O belo pastor está morto
Uma bela menina o matou
Uma donzela deu a morte
A quem verdadeiramente a amava
Em vez de filtros de amores
Fatal recompensa lhe deu
Banhou seu bronze no sangue
Do pastor enamorado
Apagando a chama do amor
O belo pastor está morto
Uma bela menina o matou
Vestiu as ninfas de luto
Não escutando a montanha
Não atendeu ao Olmo e o Pinheiro
Que lhe diziam assim:
"Não lances esta seta
não mate este pastor"
O lobo chora por Himno
Se condoem os ferozes ursos.
Com coragem no olhar
Chora também o leão
O belo pastor está morto
Uma bela menina o matou
Busca em outros montes os bois
Outro monte no exilio
Pois o amoroso pastor
Morreu pelas mãos de uma menina
Que novos pastos verá
Adeus pastos, adeus aos seus leitos silvestres.
O belo pastor está morto
Uma bela menina o matou
Adeus picos e montanhas
Adeus fontes e ninfas
Adeus a todas as arvores
Tanto Apolo quanto Pan
Clamam desconsolados
Onde existe a justiça?
Onde se encontra o amor?
Eros não toque nas suas flechas
Que não cante a Flauta
Morreu o musico pastor.
Nos bosques próximos a um lago da Astécida morava uma donzela armada de arco, que foi criada junto às Ninfas Astácias que habitavam a floresta deserta. Era a linda Nicea, uma segunda Ártemis - a caçadora de lebres, que permanecia alheia ao amor e as artes da Citerea, dedicada à caça de feras e a rastrear os montes. Não se ocultava nos perfumados aposentos das donzelas, o seu tear era um arco e suas setas os fios e a dura tessitura de sua rede de caça foram o único tear desta Atena montanhesa.
Andava como companheira de fadiga da casta flecheira e nos montes tinha mais prazer com sua rede que com os fios do tear. Ao descuidar dos amores e dos trabalhos domésticos, artes de Afrodite e Athena, e ao ocupar-se somente da caça, arte de Ártemis, despertava de certa forma a hýbris de Hipólito. Porém nunca alvejava com seu arco os cervos nem as gazelas ou lebres, preferindo flagelar com setas o lombo dos leões e acertar com sua lança os ursos ferozes. Reprovava A Flechadora, por usar cervos para mover seu carro e por ter renunciado à caça de feras, como as jaspeadas panteras ou feros leões - novamente vemos a hýbris exaltada, reprovando Ártemis e caçando animais de Dionisio e Cibele.
Pouco se importava com os perfumes, preferindo as águas geladas que vertiam das correntes cristalinas que desciam pelos montes. O lar desta garota era as desertas encostas, os inacessíveis cumes e o abrigo natural de uma gruta. Geralmente terminava o seu dia, depois de uma boa caçada, sentada ao lado de panteras, ao abrigo de uma côncava caverna, dormindo ao lado de uma leoa parturiente, que lambia suas mãos, pois acreditava que a donzela não era outra senão Ártemis, e dobrava para ela sua coluna, oferecendo a cabeça para um afago.
Naquele tempo vivia nos prados próximos às florestas um Jovem pastor de bois, que havia sido criado nos montes. Com duros e fortes músculos, alto e orgulhoso da sua juventude e beleza, carregava em suas formosas mãos o cajado de boieiro. Seu nome era Himno, pastoreava seus lindos bois no meio da floresta agreste, próximo dos lugares onde caçava a donzela.
Uma vez, pelas artes de Eros, ambos se encontraram e Himno enamorou-se perdidamente pela garota. Nunca mais encontrou prazer no pastoreio, e como Anquises - Pai de Enéas - quando viu a rosada figura de Cipris agitando seu cinturão de encantos tentando afastar os bois do seu rebanho, que a cercavam, Himno parou encantado pela beleza de Nicea, como se esta fosse uma Afrodite armada e selvagem. O pastor esqueceu-se totalmente do rebanho ao contemplar por entre as folhas a alva menina caçando. Assim seus bezerros e reses se perdiam vagando por florestas e pântanos. A vaca guia andava sem rumo badalando o sino de bronze que carregava no pescoço, que traduzia em triste melodia o desencanto do rebanho perdido de seu pastor. Enquanto isso o jovem boieiro perambulava escondido entre as folhas transformado em caçador, como se a caçadora fosse sua presa, a vislumbrar a rosada face da virginal donzela.
