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Gwydyon Drake
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Apolo e a maldição de Eros

 




No mundo olímpico já não existiam gigantes e monstros, estes eram recordação dos tempos de Gaia, Urano e dos Titãs, quando tudo era muito grande para o trabalho de modelar o planeta. Mas não se sabe se por ovos que se chocaram tardiamente, ou se porque alguns destes seres passaram eras escondidos, o fato é que no inicio do mundo olímpico por vezes estes antigos filhos de Gaia, inadaptados, voltavam à luz e aterrorizavam toda uma região, devastando campos, destruindo aldeias e matando seus habitantes.

Em Delfos, junto ao santuário de Témis, a deusa da "Lei Eterna" (as leis da natureza), existia um antigo oráculo que era conhecido desde a pré história como o oráculo de Gaia, onde de uma fenda saiam vapores que fazia com que quem os respirassem fosse tomado pela divindade. Foi descoberto pelos pastores, quando perceberam que cabras que pastavam junto esta fenda tinham comportamento estranho - davam saltos esquisitos e baliam de forma diferente. Quando se aproximaram perceberam que ao respirar estes vapores passavam a profetizar o futuro. Mas como ficavam em estado alterado de consciência, corriam o risco de cair na fenda e dali jamais retornarem. Nomearam então uma mulher como sacerdotisa de Gaia e somente esta podia se aproximar da fenda, que desde então foi cercada e passou a ser chamada de Proibida. Guardando este local existia uma serpente ou dragão Titânico, chamado Píton, um filho de Gaia e Urano, e esta sacerdotisa que consultava o oráculo foi chamada Pítia, assim como toda a região até a invasão Doria, quando foi rebatizada de Delfos.

Apolo era ainda um jovem recém saído da adolescência quando aprendeu a usar o arco presenteado por Hefesto quando tinha apenas 4 anos, usando-o apenas para caçar gamos e cabras, sem jamais ter disparado uma seta contra um inimigo. Na arrogância e impetuosidade da juventude enfrentou Píton, iniciando a guerra dos deuses e heróis olímpicos contra os últimos remanescentes da forças Ctônicas.

Píton era tão grande que se enrolava no monte Parnaso, onde se assentava o antigo oráculo de Témis. Mal avistou o poderoso dragão, o Deus do arco dourado disparou contra ele todas as mil flechas da sua aljava, e todas acertaram o monstro, que verteu seu sangue venenoso por mil feridas negras empestando toda a região com a malignidade de seu sangue. Apolo, após limpar a região e o templo de sua mãe adotiva, oficializou sua união a ela assumindo o epíteto Delfino (um dos maridos de Témis) e a soberania do templo e do oráculo, nomeando a Pítia como sacerdotisa sua e dando-lhe de presente uma trípode.

Cansado, Apolo recostou numa coluna do templo e adormeceu. No entanto despertou sobressaltado por que Eros havia pegado seu arco dourado e se afastara com ele. Irritado contra o pequeno Deus do Amor, arrancou-lhe das mãos sua arma e lhe disse:

- Que você está fazendo, garoto efeminado e lascivo, com minhas armas? Este arco foi feito para mim, que sou forte e valente, e com ele matei Píton, pois sou capaz de acertar mil vezes o inimigo feroz com setas exatas e não errar nenhuma. Fique você com seu florido arco de brinquedo e contente-se e criar amores doces entre os machos e fêmeas e não brinque com a potencia máscula, pois esta é lhe superior em tudo. E agora suma daqui, afinal tive muito trabalho para tornar melhor o mundo de Zeus eliminando este horrível inimigo dos homens.

