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Gianpaolo Celli



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*A Magia e o Sagrado no Cotidiano – parte 1.

 

Gianpaolo Celli

Minha idéia ao fazer esta série de colunas é, ao contrário do que normalmente faço, não só apresentar de questões e estudos, mas apresentar e trabalhar a prática, a qual eu creio que deva ser pessoal. A idéia, portanto, é falar de Magia e como a mesma pode ser introduzida em diversos aspectos de nosso cotidiano.

Alguns leitores, acostumados a rituais com datas e locais marcados poderão estranhar, questionando se realmente algo assim é possível. A resposta, evidentemente, é Sim!

Na verdade não só é possível como também é natural para diversas culturas que, diferentes da nossa, não dividem a realidade em sagrado e profano, e seus atos em místicos e mundanos como nós. O pior é que fazendo isso, perdemos excelentes momentos cujo potencial para o encantamento é enorme.

Evidente que coisas comuns em rituais, como estados alterados de consciência, sensação de energias cósmicas, visão de elementais e divindades serão difíceis (apesar de não impossíveis após alguma prática e aumento da sensibilidade), mesmo assim, a percepção do sagrado e do místico em seu cotidiano abrirá uma infinidade de momentos mágicos que antes estavam sendo perdidos.

Eu sei que muitos neo-pagãos consideram já haver quebrado essa barreira; de, por considerarem a Terra como um organismo vivo, parte da divindade, eles acham que já o fizeram. Ledo engano! Um cientista também pode considerar a Terra como um organismo vivo (Hipótese Gaia), mas nem por isso precisa conseguir ver o sagrado em seu cotidiano e fazer de seus atos algo mágico. Isso pois nossa cultura, nossa sociedade, as religiões predominantes pregam tanto essa dualidade de Céu/Terra e Sagrado/Profano que conseguir nos desvencilhar destes conceitos é um trabalho que demanda não somente muita prática, como também muita consciência.

Na verdade aqui estamos falando já de duas coisas: do sagrado e da magia, e ligando tais conceitos. Evidente que eles podem ser considerados separadamente, pois são, na realidade, coisas diferentes. Respectivamente, o primeiro é uma crença e.o outro a prática. Mesmo assim eu gostaria de trabalhar ambos. Não só pois creio (como um bom teórico, rs.) que toda prática deve ser precedida por um estudo e uma crença que a baseiem, como também porque se considerarmos que, originalmente, a palavra ‘mago’ (que para nós é só ‘aquele que faz magia’) vem do grego mágos, que era como eles chamavam os sacerdotes persas.

Diversos povos antigos, desde os Sumérios até os Celtas e Nórdicos, eram pagão, ou seja, eles viviam no campo e cultuavam a Terra e a natureza como entidades vivas e partes de seus deuses. Assim, em diversos locais onde estes povos habitaram, nós temos locais, desde cidades como lagos e rios, batizados em honra a eles. Temos, por exemplo, a cidade de Lugo, em Portugal, assim como Lyon, na França, cujo nome anterior era Lugdunun (Fortaleza de Lugh), ambas batizadas em honra ao deus celta Lugh; a ilha de Mann, que recebeu seu nome em honra a Manannan Mac Lir; a Escócia, em inglês Scotland, ou Scath Land, Terra Sombria (uma outra maneira de apresentar o Outro Mundo), batizada em honra a deusa da morte e da guerra Scathach, que ensinou as artes da guerra a Cuchulainn um dos grandes heróis do Ulster (existe também uma outra versão onde a Escócia recebe seu nome em honra a uma deusa chamada Scota, que seria uma ancestral dos escoceses); o rio Boine, na Irlanda, batizado em honra a deusa Boann; e a própria Irlanda, em inglês Ireland, ou Erinn Land, terra da deusa Eriu. Eu poderia continuar com inúmeros exemplos mas esse não é o ponto aqui. O importante é que, como estes povos tinham a Terra como algo sagrado, toda sua existência, do nascente ao poente, e além dele também, era quase um ritual, sendo cada ato seu uma ligação com o sagrado.

