Gianpaolo Celli
Eu creio que a primeira coisa que você leitor fará ao terminar a leitura desta segunda e última parte é questionar: – Por que ela não foi colocada antes? – reclamando que – Ela é mais simples do que a primeira!
Na verdade, foi exatamente por este motivo, por ela ser mais simples, que eu deixei-a para depois. Pois apesar de parecer estranho, normalmente as coisas mais simples são as mais difíceis de trabalharmos.
Caso vocês não estejam lembrados, a idéia deste ciclo inicial de matérias é falar da Magia dentro de nosso cotidiano, longe e diferente daquela dos rituais complicados com datas e locais marcados, por ser mais espontânea, mais natural.
Nada mais natural, inclusive , do que literalmente a primeira e a última coisa que fazemos em nosso dia, Acordar, e Ir Dormir.
Aqui novamente eu creio que já mais da metade irá reclamar, pois se muita gente vais dizer que não tem tempo ou não vê como fazer magia, ou perceber o sagrado, em algo tão banal quanto acordar ou ir dormir. Mesmo assim eu creio que não há ações ou momentos mais básicos e com maior potencial para o sagrado e a magia do que os simples atos de levantar e ir dormir. Por que? Pois ambos são atos naturais.
– Existem muitos outros atos naturais que fazemos em nosso dia-a-dia! – você pode colocar, e está certo. Atos como nos alimentar, tomar banho, ou mesmo irmos ao banheiro ou trabalhar. Mas vamos por partes. Eu falarei destes outros tópicos mais tarde.
O Sagrado e a Magia de Manhã e de Noite
A primeira pergunta cabível aqui é: como acordar ou ir dormir podem ser atos carregados de magia ou de sacralidade? Muito simples! Pois ambos são atos que fazemos que se assemelham exatamente à natureza à nossa volta. Todos os seres vivos, mesmo a Terra, precisam de um tempo de descanso após horas de atividade.
Os corpos dos animais precisam recuperar suas forças; suas mentes precisam entrar em contato com seus inconscientes para que as experiências do dia, acessadas através de seus sentidos, sejam filtradas e organizadas, de modo a tornar-se parte deles. Da mesma maneira, as plantas e vegetais precisam do dia e da noite para que possam completar seus ciclos de metabolismo, de modo a crescer e se desenvolver corretamente. Ainda no caso das plantas, de dia elas liberam oxigênio e absorvem gás carbônico, e de noite fazem o inverso. Até mesmo a Terra precisa do dia e da noite. Não é a toa que a maré sobe toda a noite e desce toda a manhã.
Sendo pagãos, ou neopagãos, é simples para nós perceber que antes de respeitar os ciclos anuais, nós devemos também respeitar o ciclo do dia e da noite, um dos primeiros mistérios da humanidade que, muito antes do verão e do inverno, mostraram ao homem a ligação entre a escuridão e a luz, a vida e a morte.
– Mas como fazer de algo tão automático um ato mágico ou sagrado? – você pode questionar. É exatamente por isso que eu não comecei com ele, pois por ser mais simples, ele se torna mais complicado de se fazer.
Bom, da mesma maneira que fizemos com o cozinhar, novamente a mentalização e a imposição da vontade através das palavras podem ser feitas; pequenos rituais; metitações, mantras; tudo para nos deixar num estado mais elevado para quando formos encontrar nosso inconsciente, ou que nos anime para um novo dia.
Uma boa idéia é fazer uma simples visualização, matinal:
Respire fundo então um par de vezes, se espreguice e sente na cama (para que você não durma novamente).
Feche os olhos e se imagine em algum local aprazível: no campo, na praia ou nas montanhas (ou em algum lugar especifico que signifique algo para você). Você está deitado (na relva ou na praia) e o dia acabou de começar. O sol nasce e a escuridão estrelada da noite dá lugar primeiro a um céu amarelo, depois ao azul claro. Você ouve os sons da natureza a sua volta renascendo, acordando como você, ouve o vento, os pássaros, o som das ondas (se você estiver na praia), assim como sente o toque cálido do sol em sua face, aquecendo você gentilmente, fazendo seu corpo acordar para um novo dia. Você então senta, fecha os olhos (na visualização) e se espreguiça (em sua visualização e novamente em sua cama), então se levanta, abrindo os olhos (no mundo real) já em seu quarto, pronto para um novo dia.
Da mesma maneira, se você não estiver, por algum motivo qualquer, conseguindo dormir; ou mesmo se você quiser simplesmente complementar sua noite com um ritual rápido, uma visualização noturna também é uma boa idéia.
Neste caso um ritual, mesmo que simples, feito na visualização, pode ter resultados fantásticos (um dos rituais mais poderosos que eu já fiz foi totalmente mental, e logo após o final do mesmo, quando eu fui dormir, eu tive um sonho muito esclarecedor e interessante, relacionado à data e ao tema do ritual) .