Com malícia o Amor incitou o pastor enamorado, turvando sua razão com o irresistível dardo. Como que lançando-se à caça, a donzela atravessou caminhos intransponíveis, suas roupas inflaram com o vento revelando seu corpo, que resplandecia de formosura. Suas brancas coxas brilhavam e suas rosadas canelas como se fossem lirios umas e anêmonas outras. Apareciam seus membros inferiores como de um prado rosáceo (a palavra prado aqui usada, do grego "leimon", tem duplo sentido pois era usada tanto como prado, como vagina em linguagem popular do Brasil, traduziríamos como: suas coxas saiam de um gramado rosado, para ter o sentido dado por Nono), o Jovem levado pelo desejo, olhava insaciável, contemplando a junção das suas coxas. O vento agitava os cachos da sua cabeleira que se elevava em ambos os lados do lindo rosto, e ao levantar-se revelava e escondia o reluzente colo da rapariga.
Apaixonado, Himno perguntava-se: "Teria Hera braços tão alvos como Nicea?". E ao cair da noite esforçava seus olhos para ver quem era mais branca, a moça ou Selene.
O jovem albergava em seu coração a ferida do amor, e perto ou longe não parava de pensar nela, na forma com que suas flechas enterravam nos ursos da montanha, de como com suas próprias mãos estrangulou um leão, de que maneira ela suava durante suas corridas, como ela se banhava nua nas fontes e como o vento levantava suas vestes até a altura da cintura desnudando a flor da formosura dela, fazendo que seu corpo também florescesse, revelando sua masculinidade. Rezava e pedia aos ventos para que mais uma vez soprassem e novamente elevassem a túnica de fundas pregas.
Observando Nicea, Himno pronunciou as seguintes palavras, para si mesmo: "Quisera eu ser uma flecha, uma rede ou uma aljava. Oxalá pudesse ser uma flecha matadora de feras, para que ela me pegasse com suas mãos desnudas. Ainda mais, queria ser a corda do seu arco bem tencionado até o fim, para poder roçar seus níveos peitos e com sorte triscar em seus rosados mamilos. Ai menina, você leva apetrechos felizes, seus dourados dardos são mais felizes que eu, Himno o boieiro, pois estes podem tocar suas mãos que destilam o amor".
E depois fala aos céus: "Citerea, porque você não se compadece de mim? Porque não dá atenção a um pastor, que está tão apaixonado? Eu não conheço Tinacria (ilha onde se encontra os rebanhos de Hélios), nem seus cornudos rebanhos, nunca pastoreei os bois de Helios por estas montanhas, meu pai nunca revelou seus segredos, seus amores secretos - referencia a Helios ter revelado o romance de Afrodite e Ares e por isto amaldiçoasse suas filhas - Oh Deusas não me rechace, porque levo bois aos pastos, pois os pastores povoam os feitos dos imortais. Não foi pelo troiano Titono, o pastor que por sua beleza Eos, a Aurora portadora da luz, deteve seu carro para raptá-lo? Ganimedes o copeiro de Zeus, não pastoreava bois quando Zeus com suas asas e garras de águia desceu dos céus para buscá-lo? Afrodite, faça com seus encantos de Nicea uma nova Selene, sendo eu outro Endimion. Faça com que suas armas caiam por terra e que ela tome comigo o cajado".
Tomado de coragem por sua prece, caiu de joelhos abraçando as pernas de Nicea e tomado de desejo, beijou sua lança, aljava e flechas. Seu ardor cresceu tanto que em súbita ousadia falou com palavras quase inaudíveis, sob o olhar irritado da donzela: "Por Afrodite Páfia, falem de novo as árvores como do tempo de Deucalião e Pirra, e censurem esta garota insensata. Também você Dafne, use sua arbórea voz para dizer que se Nicea vivesse nos tempos passados, Apolo não a teria perseguido, pois Nicea é ainda mais formosa, e não teria me transformado em árvore".