Com o declínio das religiões pagãs e o crescimento do Cristianismo que, como já colocamos, considerava e considera uma diferenciação entre a Terra e o Céu, o sagrado e o profano, perdeu-se a sacralidade da Terra. Com a popularização da cultura de dominação, o ocidente trocou a noção do sagrado em suas ações pela noção da obrigação, de trabalho. Deste modo, praticamente de uma só vez, perderam-se as duas noções que suportavam as práticas mágicas no cotidiano. E como eu disse antes, para que elas voltem, não é necessário que o sagrado retorne. A magia não precisa necessariamente dele, mas somente da Vontade (conceitos mais elaborados sobre magia serão apresentados mais à frente no texto), entretanto, como neopagãos, podemos adequar muito mais facilmente essas práticas místicas se também conseguirmos voltar aos antigos, e renovados, conceitos de sacralidade da Terra.

Assim, para cada tópico que eu apresentar aqui, eu também analisarei como dele deveria (ou deverá) ser visto tanto no ponto de vista do Sagrado no Cotidiano como em relação à Magia no Dia-a-dia.

O Sagrado e a Magia na Cozinha

Aqui eu creio que já mais da metade irá reclamar, pois se muita gente simplesmente não vê prazer em cozinhar, e boa parte de quem vê muitas vezes, erradamente, não consegue tempo hábil para fazer do cozinhar um ato prazeroso, algo essencial tanto quando falamos da magia como do contato com o sagrado.

Muitos são os aspectos de nossos atos rotineiros, o sagrado e a magia que podemos estar trabalhando ao faze-los são só dois deles. Mesmo assim, considerando todo ranço que absorvemos em nossa vivência cotidiana, descobrir estes dois pode ser muito mais difícil do que se imagina, ou se simples de se descobrir, mais complicado de se trabalhar. Assim, de todas as coisas que fazemos no dia, a primeira que eu escolhi foi o cozinhar.

Muitos podem colocar que passam tão pouco tempo fazendo o que querem que não gastá-lo-ão em algo tão tedioso. Este, inclusive, é um dos conceitos mais errados que existem em relação a esta tarefa: que toma muito tempo. Na verdade, para provar o quanto estão errados, mais à frente eu apresentarei uma receita excepcional da cozinha irlandesa e que não tomará mais do que meia-hora para ser preparada.

A questão em relação ao cozinhar que me faz coloca-lo em primeiro lugar, antes até de conceitos mais simples de serem absorvidos, é que não há função onde o sagrado se encaixe mais facilmente do que nesta.

Em diversas culturas da antiguidade não só o cozinhar era um ato sagrado como a cozinha era o centro das residências. E não é para menos, se formos considerar que é na cozinha e no ato de cozinhar que transformamos morte em vida, em alimento que trará vida a nosso corpo. Quando se caça, se abate algum animal, ou se poda ou colhe algum vegetal, se trás a morte a esta coisa; quando, através da cozinha, esta fruta, vegetal ou animal mortos são transformados em alimentos, nós estamos na verdade completando o sagrado ciclo de vida, morte e renascimento. O vegetal ou animal que morre, o faz para renascer em nós mesmos.

Só a analise deste aspecto pode mudar todo seu ponto de vista em relação ao ato e cozinhar, e isso influenciaria a questão da magia, pois se ao invés de um sentimento de perda de tempo, você estivesse cozinhando com prazer, mesmo esta simples mudança em seu temperamento iria, e irá, transformar a energia da comida, que por sua vez seria absorvida de uma maneira diferente por nosso organismo, e isso, acredite, é magia. Mesmo assim esta magia é inconsciente.

Na verdade se considerarmos esse aspecto, o ato de cozinhar é o ato consciente que fazemos que mais se aproximaria da Grande Obra, da Alquimia. Mesmo assim, podemos melhorar, fazendo muita magia consciente enquanto cozinhamos. Encantamentos, feitiços. Um prato de comida pode ser, se bem preparado, até mesmo uma poção, como as dos contos de fada.

Precisamos de um conceito concreto do que vem a ser magia. A melhor definição que eu posso encontrar é que magia é a arte de trabalhar as energias sutis existentes na natureza para conseguir resultados palpáveis. Da mesma maneira, como eu já comentei, além de responder a sentimentos, as energias sutis trabalhadas na magia também respondem à duas coisas: necessidade e vontade. Assim temos a necessidade, a vontade, e o sentimento, todos adequados à magia. A única coisa necessária agora é como faze-la. Vamos ver a receita agora e depois explico como trabalha-la magicamente.

