
Fugindo do dualismo monoteísta revelado, onde obrigatoriamente o que não bem é mal e o que não é luz são trevas, vamos encontrar na divindade e em nós mesmos um lado obscuro que é pouco conhecido (ou mesmo totalmente desconhecido), sem necessariamente ser mau ou negro. Muitas vezes o lado desconhecido, tanto da deusa como o nosso, pode ser luminoso. O que não podemos esquecer é que luz demais também cega.
Nas antigas religiões o lado negro da Deusa era representado pela lua nova, quando a lua estava totalmente coberta pela sombra da terra e não era vista no céu. E representava a passagem do mito da Deusa onde ela descia às profundezas do mundo subterrâneo. Um mito recorrente nas mais variadas mitologias, desde a descida de Deméter ao Hades em busca da sua filha Perséfone, passando pela busca de Ísis por seu amado Osísis, Cibele em busca de Átis e, o mais antigo e significativo, no qual Inana, uma deusa múltipla com atributos luminosos como fertilidade e sensualidade, desce ao submundo para consolar sua irmã Ereshkigal, despindo-se no caminho de todos seus atributos luminosos e divinos, e chega junto a sua irmã, nua e encurvada pelo cansaço, numa atitude de submissão e reconhecimento do poder ctônico do interior do planeta. Assumindo a própria morte, Inana conhece a si mesma já que Ereshkigal é ela própria. Não é apenas mais uma das fases visíveis da lua, mas sim o lado dela que nunca vemos, a face oculta da Lua e portanto pela primeira vez a deusa se sente completa e plena.
É unindo os opostos que chegamos a plenitude. É conhecendo e percebendo em nós a luz e as trevas, o bem e o mau, que nos completamos, que nos tornamos unos com o universo e com a natureza, pois somos o microcosmo que confrontado ao cosmo o reflete. A supernova brilhante convive com o buraco negro no universo, e a água plácida do lago, que nos mata a sede e nos mantém vivos, é a mesma água dos tsunamis e a terra que nos alimenta é a mesma dos terremotos. O que temos de bom, delicado e luminoso em nós pode, como na natureza ou no universo, se transformar em fúria, explodindo, destruindo e magoando aos que nos cercam, por mais que nos controlemos e nos policiemos, se não nos conhecermos realmente nunca teremos o controle sobre nós mesmos.
Porem como podemos nos conhecer se não sabemos os caminhos que nos levam para os recônditos de nossa mente onde dificilmente arriscamos ir? Como ter a coragem de entrar nos lugares onde acorrentamos nossos pensamentos vis, e agrilhoamos a insanidade e a loucura? Como conhecer aquilo que negamos com todas as forças, como suportar a dor de vivenciarmos a nossa própria morte?
A epígrafe do Livro “A Deusa Branca” de Robert Graves nos dá o caminho: “Embora ela ame apenas para destruir, a Deusa destrói apenas para Ressuscitar”. Se meditarmos sobre o mito da Deusa, compreenderemos a razão e o sentido da busca do ser amado (seja a irmã, a filha ou consorte ) que leva a Deusa luminosa e celeste a buscar o seu lado escuro e ctônico. O que leva Deméter a se vestir de azul como suplicante e se arrastar pelos caminhos poeirentos da Grecia, fazendo toda a terra secar por sua passagem, abrindo doloridas brenhas e feridas no solo. Os sacrifícios de Ísis em busca do amado, a grande mãe sendo humilhada e sofrendo como uma mortal. Inana se submetendo a Irmã. E na mais linda passagem da Biblia judaico-cristã, no Cântico dos Cânticos, onde a mesma que diz:
“Sou negra, mas sou bela, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como aos pavilhões de Salomão.
Não repareis na minha tez negra pois fui queimada pelo sol”,
também procura o amado:
“Abri ao meu bem amado, mas ele já tinha ido, já tinha desaparecido;
Procurei-o e não o encontrei; chamei-o mas ele não respondeu
Os guardas encontraram-me, quando faziam ronda na cidade,
Bateram-me, feriram-me,
Arrancaram-me o manto os guardas das muralhas”.
Assim o tão temido lado negro, aquele que chamam aos sussurros e acreditam ser maligno e perigoso, é apenas a parte desconhecida da divindade. A Deusa Negra é o que desconhecemos da Deusa branca, é a sabedoria oculta, é o que os cristãos chamam de espirito santo. Mas antes da romanização do cristianismo essa sabedoria era feminina, como nos explica o Robert Graves, no livro acima citado: “spiritus” (sopro, exalação, alma) é palavra masculina na gramática latina, e os gnósticos, por falar grego, usavam “sophia” (sabedoria), palavra feminina.
