Muitas vezes escuto alguém se dizendo pagão e seguidor da mais antiga religião do mundo. Porém fica muito difícil levar isto a sério, afinal as mudanças tecnológicas mudaram também o ser humano, tornando-nos seres do século XXI, algo diferente do que eram nossos antepassados. Como então seguir esta ou aquela corrente ancestral se nem conseguimos compreender como viviam os seres humanos sem livros, computadores, TV, cinema e, por que não, fast food?
O paganismo, como as antigas religiões, estava ligado ao modo de vida dos antigos. Como hoje vivemos de forma diferente da dos nossos ancestrais, o que podemos fazer é recolher fragmentos do passado e montar um mosaico figurativo do que seria o paganismo, adaptando-o ao que chamamos de Neopaganismo. Do contrário estaremos encenando uma farsa, porque rito sem mito é folclore, um simulacro do que dificilmente seriam os antigos rituais, já que não temos condições nem mesmo de compreender os mistérios contidos nos antigos mitos. Porque então tentar repetir algo que não foi documentado e impossível de ser reproduzido?
Devemos buscar o Paganismo possível, o que possamos compreender e sentir dentro da nossa realidade, e não através de fantasias.
Pensando nisso vou escrever uma série de artigos (provavelmente não em seqüência) sobre como é possível ser pagão nos dias de hoje, mesmo vivendo nas cidades.
O Fator Gutenberg
À medida que evoluímos como espécie desenvolvemos tecnologias e, principalmente depois da escrita e dos processos gráficos de difusão das idéias, fomos gradativamente abandonando os antigos conceitos religiosos e de vida do que hoje chamamos de paganismo.
A concentração das populações em cidades, a mecanização dos campos e principalmente a massificação dos conceitos religiosos através dos livros (mais acessíveis à população mais distante) fizeram um corte na civilização da oralidade, que era, por excelência, a civilização pagã. No período da linguagem oral, e ainda no tempo dos livros manuscritos, o conhecimento era repassado de forma individual e auditiva, e uma história era contada através das entonações e da experiência do orador, e recebida com toda uma carga emotiva que poderia ser captada de acordo com a percepção e a vida do ouvinte; este procurava reter em sua memória não apenas a história ou os ensinamentos em si, mas também as entonações e os trejeitos vocais e faciais dos contadores de histórias ou mestres.
A experiência de aprender ou repassar histórias e mitos à beira da fogueira é, sem duvida, inesquecível, como também o é a de ritualizar futuras caçadas através da dança.
No mundo pagão e oral, os livros manuscritos e a escrita religiosa nos templos eram para os mais graduados sacerdotes ou para a nobreza, que tinha a tarefa de traduzir os signos (vocábulos) para que outros repassassem para as massas. A leitura, os escritos e as palavras eram como magia, eram a voz dos ancestrais, recados guardados para as gerações futuras e, muitas vezes, considerados sagrados.
A leitura ou a récita de uma invocação e todas as outras manifestações religiosas trazia de volta a presença do ancestral ou dos deuses.
Hoje o conhecimento é repassado de uma maneira fria através dos livros, sem a emoção e a entonação do orador, e embora cada um de nós conheça e acumule mais conhecimento que nossos ancestrais, este perdeu o encanto e a magia. Quando queremos um conhecimento específico, buscamos uma bibliografia e tomamos contato com as idéias e as palavras dos autores sobre o assunto, mas dificilmente teremos a emoção e os sentimentos que estes tiveram ao pesquisar, descobrir e finalmente transmitir o seu aprendizado.
A idéia de que conhecimento é essencialmente o saber contido nos livros é o foco da era moderna, e possivelmente se deriva do pensamento medieval, quando os padres (únicos que tinham acesso aos livros) eram os detentores do conhecimento. Já a idéia primitiva e natural de conhecimento era a sagacidade ou astúcia, a idéia de um homem habilidoso, cheio de recursos e espírito, como Ulisses, chamado de "o industrioso Odisseus" por Homero. Um bom exemplo da sua engenhosidade é seu casamento pois, quando chegou a Esparta como pretendente de Helena, percebeu que não teria chances e criou uma fórmula para organizar a disputa em troca de seu casamento com Penélope. Também é dele o crédito pela criação do cavalo de Tróia, além de várias mostras de astúcia durante a Ilíada e a Odisséia, demonstrando a vitória do espírito sobre a matéria. A Sabedoria é a capacidade vencer as dificuldades da vida e obter o êxito.
A realidade para o não-alfabetizado é o que acontece. Se as cerimônias para aumentar a fertilidade do solo e fecundidade dos animais são seguidas de resultados positivos, está ritualizando corretamente. Portanto tanto o homem primitivo quanto o não-alfabetizado têm um raciocínio lógico, ao contrário do que se prega. Nada poderia estar mais longe da realidade do que acreditar que estes são pessoas crédulas, cheias de superstição e sem nenhuma capacidade de um pensamento original. Além de bom senso, o homem primitivo normalmente demonstra muito senso prático, baseado na apreciação da realidade da vida.
É claro que não sou contra os livros nem contra as tecnologias que temos hoje à nossa disposição, afinal eu não estaria escrevendo para um numero tão grande de pessoas sem a tecnologia, nem conseguiria abordar este tema sem os livros, mas acredito que, quando pensarmos em paganismo, devemos deixar um pouco de lado a leitura fria dos livros e interagirmos com elas, buscando o sentimento do autor e lendo os trechos que nos tocaram em voz alta.
Embora devore livros, nunca os vejo como cofre onde estão contidos conhecimentos preciosos, mas sim como uma rede de labirintos, onde às vezes apenas uma frase ou uma citação nos remete a outros livros, que por sua vez nos levarão a outros até que tenhamos percorrido muitos corredores e cheguemos ao centro do labirinto, o conhecimento desejado (quem chega ao centro do labirinto e retorna é o senhor do labirinto).
Esta metáfora do labirinto nos recorda a trajetória do herói, aquele que recebe um chamado, passa por aventuras e desventuras, atinge o seu objetivo e retorna ao seu lar vitorioso.
No caso do conhecimento e na visão pagã, devemos entender como volta para casa o repassar o conhecimento obtido, com nossas palavras e com a mesma emoção que o conquistamos.
Cezar Drake
13/11/2005 |