
Ultimamente tem me chamado a atenção a questão dos panteões.
Tenho escutado bastante sobre panteões celtas, gregos, romanos, babilônicos, mistos e todos são colocados como coisas naturais e avulsas.
"Qual seu panteão?" ouvimos nas listas e nas comunidades pagãs, como se o panteão fosse algo individual, e que pudesse ser disponibilizado de acordo com o gosto do freguês:
- "E aí Zézinho, faz um panteão pra mim no capricho! Pão francês (seria Gaulês, portanto Celta), uns dois deuses gregos, maionese, duas fatias Sumérias, bastante katchup e uma Lilith por cima ( já que ela odeia ficar embaixo), e um suco de Seth com bastante gelo".
Lindo né, mas creio que fique um pouco indigesto, já que Pántheios (Pan = todos; Theos = Deuses) nada mais era que um templo dedicado a todos os deuses. Devido às distâncias, na Antiguidade "todos os deuses" significava todos os deuses de um povo, ainda mais porque os deuses dos outros povos eram considerados demônios.
Geralmente quando ouvimos um pagão dizer que trabalha com determinado panteão, deveríamos imaginar que este no mínimo conhecesse todos os deuses daquele povo, não apenas os principais, mas também os deuses indigites, como chamavam os romanos aqueles que cumpriam apenas uma função, e somente aquela. Portanto, se falamos em trabalhar com deuses, estes indigites são os melhores para atingir a um objetivo específico. Mas não, quando ouvimos um neopagão falar em panteão ele na verdade conhece apenas uma meia dúzia de deuses e praticamente desconhece as relações que estes deuses têm entre si. Felizmente, como estes deuses estão esquecidos há muito tempo, nem se incomodam de serem invocados juntamente com deuses que não faziam parte de suas relações, assim como muita vemos gente invocando deuses inimigos, o que no mínimo causa um certo constrangimento no círculo.
Tudo bem, os deuses devem ficar tão emocionados ao serem invocados depois de tantos séculos que nem ligam! E também quem os invoca por muitas vezes nem sabe as pronúncias de seus nomes de origem, e portanto não evocam ninguém, quem sabe se no máximo alguma alma penada passando por ali resolva comparecer no círculo, pra ver se sobra alguma oferenda pra ela (mas coitados, geralmente nestes rituais só tem Coca Cola quente e bolo Seven Boys, afinal o Pullman está mais caro).
Na verdade, uma boa parte do que os neopagãos invocam são nomes que eles nem sabem quem são. No máximo conhecem algumas palavras que formam um verbete, que encontraram por acaso no apêndice de algum livrinho de bruxaria, e nada sabem de verdade, nem sobre o deus, nem sobre seu panteão e muito menos sobre o povo que acreditam a que aquele deus pertença, fora é claro o que leram naquele mesmo livrinho de magia.
Meu nick, por exemplo, é Celta do País de Gales, mas existem panteões celtas na Irlanda, na Inglaterra, na Escócia, na França, na Espanha e em Portugal. Muitas vezes estes panteões variavam mesmo dentro de um mesmo povo, chegando mesmo a existirem deuses diferente de aldeia para aldeia e, porque não, deuses familiares dentro de cada clã. Assim, quando precisei arrumar um sobrenome para me diferenciar de outros possíveis Gwydyons, fui buscar na língua GALESA a palavra para dragão (Drake em inglês é um tipo de Pato). Portanto não acumulei nomes de povos e culturas diferentes, como gente que até se diz séria e usa nomes latinos misturados com celtas e tupys, criando barbaridades como "Dionisus Gwydyon Tupã", o que representa uma afronta aos deuses e nunca uma homenagem.
Bem... a única maneira de conhecer mais um pouco é estudar. Creio que alguns que estão lendo devem estar tentados a parar de ler, afinal que catzo este Tio chato quer nos fazer "ESTUDAR"! Como??? Se estou nessa de ser neopagão e bruxo só pra aprender a fazer magia e passar nas provas sem estudar, afinal ouvi de não sei quem que se dormirmos com um livro aberto embaixo do travesseiro acordamos com ele todo gravado na memória, é só fazer as invocações certas.
Eu garanto pra vocês que nenhum deus da inteligência iria concordar em passar o conhecimento de graça para alguém, afinal ele é guardião do saber, portanto existe justamente para preservar o conhecimento para aqueles que se sacrificam e se esforçam por obtê-lo. Aconselho então que comecem por livros de mitologia, e
lembrem-se, não adianta entrar em comunidades de mitologia onde a maior parte dos tópicos seja: "Com que deus se parece o cara acima?" ou "Qual o deus de sua devoção?".
Ler mitologia é algo que encanta, que nos faz viajar por terras e
lugares perdidos nos mitos, mas que com certeza já existiram e que vão continuar existindo enquanto lermos e recontarmos os mitos. E à medida que lemos os mitos, vamos sentindo falta de mapas e acabamos nos enveredando pela geografia, e quem sabe um dia eu escute alguém falar corretamente a região em que moraram os celtas. Depois sentimos falta de datas, de acontecimentos que ocorreram em paralelo aos mitos e chegamos na história.
Conhecendo um povo (seus mitos, sua configuração geográfica, climática e sua história), estamos aptos a conhecer sua relação
com os deuses e o relacionamento destes entre si, como os deuses se comportavam, quais as suas correlações (dias, horários, cor, frutos, metais, pedras) e principalmente quais suas atribuições e o papel que realmente ele representavam para o seu povo. Somente assim poderemos conhecer a pronúncia de seu nome, a maneira pela qual era invocado, o grito que devemos dar em sua epidemia, como é sua epifania, o que fazemos para agradá-lo e como pedimos para que ele nos proteja.
Conhecer ao deus e seu panteão é fundamental para a continuidade do caminho. Sem isto fica realmente difícil se dizer neopagão, afinal se fosse simplesmente para darmos o nome de quatro deuses, para proteção dos quadrantes, sem dúvida que eu colocaria Janis Joplin na água que uso no leste, Jim Morrisson no fogo ao norte, John Lennon no ar ao sul e Eric Clapton na terra voltado para oeste, já que este ainda continua entre nós e sempre foi deus. Afinal, se não conhecemos realmente um panteão, seus ritos mitos e povos, o que vai valer é a nossa crença e nossa vontade, como tudo em magia, e eu acredito muito em Rock and Roll !!!!!
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