Esta busca pela totalidade é quase sempre colocada nos mitos. E inicia por uma perda do amor, seja fraternal, materno ou sexual, e é representada nos mistérios do paganismo como a iniciação. Desde os sacerdotes de Cibele que se castram como Atís para que a deusa os acolham, como os de Ísis que devem vivenciar a morte e o esquartejamento de Osirís, o de Inana que vai ao encontro de sua irmã no mundo inferior ou Deméter que, inclusive como também faz Dionisio, se prostitui para se informar sobre o caminho para o Hades. A iniciação é sempre um morrer e renascer, quando a criança morre e nasce um novo ser.
O encontro com o lado obscuro é sempre assustador, é reconhecer em nós mesmos uma mola propulsora que pode causar loucura e até mesmo tragédias. E se é aterrorizante em nós que somos humanos, é o próprio terror em se tratando de Deuses. É por isto que lemos em muitos autores que a Deusa Negra é devoradora e destruidora por natureza, mas na verdade o que não reconhecemos na divindade é que é o obscuro, o negrume é o véu que uma vez desvelado nos revela a totalidade das deusas, ou mesmo dos deuses. Dionisio desceu aos mundos inferiores em busca da Mãe, fazendo o roteiro inverso de Deméter; Orfeu, seu maior profeta, pode ter sido Deus consorte de uma Deusa Mãe anterior aos olímpicos, desmembrado e devorado pela Ménades, coisa típica de consortes das Grades Mães do neolítico depois humanizado pelos dominadores.
Kali, deusa negra por excelência, é aquela, como nos diz Jean-Claude Carrière: “de quem as pessoas só se aproximam tremendo. Tudo nela causa medo: os olhos, a língua que expõe, as armas, a atitude, o colar de caveiras humanas que chacoalha em torno do pescoço como troféus. Em seu templo favorito, em Calcutá, os fiéis sacrificam carneiros e cabras. O cheiro de sangue impregna o ambiente.
Kali é apresentada como uma das identidades de Parvati, que é a shakti, o aspecto feminino de Shiva - mas é sobretudo um personagem que existe em si, que tem suas próprias qualidades e aventuras. Esta ligação com Shiva esclarece, mas somente em parte, o componente destrutivo da deusa. O próprio Shiva, como outras divindades indianas e como o Buda, freqüentemente nos apresenta a palma da mão direita, num gesto chamado abhaya, que significa "sem medo". Nada de parecido em Kali. Ela é o próprio terror. Kali é o medo verdadeiro, porque não sabemos quem ela é. E ela nos toca no mais íntimo, porque não sabemos quem somos (e é ela quem nos mostra o nosso verdadeiro ego sem ilusões ou fantasias ela destrói nossos sonhos e tira nossas pálpebras, para que com os olhos arregalados, vejamos a nossa verdadeira identidade *). Abhaya. Não há medo...o medo está em nós... Então, por que ter medo do medo? Ou medo de nós mesmos?”
As Deusas negras não são o mal, nem existe o mal em nós, existe sim a multiplicidade de ações dos elementos, existe o eterno movimento de construção e destruição. A Deusa destrói para construir e é este o fluxo da vida, e sendo neopagãos precisamos compreender e saber as divindades e a nós mesmos como totalidade corpo, mente e espirito.
Afinal se continuamos dualistas e dividimos tudo em bem e mal, poderíamos muito bem continuarmos no cristianismo, que não consegue entender porque o seu Deus foi sacrificado, morto e sepultado, desceu aos mundos inferiores e depois de 3 dias, dizem, retornou vitorioso. Junto ao seu sacrifício e a iniciação de Jesus, três sacerdotisa, 3 Marias, uma anciã, a mãe, outra mulher, a amante e uma terceira que só sabemos o nome Salomé, que contam ser uma irmã mais nova, a donzela. Vocês sorriram agora, isto lembrou algo? Pois bem, quando o cristianismo se tornou religião de dominação e dualista, a anciã se uniu a donzela e foi criada a Virgem Maria, a Mãe intocada da criança divina, e do outro lado a Negra Prostituta, a Maria Madalena.
É assim que vocês pretendem dividir nossas Deusas, ou vamos sempre vê-las na totalidade?
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