Eros acanhadamente depositou o perfurante arco aos pés de Apolo e afastou-se alguns passos. Depois virou-se e cresceu frente ao divino arqueiro, ultrapassando muito a altura do templo, e aí respondeu:

- Criança Lasciva? Efeminado? Por acaso já te vistes frente a um espelho deusinho mimado?
Aprendas algo que Latona e Témis não te ensinaram. Sou mais velho que o Tempo e mais antigos que os pais do tempo. Fui eu quem uniu Gaia e Urano. Fui eu quem primeiro lançou uma seta no Caos e criou a atração que construiu o universo. Sou eu a quem todos os deuses temem, pois ao meu poder nenhum deles resiste. Mesmo o Tempo (Cronos) de curvo pensar, que não queria gerar seus filhos, dobrou-se a minha vontade. Portanto você, que hoje se jacta tão valente e poderoso, vai curvar-se ao meu poder, assim como os animais se curvam aos homens e este aos deuses. Você se curvará à minha vontade, pois sua divindade é inferior a minha. Você um dia conduzirá o carro de Hélios (o Sol) e eu continuarei por manter o universo. É minha força que gera a atração que existe na gravidade. Sem mim o sol e os deuses se perderiam nos abismos do Caos. Sem mim Gaia nunca floresceria, tornando-se apenas mais uma inútil pedra perdida no nada da Noite de asas negras.

E diante do espanto do infalível arqueiro, boquiaberto ante uma potência a ele desconhecida, o filho de Vênus continuou:

- Você condena a lascívia? Ela não é feita para masculino? Então satisfarei seu desejo. Não vais conhecê-la com uma deusa, pois de ti e de tua beleza fugirá o feminino.Irás conhecê-la nos braços de um homem, de quem você será a fêmea. Tu te jogarás aos seus pés e irás arrastar-se perante a um mortal, causando vergonha aos deuses. Sofrerás pela falta de Amor e sua a atração causará repulsa. Serás traído, abandonado e desprezado pelas mulheres que amar, e morrerão todos os seus amores masculinos, até que um dia se arrependas da sua arrogância e prepotência. Quando isto ocorrer ou quando despertares deste devaneio juvenil, do qual a beleza e a força são mais poderosas que o amor, peça perdão a Témis, a dona das leis que regem o universo, pois foram estas as regras que tu desrespeitastes. É em nome dela e de Gaia, de quem roubastes o oráculo, que te amaldiçôo! E não se esqueça, suas flechas podem ser certeiras e matar a todos, mas a minha acertará você.

E, voltando a sua forma habitual, Eros deu três voltas voando em torno de Apolo e sumiu nos ares gargalhando.

Com a irresponsabilidade normal da juventude e com o sentimento de glória pela sua certeira pontaria, o flecheiro mal deu ouvidos à Maldição, embora tivesse ficado cismado com a transformação de Eros e com tudo que este falara. Mas era jovem, forte e bonito. Como poderia o deus do amor afastar dele o feminino, se suas qualidades eram o que mais as mulheres gostavam? Pouco depois se esqueceu do incidente e seguiu sua vida.

O primeiro amor de Apolo foi Dafne, a filha do deus rio Penteu. Desde o momento em que a viu o deus apaixonou-se por ela e nem percebeu a presença de Eros, que alegremente separou duas setas diferentes na sua aljava - a primeira com ponta e haste de ouro, que tinha a função de despertar o amor mais forte, e outra que mata o amor e o romance e que tem ponta e haste de chumbo. O primeiro dardo este pequeno demônio cravou na medula de Apolo até transpassar os ossos e este, que já estava apaixonado pela filha de Penteu, caiu em completo desvario de amor. Porém a outra, aquela que mata o sentimento e causa repulsa, o pequeno deus disparou em direção ao centro do coração da ninfa penteia.

Dafne já havia rechaçado vários casamentos, inclusive tinha pedido ao pai o mesmo que Ártemis pedira a Zeus: não conhecer o Himeneu, o amor e o matrimônio. Ao que o pai respondia: "Você me deve, minha filha, você me deve netos".

Apolo, apaixonado, rondava Dafne todo o tempo, cantava-lhe músicas acompanhado de sua lira, compunha melodias, mas nada fazia com que ela aceitasse o assédio. Apolo se enganava com seu próprio oráculo, criava toda sorte de interpretações erradas para as palavras da Pítia e, como todo apaixonado, via nas recusas esperança, cada não parecia-lhe um sim contido. O deus ardia como um pasto seco, como fogo subindo encostas sopradas pelo vento. Em seu peito, o coração ardia em brasas vivas. O deus criava devaneios ao olhar sua amada. Enquanto ela se penteava, ele imaginava seus dedos correndo por entre aqueles negros e macios cabelos cujo toque, em sua imaginação, lembraria o veludo. Imaginava colar sua boca naquela que, de tão vermelha, assemelhava-se ao sangue em ebulição nas suas veias, e via-se em seus olhos, que brilhavam como estrelas. E quando Dafne corria, o Pean entrevia suas coxas à mostra e pensava no sabor do fruto que a túnica escondia. O deus enlouquecia dia a dia, e um dia, num ímpeto feroz estancou a carreira da Penteia e lhe disse:

