Como vivemos falando, a mitologia - com todos os seus deuses e heróis - pode ser melhor compreendida se imaginarmos que toda ela é ligada pelo DNA divino. Quando estudamos a mitologia um pouco mais a fundo, vamos percebendo que todos os seus personagens, sejam eles deuses ou humanos, estão ligados por laços familiares. Todas as histórias são histórias de linhagens, de clãs que, a partir de um antepassado divino, vão desenvolvendo a História da Grécia (que em parte é a história do ocidente). Portanto, para a maioria de nós brasileiros, que nascemos neste caldeirão de raças que é o Brasil e temos raízes culturais que se iniciaram na Grécia Antiga (não se esqueçam que o Neguinho da Beija Flor tem mais de 80% de sangue europeu), assim de certa forma carregamos em nós sangue europeu e também descendemos dos Deuses.
Em meio às pesquisas que ando fazendo sobre a história de Páris, achei mais uma particularidade na linhagem de Odysseus, mesmo depois de escrever um conto tendo Odysseus como tema, que brevemente será publicado, e por isto não vou tocar neste conto agora, mas este parênteses serve para ilustrar o quanto ignoramos (por mais que estudamos um personagem) a sua linhagem e seus antepassados.
Conhecer a linhagem dos deuses e dos heróis nos leva a compreendermos melhor suas atitudes e sua história, e por conseqüência vamos conhecer melhor nossa história e nossas atitudes.
Creio que a maior parte de vocês já tenha ouvido falar de Sísifo, um mito muito explorado pela psicologia, embora como sempre os psicólogos elejam apenas um arquétipo, esquecendo toda a complexidade do mito. Sísifo é um dos personagens dos castigos eternos dado por Zeus: ele foi condenado a passar toda a eternidade empurrando uma pedra morro acima e quando está prestes a chegar ao topo, algo o distrai e ele deixa que a pedra role novamente até o sopé da montanha.
Porém pouco sabemos sobre quem foi Sísifo e porque ele ganhou este castigo, vamos então contar a história do nascimento de Odysseus começando por ele.
Sísifo é filho do Rei Éolo da Tessalia, que é neto de Deucalião e Pirra, os sobreviventes do diluvio de Zeus e considerado os ancestrais dos eólios. Portanto Sísifo é filho de uma linhagem primitiva e antiga, já que Deucalião é filho de Prometeu e Pirra filha Epimeteu, filhos dos Titãs. Sísifo vivia ainda no tempo em que os deuses caminhavam sobre a terra e se confraternizavam com os mortais. Era conhecido por sua astúcia e morava numa fortaleza, um ninho de águias, no alto de um penhasco em Éfira, de onde se descortinava o istmo onde mais tarde fundaria Corinto. De lá ele via tudo o que ocorria nas redondezas e dali ele assistiu a Zeus raptar Egina, filha do deus rio Ásopo.
Acreditando que poderia tirar alguma vantagem do ocorrido, fez com que Ásopo ficasse sabendo que ele Sísifo sabia algo do sumiço de sua filha e então lhe procurasse. E foi o que ocorreu. Logo o Rio Ásopo subiu a montanha onde ele vivia, procurando informações. Sísifo poderia imediatamente revelar o destino de Egina, mas sempre havia lamentado a falta de uma fonte de água fresca na sua fortaleza e só revelou o Rapto e o destino da Filha de Ásopo após este fazer brotar uma fonte em sua propriedade.
Por uma fonte ele traiu Zeus e atraiu para si a cólera deste. Furioso, o raptor teve que devolver a presa e, irritado, chamou Tânatos - a morte - e ordenou que esta levasse o dedo duro.

Neste ponto perdemos o fio do mito, e não sabemos como Sísifo enganou a morte, mas é certo que ele, com suas artimanhas, enganou a morte e acorrentou-a em uma rocha. A partir deste momento ninguém mais morreu na terra. Guerras aconteciam e ninguém morria, as pestes perderam sua força letal e o castigo dos deuses deixou de ser temido e isto afetava a ordem natural das coisas. Quando percebeu isto, Sísifo já contabilizava, o quanto tiraria dos deuses para libertar Tânatos. Porém, ele que esperava negociar sua vida com Zeus esqueceu-se de um deus que nunca negociava e que estava realmente irritado com a ausência da morte. Ares, o deus da guerra, que ao contrário dos demais deuses não desenvolveu nenhuma estratégia ou planos para libertar Tânatos, simplesmente subiu o morro na corrida, escalou as muralhas de pedra e com um só golpe da sua espada cortou as cadeias que a acorrentavam. Com a Morte livre, Ares acorrentou Sísifo e o entregou a ela, com a recomendação de que levasse imediatamente o ardiloso para as moradas de Hades. E voltou para a sua morada na Trácia imaginando quantas guerras iria fazer.
