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Gwydyon Drake



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O elefante

 

Creio que nem precise repetir a história dos cegos que queriam "ver" um elefante, e quando foram levados ao animal não conseguiram um consenso, pois cada um "pegou" num lugar do elefante. Aí, cada qual acreditando na sua própria versão, seguiram em frente, um acreditando que o elefante era uma parede e outro achando que era uma coluna pois tateou a perna, outro uma serpente porque pegou na tromba, uma lança para o que pegou na presa, e um grande leque para aquele que apalpou as orelhas.

Hoje se alguém me perguntar o que é o neopaganismo, eu sem nenhuma dúvida responderia: "É um elefante para os cegos!". O neopaganismo hoje engloba tantas crenças, variações religiosas, filosofias, que é impossível, assim como o elefante para os cegos, vê-lo inteiro com todo o seu colorido e nuances.

O mais triste de tudo isto, é que estes "cegos" que se fixam apenas numa parte acreditando conhecer o todo e encontram pelo caminho outros que não conseguem ver, contam tudo o que acharam do elefante, sem dizer é claro, que só conseguira tatear o elefante e que mal conheciam, ou imaginavam como poderia ser em sua totalidade.

Para o "cego" que apenas tinha "visto" a pata do elefante, grossa e firme no chão, embora tivesse uma textura diferente, mais grosseira e irregular na sua superfície, a pata do grande animal lhe lembrava as colunas de um templo que há muito ele apalpara. Conversando com o guia, soube que o tal elefante tinha quatro destas colunas e que portanto deveriam ser enfileiradas como as do templo, entre as quais ele mendigava. Com esta visão do elefante como um templo, ou a do neopaganismo como apenas uma religião, este homem pregava, e outros ainda mais cegos que ele o seguiam, acreditando no templo como a morada da divindade. Muitos, mesmo os que não são cegos, vêem no paganismo apenas a religião e buscam um templo da grande mãe onde aprenderão tudo sobre ela; mas como o cego da história, têm na sua lembrança um templo e, sem perceber, imediatamente todas as luzinhas do seu cérebro piscam em alta intensidade, fazendo todas as conexões deste templo da memória, que foi a instrução cristã da primeira comunhão e a vida familiar calcada (da boca pra fora) nos valores cristãos. A partir daí por mais que digam e até mesmo acreditem que são pagãos, estes não se livram da pesada carga do cristianismo, e por mais que multipliquem seus deuses, os seus valores e até mesmo a sexualidade, continuam sendo regidos pelo sistema de culpa e castigo imposta pela igreja romana. Vendo o paganismo apenas como religião, não se vive o paganismo, não se sente a liberdade por ver seus pecados abolidos, sem a mudança dos valores não existe o paganismo.

Ou outro cego, o que apalpou o corpo do elefante imaginou que esse fosse um muro. Sólido, maciço e muito grande, pensou o cego, e intransponível, ninguém faria algo tão alto se não fosse suficientemente longo. E saiu contando que o elefante era o fim do mundo, e que depois do elefante não existiria mais nada. E também foi assim que muitos entenderam o paganismo, como algo que é o fim do caminho e quando se chega até o paganismo, não se tem mais que prosseguir pois atingiu a verdade e além dela não existe mais nada. Mais um cego que guia cegos, pois tanto o elefante é contornavel, quanto chegar ao paganismo é muitas vezes o começo e não o fim. Vamos precisar estudar mais, nos aprofundar mais e praticar mais, pois sem o conhecimento o paganismo se torna algo vazio, sem fazer o menor sentido.

