que passava pelo seu coração febril. Ofereceu bodas divinas, imortalidade, morada no Olimpo e transformar-se em seu escravo e todas as coisas que um homem oferece, ainda sabendo que a maioria delas é impossível. Mas ele era um Deus e tudo que prometia podia realizar. Mas ainda assim ela não se deteve, somente quando ele gritou: "Espera donzela o seu amante imortal, espera Baco que te ama!
Foi quando ela estancou e virando-se pra ele falou as terríveis palavras:
Fale isto para outra, uma que goste do amor. Se um dia conseguir arrastar para sua cama Ártemis ou aquela dos olhos verdes, quem sabe possa me ter como noiva, e não se aproxime mais de mim, ou eu ferirei Dionisio, aquele que nunca foi ferido e se nem o aço conseguir furar seu corpo farei o que Efimedea fez com seu irmão Ares, te prenderei com correntes e o guardarei em um pote de bronze, durante o ciclo das doze luas, até que esta sua paixão acabe. E não me toques com suas mãos doentes de paixão. Eu carrego o Arco e você o tirso, eu caço feras e leões e sou como Ártemis. Vá caçar veados com Afrodite nos montes do Líbano e me deixe em paz.
Não aceito você em meu leito, ainda que tenhas o sangue de Zeus, se desejasse um deus como amante, não seria você Deus débil e de farta cabeleira sem armas, sem escudo e com aparência feminina. Eu escolheria o senhor do arco ou o bronzeado Ares, pois poderia ganhar um arco ou um escudo como presente. E como de ti não quero nada, afasta-se e não corra atrás de mim, suas sandálias femininas não se comparam as minhas botas de caça.
Falando assim saiu novamente na corrida, escapando de Baco e rindo.
O que ela não sabia é que há muito ela vinha desrespeitando as leis de Têmis, as leis universais e com isto há muito tinha ultrapassado as próprias medidas. Como desrespeitar as artes de deusas como Afrodite, Atena e se comparar a Ártemis e desprezar Hera?
Dionisio, ainda encantado pela seta dourada de Eros, caiu em profunda tristeza, os sátiros já não o alegravam, não se encantava mais com suas bacantes e nem se divertia com os silenos e quando uma divindade entra em crise existencial, a natureza em sua volta perde o vigor. O Bromio, no afã de perseguir a donzela, errava pelos bosques e se esquecia da sua própria natureza divina.
Triste, tinha o único consolo conversando com um cachorro perdigueiro, que lhe foi emprestado por Pã, já que Dionisio estava à caça, nada melhor segundo Pã e sua ironia, do que ser acompanhado por um cão de bom faro.
E nas noites escuras da floresta era o companheiro de Leneu com suas lamentações:
Por que ainda me segue? Você é digno de Pã com sua alegria, porque continua com o solitário Dionisio enquanto eu persigo uma mulher? Por acaso o seu dono te adestrou para acompanhar os doentes de Amor? Somente você me acompanha por estes vales e montanhas, só você se penaliza pela minha dor e me acompanha como uma pessoa amiga pelas colinas desta íngreme floresta em que mora errante donzela. Você se esforça por seu amo e eu vou te conceder uma graça, por toda esta dedicação, vou te colocar nos céus como Sírius o cão de Orion, e a estrela de Maíra a cadela de Icário e você também vai orientar os humanos no cultivo da vinha - para os antigos o verão se iniciava com o aparecimento de Sirius no horizonte, e com sua elevação sabia-se a data da colheita das uvas no outono - Por que te elevar nos céus como o terceiro cão junto a Orion? Você é um caçador e brilha como um bom companheiro e se te fosse dada a voz humana, eu sei que lamentaria comigo a fuga desta donzela. Eu sei que o Crônida deu entendimento e inteligência aos cães, só não lhes deu a voz. Você será uma estrela!
Portanto cão estrelado, tenho que parabenizar a Pã, porque seus cães também perseguem o amor. Ele é o deus mais feliz, já que seus cachorros farejam donzelas e ele só segue vocês, cães alcoviteiros !!!