Falando assim frases desconexas e perdidas, tomou sua flauta e entoou uma música amorosa, que fez florescer o bosque e atraiu os pequenos animais para perto de si.
Porem, a rapariga desvencilhando-se do pastor, falou com desdém e sarcasmo: "Oras, que belo Pan temos aqui, tocando esta canção amorosa e pífia com sua flauta, como testemunho da sua dor! Pãn tocou melhores canções e com mais força, mas nem por isto conseguiu o amor de Eco. Dafnis, o filho siciliano de Hermes, o pastor, também não conseguiu o amor de Nómia. E quantas canções escutou Dafne do melodioso Apolo sem que seu coração abrandasse".
E sem dizer mais nenhuma palavra apontou sua terrível lança de afiado bronze para o peito do rapaz. Ele golpeado pela seta da doce loucura, sem pensar que a moça fosse tão implacável, disse estas palavras de amor, que pressagiavam a sua própria morte: "Sim, mata-me com suas brancas mãos para me dar prazer. Não tenho medo da sua lança, flechas ou a da afiada espada de uma donzela que rechaça o matrimônio. Pois estas armas me trarão um fim mais rápido e menos doloroso do que esta ferida no meu peito, esta chaga de amor que sangra diariamente.
Quem dera morrer rapidamente com seu dardo, já que o filho da Páfia (outro epíteto de Afrodite) me feriu antes. Mata-me, para que a terra cubra e oculte a ferida flamejante que tenho no meu peito. Mata este homem enfermo de paixão, que não vê mais nenhuma graça na vida. Mata-me com uma flecha, pois com outra fui ferido e dá-me o prazer de ver frente a frente seus olhos cintilantes, e seus dedos liberarem a seta morta, pois assim verei de perto a corda do arco roçar seus peitos, algo que muito eu sonhava fazer. Depois de matar-me jogue com suas próprias mãos um pouco de pó sobre o meu corpo, para que os que verem digam que você foi piedosa e se compadeceu da minha morte. Não ponha minha flauta sobre a minha tumba, nem meu cajado de pastor como testemunha do meu oficio. Crave mais uma seta sobre o meu túmulo, para que saibam que morri por ti. Conceda-me uma graça póstuma, planta um narciso sobre os meus restos, também jacinto, açafrão e por ultimo uma anêmona, flores efêmeras como foi a vida dos jovens amantes que se transformaram nelas. Escreva em vermelho sobre a lápide branca: 'Jáz aqui Himno, o pastor de bois, que foi morto por Nicea sem lhe conceder a graça do seu leito, porém concedeu honras fúnebres a ele'".
Sem nenhuma palavra, Nicea soltou sua lança e pegou uma longa e reta seta em sua aljava, posicionou-a no arco e o distendeu o mais que pode e lançou o dardo veloz como o vento, contra o peito do infeliz pastor, calando as palavras que ainda ressoavam.
Porém o pastor não caiu sem lágrimas. As ninfas da montanha choram por ele, assim como as náiades do lago e das nascentes. Reunidas, as ninfas de Cibele censuraram o comportamento de Nicea, e entoaram uma litania e as filhas do sol gritaram ainda mais desconsoladamente do que quando morreu Faetonte.
As árvores murmuravam entre si, pedindo justiça. Adastrea (a justiça) mostrou o corpo caído para a Ciprogênia- nascida em Chipre - para que esta castigasse seu filho Eros.
Cibele, mesmo não sendo afeita a casamentos, chorou sem lágrimas, em seu carro de leões e Apolo mostrou a sua irmã o sangue enamorado do pastor sem culpa e até mesmo ela, tão alheia as coisas do amor, chorou pelo amor de Himno.
Afrodite, revoltada, tramou com Eros um castigo para Nicea. Logo, o pequeno demônio, separou uma das suas mais afiadas flechas e mirou para o peito de Dionisio. Ele seria o agente da vingança de Afrodite.
Versão livre dos versos 170-425 do livro XV, das Dionisíacas de Nono de Panópolis.
Continua...
Publicado em 12.12.2007
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