- Espera filha de Penteu, pare um pouco e escuta a minha voz, pois tanto quero lhe dizer que se não falo agora, morro de amores. Escuta o que tenho a lhe dizer, são palavras que vem do fundo do meu peito e quem te fala não é um pobre pastor que caminha com suas ovelhas por estes montes, nem um andarilho que atravessa estas terras, tampouco um rei de guerreiros broncos, como tantos que já a desejaram. Sou, bem sabes, o filho de Zeus adorado no santuário aqui de Delfos e em mais uma dúzia de lugares. Sou o deus do arco certeiro que matou Píton, sou a divindade que rege as artes, a música e a poesia. Sou o dono das profecias, e aqueles que o futuro querem saber a mim buscam. Sou também o patrono das curas e da medicina, embora não possa curar esta mortal ferida feita por um dardo traiçoeiro, fruto de uma maldição lançada por aquele que me disse que eu era certeiro e infalível, cujas setas nunca errariam o alvo, e ele com uma única flecha me derrubaria. E por desconhecer a força deste deus primordial é que me encontro aqui jogado ao solo junto aos seus pés, implorando-lhe o seu amor e...

Antes de terminar suas frases, Apolo novamente falava sozinho. Dafne já disparara novamente em desabalada corrida. Ao perceber que falava sozinho, o Arqueiro olha e a vê correndo. Ela estava ainda mais bonita com o vento desnudando-a, colando a roupa em seu corpo e revelando os generosos contornos das cochas e nádegas. Zéfiro afagava seus cabelos, que a seguiam como um véu negro ondulante. O deus, arrebatado por amor, corre atrás dela como um galgo famélico persegue uma lebre, pois sabe que alcançá-la
significa saciar sua fome e sua sobrevivência.

O chão voa sob os seus pés. A cada aproximação de Febo a Penteia consegue um novo ímpeto e, como por mágica, recupera a vantagem. E assim prosseguem, um movido pela esperança e a outra pelo temor. Porém, passado um tempo, o Deus ajudado pelas asas do amor acaba por alcançá-la. Coloca-lhe a mão por sobre um dos ombros e a fita. Ela está ainda mais linda com a boca entreaberta num esforço supremo de respirar, parece estar à espera de um beijo. O suor que escorre por sua face morena, emoldurada por seus longos cabelos que agora caem sobre o seu colo, faz com que a donzela brilhe como deusa. Neste momento, ao se dar por vencida, Dafne entrega os pontos e clama ao seu pai Penteu:

- Pai, se és um deus rio mais antigo que este deus celestial, me transforme agora em algo que me proteja do estupro, afinal já que não me atendestes o pedido da eterna virgindade, ouça agora meu apelo, salva-me!

Nem bem acabou de fazer o pedido, seus braços alongaram-se e seus dedos tornaram-se galhos. Seus cabelos, ainda revoltos pelo vento, espalharam-se como folhas e seu corpo, antes macio e voluptuoso, enrijecera. Dos pés cresceram raízes que se aprofundaram na terra. E antes que o tocador de lira percebesse, a metamorfose se concretizara. Dafne era uma grande e frondosa árvore abraçada por um inquieto deus a beijar seu tronco. Apolo, ao perceber o seu engano, descobre quão fatal é o dardo de Eros. Corta um ramo, faz com ele uma girlanda para os seus cabelos e, na esperança que Dafne ainda o escute, diz:

- Já que não pude fazer de ti minha esposa, nem torná-la imortal como eu para que passássemos juntos toda a eternidade, digo-lhe agora minha adorada ninfa, serás a minha árvore e estarás comigo todo o tempo na minha cabeça, que deste momento em diante, sempre terá uma coroa dos seus ramos. Estarás na minha lira e em toda música que sair dela, e também em minha aljava e todos os meus feitos serão também seus feitos. Ainda que não me respondas, sempre falarei contigo em meus pensamentos.

