
Eu particularmente acho muito estranho que pessoas que se digam pagãs continuem mantendo seus valores cristãos, em maneira direta ou inversa. Isto está ligado tanto aos pagãos que querem ser bonzinhos e que buscam a luz quanto aos que querem ser demoníacos e, portanto preferem as trevas.
O conceito do dualismo é próprio das religiões monoteístas e como podemos observar neste período monoteísta da civilização ocidental, a visão dualista só nos levou ao desequilíbrio e ao atraso. Mesmo aqueles que buscam a restauração da divindade feminina como centro da religiosidade não percebem que, se isto se efetivar, continuaremos desequilibrados, pois só trocamos o pólo mantendo o desequilíbrio.
Vemos uma insana busca a divindades ditas negras, e as entidades das trevas, como maneira de se contrapor aos Deus patriarcal. Porém o que esquecem é de avaliar as informações e as fontes que falam destes deuses obscuros.
Entre uma infinidade de deusas (ditas) negras vejo como uma das mais injustiçadas Lilith, já que praticamente todas as referencias que temos a ela nos falam de um demônio lascivo, lúbrico, libidinoso e mortal aos humanos... Porém creio que a maioria dos (e das) que se auto nomeiam filhos (as) de Lilith se esquecem que as fontes que relatam Lilith são judaicas e rabínicas. Ainda que a figura de Lilith tenha sido suprimida da bíblia, vamos encontrá-la em lendas e superstições do povo judeu. Portanto, vocês não acham estranho que se procure sobre uma divindade feminina, nos escritos do povo escolhido do deus único?
Pois é, embora eu ache isto muito estranho, descobri que o único caminho para reencontrarmos a verdadeira Lilith é justamente no livro sagrado dos seguidores do filho deste deus único à bíblia e fazer comparações deste com eventos históricos e usar todos os filtros disponíveis para filtrar o que lá encontramos no livro do Gênesis o começo de tudo.
O que vemos logo nos primeiros versículos é Jeová criando o céu e a terra e fazendo brilhar a luz e logo em seguida dominando a água, primeiro a dividindo e depois a juntando em oceanos algo que vemos de maneira figurada nas mais diversas cosmogonias (notadamente nas de sociedades dominadoras). Dominar as águas, ora água sempre foi o um elemento feminino, assim Jeová teve que dominar o feminino antes de completar a sua criação.
E talvez por isto nos soe tão estranho a criação do Homem:
"(Gênesis 1:26) então deus disse: Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra. (1:27) Deus criou o homem a sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher."
Portanto o que vemos aí é que o Deus era um casal, tendo dominado o feminino incorporou-o, e trazia em si o masculino e o feminino.
O que ocorre mais adiante nos soa ainda mais estranho, logo no capitulo seguinte (2:21) Deus cria novamente a Mulher agora não mais à sua imagem semelhança, mas sim como um ser inferior vindo de uma costela de Adão, para dar-lhe uma ajuda que lhe fosse adequada, ou seja servi-lo.
O espaço que todos destinam a Lilith é este: o Gênesis entre o capitulo um e o versículo 18 do segundo capitulo. Muitos colocam Lilith como a primeira mulher de Adão, nascida a semelhança de Deus e por não ter participado da culpa original, permaneceu imortal, enquanto Adão e Eva padeceram da mortalidade.
O que encontramos na bíblia é só isto, nem uma pista exceto em Isaias no capitulo 34 onde ele revela o castigo aos pagãos (:14) Nela se encontrarão cães e gatos selvagens, e os satíros chamarão uns pelos outros; Lilith freqüentará estes lugares e neles encontrará seu repouso.
Teoricamente é muito pouco para que possamos entender quem é Lilith. Sabemos apenas que é imortal e que encontrará repouso no Edom.
Porem é nos escritos rabínicos e nas lendas judaicas que Lilith é nos revelada como um demônio.
A história todo mundo conhece, desgostosa com a posição sexual submissa, sempre por baixo do companheiro, ela rebelou-se e abandonou o paraíso indo a morar com demônios junto ao mar vermelho, onde ela fazia filhos com eles (lilins) em numero superior a cem por dia. Jeová chamou 3 de seus anjos Senoi, Sancenoi e Semanguelof e pediu-lhes que a trouxessem de volta ao que ela recusou-se, mas deu a garantia que se sobre as crianças nascidas se colocasse um amuleto com o nome deles, elas seriam poupadas.
Seria tudo muito simples se não encontrássemos na bíblia claras referencias de uma possível invasão de um povo formado por pastores que possuíam um deus masculino metido a exclusivista.