Era um dos poucos momentos que Leneu sorria, e logo voltava as suas lamentações e nem percebia que o cão continuava atento ao seu lado. Chorava por seu amor e pelo desprezo da donzela. Um velho Fresno, que estava ao seu lado, falou ao deus de dentro da sua exuberante folhagem, depois de escutar os lamentos com voz enamorada:
Outros donos de perdigueiros caçam por estes lugares com a certeira flecheira Ártemis, mas você é diferente, é um caçador de Afrodite, humnm, Um caçador que se assusta com uma menina virgem de pele suave, Baco o valente vencedor de batalhas, suplica e mendiga um pouco de amor. Com suas mãos matadora de gigantes, roga a tão débil donzela. Seu pai nunca precisou de palavras para conquistar seus amores. Nunca usou poesias ou palavras de amor. Ele não implorou a sua mãe Semele ainda que apaixonado por ela, nunca seduziu Danae para tirar-lhe a virgindade.
Você é um deus meu caro e deuses não rogam aos humanos, o contrário que é verdadeiro. Leneu é o senhor das vinhas e de sua inebriante bebida, e com ela venceu há poucos dias um exercito inimigo. Como não pode com uma menina? Cerque-a, faça com que ela corra para o seu rio borbulhante de suave vinho, correr dá sede aos humanos. Ao invés de se lamentar com seu cão, faço um cerco com ele de modo que ela se depare com a sua bebida.
E assim foi feito e na manhã seguinte ele e o cachorro correram como faziam diariamente só que desta vez fizeram que ela corresse em direção ao rio de vinho que Dionisio fizera brotar e quando lá chegou sua boca estava seca e a donzela matou sua sede com o delicioso nectar das uvas.
Quanto mais bebia da sagrada bebida, mais ela gostava e não se saciava. Logo sua cabeça começou a girar numa leve tontura, e suas pernas já não sustinham o seu corpo. Uma leveza tomava conta de seu corpo todo, parecia que flutuava e deitou-se na relva que margeava o rio e sorria ao ver que todo o bosque girava em torno de seu corpo e se entregou ao filho de Érebo e Nix. Hipno a pegou nos braços e a entregou aos seus oníricos filhos que a carregaram com suas asas para o mundo das fantasias.
Vendo a donzela adormecida, o Bromio agora silencioso, aproximou-se deslizando com movimentos calculados a despiu vagarosamente a donzela com mãos cuidadosas, até que a viu totalmente nua e deslumbrou-se com sua beleza.

A Terra que antes havia chorado a morte de Himno, agora fez brotar a natureza com a força da primavera, um leito de ervas perfumadas para acomodar o corpo de Nicea e ao redor do casal fez crescer uma parreira que formava um caramanchão que abrigava Dionisio e o escondia em meio as viçosos cachos de uvas cor de rubi.
Foi uma união enganosa, como um sonho de amor, que os mil filhos de Hipno embalavam a moça sonolenta fazendo com que ela participasse e partilhando os beijos de Dionisio, ela se entregou com delicia as artes da Citereia. Zéfiro com sua brisa suave, sibilava entre as árvores como se toda o bosque sussurrasse "hímen himeneu, hímen himeneu, hímen himeneu, hímen himeneu" como na canção que consagrava as bodas. E entre beijos e afagos Nicea entregou sua virgindade a Leneu, o deus das vindimas, que apaixonado, prolongava o prazer de ambos pelo dia inteiro, até a noite alta.
Eros então separou em sua aljava uma seta igual aquela que atirou em Dafne, a flecha de chumbo que trazia o desamor, a mais temida das armas, aquela que causava horror e nojo, e apontou seu arco para o coração de Baco. E o encanto se rompeu, a natureza antecipou o inverno, secando tudo que havia construído para as bodas, a brisa suave de Zéfiro cedeu aos ventos gelados de Boréas. Hipno, afastou seus suaves e oníricos filhos e deixou que Himno entrasse na mente de Nicea e o doce pastor falou a ela com uma mascara de ódio:
Veja menina, até as Iríneas podem ser galantes, fugiste de mim o seu pretendente, e depois de Dionisio e é agora uma o que restou para você? O que restou da sua arrogância e dos seus desafios aos deuses?
Você olhou com desprezo para o digno sangue de um pastor morto, olhe agora com lamentos para o sangue da sua virgindade perdida.
Você matou aquele que verdadeiramente te amava e a perseguia, persiga agora aquele que nunca se casa.