Ouvindo estas palavras, o Loureiro recém formado se parecia com uma cabeça se movendo, como que dizendo sim.


Outros amores de Apolo

Coronis e Marpesa abandonaram o deus por homens mortais. Cassandra de Tróia prometera se unir a ele em troca do dom da profecia e, após recebê-lo, não cumpriu com o prometido e foi amaldiçoada pelo deus. Como o dom já estava dado ele não podia retirá-lo, fez com que ninguém acreditasse nela. Também a Sibila de Cunas e Enone, a primeira mulher de Páris, trocaram seus corpos pelos dons do deus.

Creusa foi estuprada e odiou tanto o deus que expôs seu filho às aves de rapina, para que o único som que este ouvisse fossem os gritos de seu filho com a aproximação de seus algozes. Cirene, filha de Quiron e donzela selvagem, foi estuprada pelo deus metamorfoseado em lobo. Jacinto morreu quando foi atingido por um disco lançado por Apolo e Cipariso, um amante que fugia do deus, desesperado se transforma em cipreste, a triste árvore do mundo de Hades.

Com Admeto, Apolo ruborizava sua irmã Ártemis, pois fez o papel de prostituto e mercenário, e assim ficou irreconhecível. O deus da eterna beleza não penteava seus longos cabelos, nem os cingia com o ramo de loureiro. Trazia sua cabeleira desgrenhada, e abandonou pelos cantos sua lira. Quando pastoreava ninguém ouvia seu pífaro. Foi uma sombra nas terras da Tessália, região das bruxas e antigas adoradoras da deusa, e lá finalmente compreendeu o que era realmente o amor e porque Eros o amaldiçoara. Ele, com seu orgulho juvenil, tomara posse e desdenhara de poderes muito mais antigos e superiores aos seus.

Apolo voltou ao seu santuário em Delfos e o dividiu com seu irmão Dionísio, mais ctônico e imanente, honrou Témis e se consagrou à Gaia, buscando o caminho da sabedoria e abandonando sua arrogância e prepotência.

Ritual masculino de casamento com a Terra.

Faça um círculo e no centro dele coloque uma pedra que representará "Omphalós", o umbigo de Gaia (o centro do mundo). Passe a noite em vigília, pensando em seus amores perdidos, seus atos impensados e em quantas vezes por orgulho e prepotência desdenhou os poderes da Terra, a nossa Grande Mãe, em quantas vezes por ignorância ou desconhecimento desobedeceu as leis da natureza ou desprezou o feminino, que também está dentro de você. Depois de velar uma noite inteira ouvindo as estrelas, ao primeiro sinal da Aurora (Eos), evoque os quatro elementos e os quatro ventos* para que eles varram de você todas as suas mágoas e levem também as mágoas de todos por você desprezados. Entoe ou recite uma música em louvor à terra, e semeie o centro do circulo com seu sêmen. Reconcilie-se com sua mãe e agora sua consorte. Dê dez passos para trás olhando para o centro do circulo. Depois se vire e siga o seu caminho sem olhar para trás. Só volte a este local depois de uns meses dando tempo para que o sol, as chuvas e o vento recomponham o lugar e depois volte sempre que precisar se aconselhar com a Grande Mãe.

*Boreas, o vento frio e poderoso do norte; Noto, o vento do Sul que trazia as tempestades do final do verão; Zéfiro, o suave vento oeste que trazia as brisas da primavera; Euro, o vento leste. Verifique na sua região as suas correspondências.

Em relação aos elementos, eu acabo usando o norte como Fogo, pois para lá é o equador. Água eu ponho a leste, onde está o Oceano Atlântico; o Ar ponho no sul, de onde vêm as frentes frias; e finalmente a Terra a oeste, onde fica a Cordilheira dos Andes.

Sugestão de música:

O Cio da Terra
Milton Nascimento e Chico Buarque de Holanda

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão



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