Esta referência se mostra claramente nas escolhas feitas por Jeová.
Caim, um agricultor que matou seu irmão Abel por ciúmes das suas oferendas. Caim ofertou as primícias de suas colheitas e Abel as do seu rebanho. Jeová aceitou a oferenda de Abel e recusou a de Caim.
Mais adiante Jeová fez outra escolha entre irmãos com os filhos de Abrão, Ismael o caçador, ancestral de todos os povos árabes foi gerado através da Deusa da pedra negra da Ka'bah foi preterido em função de Isaac, pastor, que nasceu por intervenção de Jeová, que deu a ele as suas bênçãos.
Pela terceira vez Deus fez sua escolha pelo pastoreio escolheu Jacob em detrimento de Esaú, embora este fosse primogênito de Isaac, e novamente observamos Isaac era pastor e Esaú, agricultor.
Estudando a história das religiões e a história da antiguidade, percebemos que as religiões mudam com as invasões dos territórios e que os mais antigos núcleos de civilização humana eram formados por caçadores e recoletores e que possivelmente estes grupos tinham uma religião em equilíbrio, com um possível deus da caça e uma possível deusa da fertilidade. É claro que estes deuses tinham filhos que cuidavam das outras atividades, este foi o mais longo período de civilização que tivemos, que ocupou o período do paleolítico e o principio do neolítico. No neolítico os humanos iniciaram o período da agricultura e a religião foi mais voltada as deusas da fertilidade e a atividade de caça foi reduzida e o deus da caça assume o papel de consorte da grande mãe.
Após este período, não se sabe exatamente porque, talvez por mudanças climáticas ou pragas em rebanhos, os agrupamentos agrícolas foram sistematicamente invadidos por hordas de tribos de pastores e grupos guerreiros de pilhagem. E se isto ocorreu em todo o mundo, é provável que também foi o que aconteceu em Caanã.
Entre os povos agrícolas a mulher tinha um papel de destaque, pois se assemelhava, com seus ciclos e ao seu papel na reprodução humana, a imagem da Deusa Mãe. Já entre os pastores, homens endurecidos que eram obrigados a percorrer grandes perímetros e a dormir no relento enfrentando feras frio e neve, estes criavam uma imagem divina a sua semelhança e neles o Deus caçador evoluiu para um deus dominador e egoísta e a Mulher perdeu sua importância e com ela o seu papel na reprodução e força de trabalho. Isto é observado em várias civilizações onde as deusas foram relegadas a segundo plano e finalmente suprimidas.
E isto nos é mostrado claramente na bíblia, onde vemos que mesmo o casamento onde nos períodos anteriores era matrilocal, o noivo ia morar junto a família do esposo, se transforma com o casamento de Isaac. Abraão escolhe uma esposa para seu filho, já que não queria que ele se casasse com uma Cananéia, escolheu uma esposa entre seus parentes e mandou buscá-la, para que ela habitasse entre os seus, indo contra ao que disse Jeová em Gênesis 2:24 "Por isto o Homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir a sua mulher; e já não são uma só carne", instalando a patrilocalidade.
Creio que posto isto podemos desvendar os mistérios de Lilith, o porque do seu desaparecimento e porque os textos rabínicos colocam tanto terror no seu nome.
Acredito que o que houve no gênese foi a chegada de uma horda invasora que destronou a Rainha Lilith, possivelmente uma sacerdotisa da Grande mãe ou a própria Deusa incorporada em uma rainha de um povo agrícola que vivia em Caanã. Para acomodar a situação e para evitar revoltas entre o povo dominado inseriu-se na mitologia um casal filho do Rei Divino do povo invasor, Adão podia ser o titulo do consorte de Lilith e assim Adão e Eva e eram deuses imortais, filhos de Jeová.
Com o passar do tempo, percebendo que o povo dominado continuava a render glorias à Lilith e a manter seus ritos* ela foi suprimida e demonizada, transformando-se em um ser terrível que vivia com os demônios, matava crianças recém nascidas e vários outros mitos foram incorporados a ela à medida que os judeus conheceram mitos demoníacos de outras culturas como a Lâmia, Êmpusas ou as Mormolicéias (as lobas assustadoras filhas de Hecate) greco-romanas ou como Lilitu um demônio babilônico, já que os babilônicos passaram por um processo parecido quando Marduk o criador babilônico assume o lugar da Criatrix Suméria, Aruru.