Respire fundo então um par de vezes, se espreguice e deite-se na cama. Feche os olhos e se imagine em algum local aprazível: no campo, na praia ou nas montanhas (ou em algum lugar especifico que signifique algo para você). Você está deitado (na relva ou na areia da praia) e o dia está terminando. O sol está se pondo no horizonte, pintando o céu de tons avermelhados enquanto do outro lado da abobada celeste o azul claro dá lugar a uma escuridão estrelada mais do que magnífica. Sem medo algum, você percebe que os sons da natureza mudam e, no lugar do som de pequenos animais, e do vento, agora você ouve os insetos, os grilos, as cigarras cantando sua melodia noturna enquanto a natureza à sua volta se recolhe.
Depois de um tempo, enquanto a lua caminha pelo céu noturno, mesmo os insetos se calam e sobra somente o silêncio. Você então fecha seus olhos (na visualização) e, como a natureza, você dorme, retorna às suas raizes, morre, para recuperar forças e renascer para o dia que virá amanhã.
Junto a essa simples visualização noturna (ou matinal), um ritual mental pode ser feito. O interessante deste tipo de ritual é que todos os materiais necessários estão disponíveis. Tudo o que você precisar está ao alcance de sua imaginação. Círculos podem surgir naturalmente, assim como espadas e fogueiras. Daí é só escolher e fazer o ritual em sua visualização. Eu tenho certeza que ele será algo inesquecível.
Da mesma maneira que são atos naturais Acordar e Ir Dormir, como eu mesmo disse, a primeira e última ação que fazemos em nosso dia, Comer, se Alimentar, também é um ato natural que, apesar de muito relegado à inconsciência na modernidade, pode ser carregado de Magia e de Sagrado.
– ‘Relegado à inconsciência’? – você pode questionar. – Mas como assim?
Muito simples! A principal característica que nos vem à mente quando falamos em alimentação em nosso cotidiano pode ser determinada por duas palavras da língua inglesa mundialmente conhecidas: ‘Fast Food’! Dentro de nosso ‘atarefado’ dia, quando temos que nos dividir não somente em trabalho e estudo, mas também em tempo de locomoção, descanso e lazer, muitas vezes também em exercício e diversas outras coisas, algo tão banal como ‘Comer’, deixa de ter importância, passando a ser relegado a uma função semi-automática, normalmente feita sem total consciência da mesma.
Não é assim?! Durante o café da manhã estamos atrasados para o trabalho ou para o estudo; no almoço temos que sair, comer e voltar à empresa muitas vezes em uma hora; e no jantar estamos tão cansados, estressados e com vontade relaxar assistindo TV ou algo assim, que normalmente não prestamos a devida atenção ao ato de comer.
– ‘Devida atenção’ – você pode perguntar – mas por ‘devida’, o que existe de tão importante no ato, muitas vezes banal, de nos alimentar?
Vamos analisar profundamente e ver o que podemos descobrir sobre este ato.
O Sagrado e a Magia no ato de nos Alimentarmos
Antes de iniciar aqui, eu tenho que fazer uma colocação: às vezes, ao escrever sobre o sagrado e da magia em relação a ações do cotidiano, eu me sinto estranho. Não porque eu não considere atos cotidianos mágicos ou sagrados nem porque seria difícil descrevê-los como sagrados ou mágicos, mas porque me parece tão natural vê-los como sagrados que eu não consigo entender a disparidade entre meus pontos de vista e o padrão da sociedade.
Por outro lado, como eu disse acima, também é difícil achar que alguém considere o simples ato de comer como sagrado quando, além de termos tão pouco tempo guardado para tal coisa em nosso cotidiano - e o que temos divimos com outros atos, como o de ver TV, ou conversar - nos acostumamos a comer lixo (em inglês junk, de junk food é quase como lixo), que muitas vezes faz mais mal do que bem para nosso organismo.
Mesmo assim, se considerarmos que, entre outras coisas como respirar e dormir, a alimentação é algo necessário para que nos mantenhamos vivos, o ato facilmente passa a ser sagrado.
Aqui cabe um adendo. O paganismo diferente das religiões cristãs, não desliga o sagrado de nossa existência material. A natureza faz parte do divino, sendo portanto sagrada; e se tudo na natureza é sagrado, nós também o somos, pois fazemos parte dela. Tudo que fazemos, portanto, possui um potencial para o sagrado, desde que queiramos fazê-lo. Da mesma maneira, por uma simples questão de vontade, o ato de comer também pode se tornar mágico.
Lembrando a primeira matéria que eu postei aqui, o sagrado no ato da alimentação é muito semelhante ao sagrado no ato de cozinhar, pois se ao cozinhar estamos fazendo a primeira operação quase alquímica de transformar morte (do animal abatido, planta cortada ou fruta colhida) em vida (alimento), ao comer nós estamos dando continuidade a esta alquimia, pois o alimento ingerido renascerá em nosso organismo ao passar a fazer parte de nós, mantendo-nos vivos.
