Uma vez li ou vi em algum lugar que na Índia ou na África (ou nos dois lugares) os humanos compreendiam a natureza dos animais e das coisas e por isto não as temiam. Conheciam a natureza delas e conhecendo a natureza sabiam como agiam.
Um outro dia, confirmando que não era sonho, um amigo falou sobre este assunto. Falou sobre a intimidade que os indianos tem com as cobras, a ponto de desmoralizá-las com tapas na cabeça quando não se comportam como eles querem. Falou também de ter visto uma feiticeira africana rezando para conter um hipopótamo e o bicho enorme ficou quietinho (e eu sei que os hipopótamos matam mais humanos que os leões). Lembrei também que os ferreiros da antigüidade eram conhecidos por conhecer a alma e a natureza dos metais e por isto podiam moldá-los.
A natureza dos animais e das coisas é como a nossa natureza. Somos formado todos do mesmo material vindo do caos através das estrelas e juntados pelas forças universais que chamamos de deuses.
Então podemos dizer que a natureza das coisas é relativa aos deuses que as compõem. Assim podemos a grosso modo imaginar os deuses como cada um dos elementos da tabela periódica, e tudo o que conhecemos é formado por eles.
Assim um ferreiro dobra o ferro incandescente, porque conhece os deuses que formam o ferro e como eles se comportam. Quando une o ferro e o carvão reconhece neles as divindades e só por isto conseguem fazer o aço. O hindu que controla a Naja conhece os deuses da Naja e por isto podem brincar com ela, a feiticeira africana conhece os deuses do hipopótamo assim como os Massais conhecem os deuses e as almas dos leões, por isto os leões conhecem os Massais e fogem do seu cheiro, vêem nos Massais aqueles que podem mata-los.
Nós também somos assim. Somos uma soma dos deuses que nos compõem, todas nossas reações são deles e se queremos, como dizia Apolo, se queremos nos conhecer a nós mesmos precisamos antes conhecer nossos deuses. Porém, conhecer aos nossos deuses é o trabalho de uma vida, pois cada deus tem infinitas faces e só conhecendo muitas destas podemos nos encontrar e conhecer.
É claro que conhecendo pelo menos as faces mais evidentes já podemos nos conhecer melhor e equilibrar nossas vidas. Porém são nas faces mais obscuras das divindades que vamos encontrar nossa sombras.
Quando olhamos para a nossa personalidade vamos ver uma série de comportamentos inexplicáveis que nos deixam encasquetados. De onde veio aquela súbita fúria? Ou aquela terrível tranqüilidade, enquanto tudo se desmorona em nossa volta? Paixões avassaladoras que aparecem e desaparecem do nada ou momentos que amamos a nós mesmos, mais do que qualquer outra coisa.
Ações ou inações que fazemos aparentemente contra a nossa própria vontade ocorrem quotidianamente na nossa vida sem que possamos compreender o porquê. É claro que, em nossa civilização racional, vamos achar na psicologia uma série de motivos para os nossos atos. Porém nem sempre conseguimos aceitar as explicações teóricas ou as lições dos livros de auto ajuda e buscamos apoio na religião. Porém, o que hoje no ocidente é chamada de a "Verdadeira Religião" ou Cristianismo restringe o significado da palavra religião, fazendo com que deixemos de encarar como religião experiências que hoje são excluídas do significado religioso. O monoteísmo, com seu Deus único e totalmente bom, nos força a acreditar que todas estas manifestações conscientes e inconscientes são obras de um opositor ao deus supremo, que pelo dualismo cristão representa o mal, nos causando mais culpas ao invés de resolver nossos problemas ou dúvidas.
Bem analisada por E.R. Dodds em seu livro "Os Gregos e o Irracional" a apologia de Agamemnon, quando este precisa justificar seus atos e trazer de volta Aquiles, o seu melhor guerreiro diz: - "Mas, uma vez que fui cegado por Ate (O Erro) e que Zeus levou para longe meu discernimento, estou disposto a fazer a minha paz e conceder abundante compensação". O belicoso Aquiles aceita o raciocínio de Agamemnon dizendo: - " Zeus pai, verdadeiramente grandes foram as "atai" que vós impuseste aos homens. Se não fosse assim, o Filho de Atreu nunca teria persistido em despertar o "tumus" ( sopro vital, alma) em meu peito, nem obstinadamente teria tomado a jovem contra a minha vontade".
Nas antigas religiões pagãs, a divindade não era apenas uma entidade universal, que governa os destinos do universo, mas estava e nós e no mundo que nos rodeia. Muitas vezes agia de dentro para fora e a pessoa podia ser desculpada porque seu ato pode ter ocorrido pela interferência divina. Aceitavam a natureza do outro como atenuante para seus atos. Hoje. quando sentimos que a religião oficial já não responde aos nossos anseios e buscamos a religiosidade pagã, devemos aceitar a divindade dentro de nós e em nossa volta, não mais nos vigiando e anotando nossos atos bons ou maus, mas muitas vezes incitando a estes atos.
A aceitação de que forças da naturais interferem nas nossas vidas e formam a nossa natureza interior, é um dos princípios básicos do paganismo. Sem isto jamais poderíamos nos considerar pagãos. Reconhecer quais as forças que atuam em nós e mantê-las em equilíbrio é a base do paganismo como religião
Como eu já disse temos várias reações que muitas vexes nos parecem incompatíveis com a nossa natureza, e nada nos explica porque as temos. Pode ser algo explosivo que aparece do nada e logo em seguida some, ou então agüentamos calados uma série de impropérios que nos são dirigidos. Alguns dias nada nos tira de casa, e se ainda assim saímos acontece algo que não queríamos, ou ficamos adoentados e nem podemos sair. Não vou me aprofundar muito nisso porque não é o assunto que estou tratando, mas geralmente estas manifestações estão ligadas aos deuses que temos na nossa formação. São divindades que não reconhecemos em nós se mostrando e dizendo estou aqui! Me observe! Preste atenção em mim! E geralmente não damos ouvidos, não entendemos porque isto ocorre, mas também nunca imaginamos que um deus está querendo falar conosco.
Porém, quando entendemos o recado e reconhecemos aquela manifestação como o mito de uma divindade, nos compreendemos melhor e finalmente começamos a entender a nossa própria natureza. E se compreendemos a nossa vamos compreender melhor a natureza das pessoas que nos rodeiam e com certeza vamos viver muito melhor.
Publicado em 29.09.2007
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