Um terceiro cego pegou na tromba e ficou maravilhado com seus movimentos. Segurava a tromba serpenteante com as duas mão e ria, pois já conhecia o elefante só com o nome de cobra, e o elefante parecia ser uma serpente maior, mais ameaçadora. E este cego saiu espalhando que tinha visto um elefante que é uma enorme serpente, com a particularidade de não se arrastar no solo, mas de vir pelo céu, só não garantia ser uma cobra alada pois teve medo de procurar as asas. Existem pagãos, pelo menos os mais festivos, que acreditam realmente no impossível como cobras voando e jacarés subindo pelas paredes. Como diria uma amiga: "tem gente que parece que tomou ácido (LSD) estragado e nunca mais voltou da viagem!". Vivem vendo ou buscando ver coisas que não existem, transformando fotos tremidas em fotos Kirlian, e fotos com longa exposição em larvas astrais ou extraterrestres.

Acreditam em tudo e buscam contar experiências ainda mais extravagantes, fazendo com que os outros torçam o nariz para o paganismo ou acreditem que seja coisa de adolescentes com homônimos alterados, ou histeria coletiva.
Poderia aqui continuar descrevendo quantas possibilidades teriam os cegos descobrindo o elefante ou pagãos que só se fixam em uma parte do paganismo nunca buscando uma visão total e de todas as possibilidades que o paganismo oferece. Poderíamos falar do cego que pegou nas presas e imaginou o elefante como uma arma poderosa, e o pagão que vê o paganismo como algo belicoso e se sente na obrigação de ser agressivo; do cego que pegou no rabo e se espantou quão pequeno era o elefante; ou do que pegou no pênis e imaginou que o falo era um aríete, como algumas pagãs feministas que imaginam que o bilau é sempre uma arma. Mas passaríamos dias aqui comentando o que cada cego "viu" e milhares de tipos de pagãos que se recusam a ver o paganismo como um todo, e se recusam a perceber num outro pagão um aliado e não um inimigo, só porque um comemora pelo Norte e o outro pelo Sul, ou porque um é iniciado e o outro auto-iniciado, ou porque a carta patente (coisa que não existe no paganismo, e sim nas ordens Cristãs ou em ordens baseadas nas ordens cristãs), é em papel brilhante ou em pergaminho.

Vamos olhar o Elefante inteiro, e vamos ver que há séculos não existe um movimento tão embasado e complexo como o Neopaganismo. Nem mesmo o renascimento, que foi a primeira investida neopagã pôde ser tão completo como esta nova retomada do paganismo. Porque apesar de a Renascença ter sido atuante em todas as artes, escolas de pensamento, técnicas de medicina, engenharia e tantas outras, não conseguiu mudar o pensamento religioso nem tampouco se livrar da culpa e do medo do castigo divino (vejam que na Renascença, em contrapartida aos avanços, a Igreja Romana manteve o retrocesso com milhares de pessoas acusadas de bruxaria e mortas na fogueira!).

Hoje poderíamos ousar ainda mais porque além de termos tudo isto, a religião antiga nos livra da culpa e do pecado, e podemos ir muito mais adiante nas artes e no pensamento humano.

Pois buscamos nos deuses ancestrais o nosso equilíbrio (do planeta), o que era possível no tempo da religião da Grande Mãe quando a natureza regia os ciclos da vida e da morte. Sem pecados e sem medo da inquisição, nada mais é proibido e nossa mente pode viajar em todas as direções.

O mais preocupante é que poucos percebem o elefante inteiro e continuam brigando e com isto esfacelando o neopaganismo em facções cada vez menores, fazendo o jogo dos monoteístas revelados e entregando o ouro para os bandidos. Devemos buscar enxergar o todo e com isto perceber que o paganismo é muito mais que uma nova religião (mesmo porque são várias), é uma nova maneira de ver o mundo, como antes das religiões dominadoras dos pastores e suas hordas invasoras.

Esta é minha proposta e a proposta deste site, nos unirmos pelas semelhanças e não deixarmos que nossas diferenças nos separem, mesmo porque, as concordâncias são muito maiores que as diferenças.

Portanto, olhemos para o elefante; imenso, forte, poderoso, com longas presas e que pode passar por cima de muitas coisas, de algumas quase que como um rolo compressor, porém, de desmembrado não é nada!


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