Agora eu pergunto: pode existir algo mais sagrado do que isso? A prolongação da vida através da transmutação de morte em renascimento?
Percebem como a natureza é sagrada? A própria física reza: ‘nada se perde, tudo se transforma!’, não sendo a cadeia alimentar uma pirâmide como nos mostrarm na escola, mas um círculo, pois os animais no topo da cadeia alimentar também morrem para alimentar a terra num ciclo interminável (e se formos pensar, nem poderia ser diferente).
Só falar da sacralidade da alimentação é simples, mas como fazer deste conceito algo real? Na verdade nada mais simples. O processo, inclusive, é o mesmo de se trabalhar a Magia no ato de comer. Eu não vou dizer que você deva fazer isso sempre, pois todo primeiro passo deve ser pequeno para que não se caia, mas tente numa das refeições do dia, ou por alguns momentos em cada refeição. Ao invés de prestar atenção na TV ou na conversa de algum familiar, amigo ou parente; ou ficar pensando em ir ou voltar ao trabalho, ou mesmo ir dormir; ou ainda ficar divagando sobre o futuro, foque sua atenção no presente (na verdade isso é uma dica para qualquer atividade em sua vida).
É isto mesmo! Você está sentado ou sentada em frente a um bom prato de comida. Foque sua atenção nele. Use todos os seus sentidos para percebê-lo. Veja as cores da comida; sinta o cheiro; verifique a textura quando for pegar a comida ou quando for cortá-la; ao colocar uma garfada na boca ou ao morder um sanduiche, pare! Deixe que as várias partes de sua lingua sintam os sabores, o doce, o salgado, o ácido e o amargo da comida. Aproveite o momento para considerar que aquele alimento que você escolheu e que agora está saboreando, logo estará entrando em seu organismo através da circulação.
Percebam que, como eu já disse anteriormente, o simples uso da consciência e da vontade para ativar a sacralidade do ato já gera diversos mecanismos em nosso inconsciente e isso pode ser considerado Magia.
Novamente, como eu já comentei em matérias anteriores, além desta ‘magia inconsciente, você também pode fazer magia consciente, utilizando-se de mentalizações e visualizações, mesmo que somente por alguns minutos enquanto come, para que o alimento lhe traga vitalidade, intuição, fertilidade, qualquer coisa! Inclusive aqui, eu tenho que dizer que, quanto mais associação você fizer em relação aos sabores e aos alimentos (como eu mesmo coloquei em minha primeira matéria, com sua própria energia natural, ou à simbologia dada a eles), melhor será. Assim, por exemplo, apimentados, ligariam à fertilidade, à paixão, à energia sexual; da mesma forma, um vinho tinto (sangue da terra) ou mesmo a cerveja ligariam à terra.
Mais uma vez eu tenho que lembrar que estas são analogias simples, e que quanto mais se aprofundarem no assunto e quanto mais praticarem, melhores serão os resultados.
Eu ia terminar a matéria por aqui, mas como recebi pedidos de mais receitas, e a coluna mais uma vez fala de comida, eu colocarei mais uma abaixo uma de minhas incursões alquimicas na cozinha:
FRANGO AO CHÁ
Ingredientes:
500 g de filé de frango
1 cebola grande
1 pimenta americana amarela
1 pimenta americana verde
1 pimenta americana vermelha
1 punhado de Hortelã e manjericão frescos
Ervas finas, noz moscada, páprica doce e sal a gosto
Pegue a hortelã e o majericão e coloque para ferver em 500 ml de água. Enquanto isso pique a cebola e as pimentas americanas e coloque na panela com azeite. Refogue por alguns minutos.
Pique os filés de frango e também coloque para refogar por aproximadamente 5 minutos.
Quando as ervas estiverem em ponto de chá, despeje todo ele, com uma peneira, na panela.
Espere o caldo reduzir pela metade (coisa de 10 minutos), então acrescente as ervas finas, a noz moscada, a páprica doce e o sal.
Coloque a panela em fogo baixo até o restante do caldo quase secar
Esta receita serve de 3 a 4 pessoas.
Tempo de preparo: 15 minutos
Tempo de Cozimento: 40 minutos.
Por motivos óbvios eu chamei essa receita de Frango ao Chá. A idéia de desenvolve-la (pois esta é uma criação minha) foi fazer um prato que, apesar de saboroso, tivesse um paladar bastante delicado. Assim, ao invés de colocar as ervas em questão na receita, eu fiz um chá com elas e utilizei-o para cozinhar a receita.
Até mais!
Gianpaolo Celli
PUBLICADO EM TRIBOS DE GAIA EM 19/01/2009
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