Adão ganhou então uma nova mulher, feita de sua costela e mais submissa, a quem chamaram de a Mãe de Todos Humanos e que deveria servir de parâmetro para todas as mulheres. Estas deviam se considerar inferiores ao Homem, refrearem seus instintos sexuais servindo ao homem como seu dono e senhor.
Eva provavelmente é a forma hebraizada do nome divino Heba, Hebat dos hititas e é identificada também com Hebe a filha de Hera, feita com uma Alface, e vejam bem, nada é mais anafrodisíaco (broxante) que uma alface.
Se olharmos para os povos vizinhos que não se converteram, veremos que em sua maior parte continuaram a manter panteões mistos e com as deusas muito poderosas em alguns deles como Isis no Egito, Innana/Istar na Babilônia nos outros países onde não existia um estado forte, mas sim estruturas tribais.
O nome Lilith tem uma raiz hebraica leil Noite, o não significa que possa ser chamada de negra, muitas deusas da noite eram consideradas benéficas inclusive Al Lat a deusa da pedra negra que continuou sendo cultuada no oriente médio até a ascensão do islamismo.
Ela era a deusa antes de Jeová dos judeus e de Allah dos árabes, escolhi Al Lat, pela semelhança da paisagem e a falta de um grande império dominante nas terras da palestina e no restante do oriente médio, ainda que tenhamos os egípcios, hititas e babilônicos e depois persas, estas tribos semi-nômades não despertavam interesse comercial e mesmo depois de um reino ter sido instalado na região pelos judeus, Al Lat continuou ser adorada pelos árabes até a instalação do islamismo em 622 por Maomé com a adoção do deus único revelado.
Al-lat - Deusa da Lua Árabe - Uma mãe antiga e deusa da fertilidade dos árabes pré-islâmicos, seu nome significa "a Deusa". Ela é a deusa suprema dos povos árabes. Fonte universal da nutrição a deusa da terra e de seus frutos. É tríplice com Al-Uzza e Menat e os Juramentos dos povos do deserto eram selados pela formula: "pelo sal, pelo fogo e por Al-Lat que é a maior de todos os deuses"
Nesta trindade de deusas, Al-Uzza, a poderosa, representa a face guerreira da deusa e é representada como a estrela matutina; Al-Lat como já dissemos, é a fertilidade da terra e dos humanos e é representada pela lua; Menat é a deusa do destino e da morte e era adorada na forma da pedra negra, que é mantida até hoje em Mecca.
A lembrança destas deusas é considerada Heresia e pode levar a emissão de uma "fatwa" como a que condenou a morte o escritor Salman Rushdie por ter escrito Os Versos Satânicos onde lembrava esta deusa tríplice.
Mas no entanto, a pedra negra continua sendo adorada e a lua de Al-Lat e a estrela de Al-Uzza estão presentes nas bandeiras dos países muçulmanos e no alto de todas as mesquitas e é símbolo do islamismo, pois comemora a vitória de Allah sobre Allat (Al-Lat)
É mencionada também em inscrições antigas (do Safaitico han-Ilat "a Deusa") e ela era adorada pelos Nabateanos de Petra e pelo povo de Hatra, povos vizinhos dos judeus, que a compararam com a deusa grega Athena e a romana Minerva.
O historiador grego Heródoto, no séc. 5 a.C., considerava-a equivalente a Afrodite: "Os assírios chamam Afrodite de Mylitta, os árabes de Alilat e os persas chamam-na de Mitra" (Histórias I:131). De acordo com Heródoto, os árabes antigos acreditavam em apenas dois deuses: "Eles acreditam em nenhum outro deus a não ser Dionísio e sua Afrodite celeste; e eles dizem que eles cortam seus cabelos assim como Dionísio corta o seu, cortando-o ao redor da cabeça e raspando as têmporas. Eles chamam Dionísio de Orotalt, e Afrodite de Alilat" (História III:38).
Como vimos então os povos pré judeus e os pré islâmicos eram matrifocais, matrilocais e matrilineares (os judeus continuam matrilineares e ainda adotam o calendário lunar) portanto, podemos imaginar que tiveram o mesmo tipo de divindade antes do deus monoteísta e concluir que são grandes as possibilidades que Lilith, Alilat e Al- Lat se não fossem a mesma seriam muito parecidas: Deusas da Lua, da fertilidade e da terra e que foram suprimidas e demonizadas com a revelação do deus único.
Pensem em mais um escrito rabínico; Adão ao reclamar a Jeová da partida de Lilith disse a ele: "depois que ela partiu minhas noites ficaram sem luz!"
Portanto Lilith era a lua cheia que iluminava as noites e com as sua partida veio então a escuridão.
Publicado em 27.08.2007
|