Porém o trampolineiro havia sido um bom anfitrião durante a estada da morte em seus domínios, e por estes bons momentos pediu um ultimo favor à Morte; pediu-lhe que precisava fazer seu testamento e dar recomendações à sua esposa Mérope, antes de partir para a morada dos mortos. Não vendo mal nenhum nisto, Tânatos consentiu e Sísifo, em segredo, pediu a sua mulher que mais ninguém no reino fizesse sacrifícios aos deuses subterrâneos e que de forma alguma se louvassem Hades e Perséfone depois que ele se fosse, e acompanhou Tânatos à morada do senhor das portas.
Como um rei primitivo e senhor de muitas terras, o cumprimento de suas ordens inquietou os senhores do Hades, que o chamaram para saber o que ocorria nos seus domínios. Com palavras hábeis, Sísifo persuadiu a Rainha Perséfone a deixá-lo sair para ordenar que os sacrifícios voltassem e que os presentes sacrificiais, carne e sangue, voltassem a chegar com abundância ao reino dos mortos. Despediu-se dos soberanos e de Zagreus, filho do Zeus infernal e Perséfone, e para si mesmo deu adeus ao mundo subterrâneo e saiu levando segredos que ouviu por lá.
Escapando da morte pela Segunda vez, voltou a cuidar de suas terras e teve que enfrentar com seus estratagemas um inimigo de respeito: Autólico, o rei dos ladrões e malandro mor.
Autólico (seu nome significava verdadeiro lobo) era filho de Hermes com uma das amadas de Apolo. Hermes, numa noite escura, assumiu o lugar do irmão mais velho no leito de Quíone, a donzela de neve, num esconderijo no Monte Parnaso. E assim nasceu o verdadeiro lobo, que reverenciou Hermes acima de todos os deuses e com isto ganhou do pai poderes extraordinários e todo o talento para malandragens, roubos e perjúrios ardilosos. Autólico era capaz de tornar invisível o que ele tocava, transformava animais brancos em negros, e estes em vermelhos, arrancava os chifres de animais que os tinha, para colocá-los nos que não tinham.
Naqueles tempos primordiais os campos abertos eram imensos, a população ainda era escassa, o diluvio havia acontecido há duas gerações, e os rebanhos de Sísifo e Autólico pastavam nestes horizontes sem fim. Autólico nunca era apanhado quando roubava gado e Sísifo apenas via seus rebanhos diminuírem enquanto os do outro aumentava. Forjou um estratagema. Como foi um dos primeiro a conhecer as letras, gravou seu nome nos casco de suas reses, mas rapidamente Autólico arrumou um jeito de alterar as marcas, pois podia alterar qualquer coisa que se referisse a animais.
Sísifo, então, derramou chumbo derretido na parte oca dos cascos em forma de letras que produziam nas passadas do gado a frase: "Autólico me roubou".
Depois desta prova, ambos se tornaram amigos inseparáveis, trocando tratados de amizade e hospitalidade. Esta hospitalidade foi tanta que, num antiga Taça grega, temos uma cena insólita gravada de forma indisfarçável: Sísifo no quarto de dormir da Filha do Hospedeiro - o velhaco mor estava sentado na cama de Anticléia e a rapariga ao lado brincava com seu fuso, uma atitude bem digna do mandrião. E também seria uma atitude digna do pai da moça, ao oferecer sua filha ao único homem que o sobrepujara em astúcia, certamente imaginando que o sangue de ambos poderia produzir o homem mais esperto da história.
O fato é que se isto aconteceu, Laertes o noivo não foi enganado, pois como pirata e também ladrão de gado, possivelmente gostaria de ter um filho com este potencial e com certeza casou com Anticléia já gravida, sem se incomodar com isto.
Um pintor de vasos da Magna Grécia preservou-nos esta cena, onde o mancebo Laertes apresenta a sua noiva grávida a espectadores espantados, enquanto Autólico ergue e aponta para uma folha onde está gravado o nome de Sísifo. No outro lado do vaso, a vitória é de Afrodite que entrega Odysseus, o mais astuto de todos os gregos, aos cuidados de Laertes, o seu pai mitológico. Mas esta história com Sísifo fez muito sentido.
Publicado em 11.11.2007
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