E depois de ter falado, Himno desapareceu, deixando Nicea com seu dolorido despertar na madrugada escura.
Enquanto isto um sátiro, que foi um insaciável observador da união secreta de Baco, olhava a donzela em seus agitados sonhos e Gritou a Pã :
Deus de belos chifres, você também persegue somente a Afrodite e nunca alcança Eco. Quando vai maquinar uma artimanha como esta? Querido Pã, converta-se também em vinhateiro, e deixe de ser pastor, abjure seu cajado e abandone os cabrões e as ovelhas e comece a plantar a vinha, se não nunca veremos suas bodas com Eco!
Mesmo ante de terminar de falar foi interrompido por Pã:
Quem dera que meu pai tivesse me ensinado o segredo do vinho... que eu fosse o dono da enganosa uva e como Baco, pudesse desfrutar da desdenhosa Eco. Dionisio com seu engenho criou um remédio para curar as dores do amor. Já minhas cabras só dão leite e não podem contribuir embebedar uma noiva e arrasta-la para o matrimonio. A Sirinix - a flauta de Pã - foge dos himeneus, mas se alegra em soar evoés em honra a Baco por fazer com que Nicea fosse castigada e Eco responde entoando suas notas de alegria, sempre longe e a distancia. Oh Dionisio encantador dos mortais, pastor da virginal ebriedade, você é feliz pois ainda que a donzela recusasse, criaste o vinho como alcoviteiro e escudeiro do amor.
Nicea despertou de seu sono, ainda atordoada, com vagas lembranças de seu himeneu e com as palavras de Himno ainda bem fortes nos seus ouvidos e correu com a mão ao encontro da sua renitente virgindade e encontrou apenas umidade e sangue, que confirmaram os sonhos e o pesadelo. Ouviu ressoar por todo o bosque as risadas de Nemésis, e se percebeu nua. Arranhou com suas unhas o próprio rosto e golpeou seu ventre com os punhos fechados. Clamou contra Ártemis por não protegê-la, se esquecendo as tantas vezes que se julgou melhor que a deusa. Maldisse Atena, sem se lembrar que nunca havia louvado suas artes. Vociferava contra Afrodite e Eros sem recordar que nunca ouvira os seus chamados. Buscou Dionisio como uma presa, milhares de flechas foram atiradas em cada vulto ou sombra que se movia na floresta, clamava aos céus para que o Crônida secasse aquela corrente que Baco transformara em Vinho, lançou tempestades de flechas contra o céu quando via o rastro de alguma divindade. Até perceber que estava sozinha, pois nunca louvara aos deuses. Nunca dedicara um único sacrifício aos que comandam o mundo. E se percebendo só, sentiu que uma outra vida crescia dentro dela, pois a semente de Baco é forte e germina onde seja lançada.
Quis matar-se se lançando dos montes, mas daimons amorteciam sua queda. Pensou em se enforcar, para que todos vissem que seu corpo pendurado, e se condoessem do seu destino. E neste afã de destruir-se, perdeu parte da sua beleza, sua pele branca e suave estava lanhada por espinhos, seus capelos desgrenhados e cobertos de pó, já que se afastava das correntes límpidas onde antes se banhava, por temer encontrar novamente na torrente o enganoso licor de Dionisio. Até que um dia percebeu que o veneno que havia a destruído era a fonte para o esquecimento e para a sua paz. E se entregou finalmente ao seu destino, dar a luz a Teleté, a iniciação, o caminho para os humanos se encontrar com os deuses.
Quando chegou ao momento do parto, as Horas foram suas parteiras, como testemunhas do ciclo das nove luas para o nascimento e após nascer a menina, entregou o seu corpo ao lago Astácida, aquele que um dia conteve o puro vinho de seu amante.
Teleté floresceu entre os sátiros e as bacantes, aprendendo e desfrutando de todas as celebrações, dançando todas as noites e seguindo seu pai se deleitava com os ditirambos e com o toque do duplo tambor de pele de bois, os pandeiros e os símbolos. Teleté é aquela que ensina aos acólitos se tornarem sacerdotes, a não exacerbarem a Hýdris e louvarem a Diké.
Junto ao lago, Baco honrou a mãe de Teleté, fundando a cidade de Nicea, que existe até os nossos dias na Anatólia

Publicado em 24.12.2007

 

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