Fricassê (Ensopado) de Cogumelo

Ingredientes:
75 g de manteiga
1 cebola, bem picada
1 cabeça de alho, picada ou amassada
850 g de cogumelos de sua escolha, limpos e picados
50 g de cogumelos (funchi) secos picados
1 colher de chá de manjerona
1 colher de chá de salsa, picada
150 ml de vinho tinto
1 gema de ovo
1 colher de chá de farinha de milho (Maisena)
2 colheres de sopa de creme-de-leite
sal e pimenta a gosto

Coloque os cogumelos secos em metade da quantidade do vinho e leve ao fogo. Deixe ferver e então reserve.

Derreta 50 g da manteiga num woky e coloque a cebola e o alho picados para fritar, mexendo até que eles amoleçam. Antes que dourem, adicione os cogumelos e deixe a mistura em fogo baixo por cerca de 10 minutos para que eles soltem seu suco. Os cogumelos devem cozinhar, não fritar.

Adicione os cogumelos secos (re-hidratados) a manjerona, a salsa, o vinho, o sal e a pimenta, e deixe a mistura toda ferver.

Enquanto isso, misture a gema de ovo com farinha de milho e o creme-de-leite, adicione então o preparado na frigideira, de modo a engrossar o caldo do cogumelo e do vinho.

Misture tudo e deixe em fogo baixo para manter o calor.

Esta receita serve 4 pessoas como acompanhamento de prato principal ou 8 como entrada.

Tempo de preparo: de 15 a 20 minutos.
Tempo de Cozimento: de 20 a 25 minutos.

* Obs.: Como a receita ficou grande demais para as frigideiras que tenho em casa, eu usei um woky.

Receita traduzida e adaptada por Gianpaolo Celli do livro Irish Food & Folclore – A guide to the cooking, myths and history of Ireland, de Clare Connery, editora Bounty Books..

Como vocês podem ver e como eu havia prometido, uma receita rápida e muito gostosa. E o melhor, com diversos ingredientes, como as ervas e o vinho, que nos transportam diretamente com as poções, aos rituais e por que não, ao sagrado da Terra! Vamos lá então:

Perceba que umas coisas mais simples que podemos fazer é ver a ligação dos ingredientes com algum tipo de energia natural, seja ela curativa, para dar força, espiritualidade, e usa-la. Essa ligação pode ser facilmente usada quando eles são acrescentados à receita mentalizando, falando alto, ou ambos, o que se quer deles:

Ao se derreter a manteiga, todo o aspecto de vida que o leite traz, pode ser mentalizado e isso pode ser usado para cura. A cebola e o alho, por sua vez, são temperos, ao adiciona-los a receita pode se mentalizar que eles trarão força de vontade, ou quem sabe que temperarão o apetite (sexual, por exemplo) de quem comer aquele prato. Os cogumelos por sua vez, desde há muito são ligados às fadas, duendes e a outros elementais. Ao adiciona-los (ou ao trabalhar com eles) você pode mentalizar uma maior ligação com eles para quem comer. Assim como a cebola ou o alho, a manjerona, a salsa, o sal e a pimenta são temperos, e podem ser trabalhados como tais. Como dizem, vinho, especialmente o tinto que usamos aqui, é sangue da Terra. Ao ser adicionado à receita pode-se mentalizar que uma parcela do sagrado está sendo adicionada, que a ligação aos planos espirituais será mais simples para quem comer do prato. Finalmente, o ferver, ou cozer, é uma maneira de concentrar, aumentar a força. Se isso for mentalizado enquanto se mexe o prato, a força das energias colocada no mesmo também irá ser concentrada.

Note que tudo isso com analogias simples, sem estudos mais profundos das ligações que todos os ingredientes podem ter ao inconsciente coletivo através de tradições históricas ou com alguma deidade em particular.

Da mesma maneira, a mentalização e a imposição da vontade através das palavras pode ser feita sem que nenhuma analise em relação à natureza dos ingredientes, mais ligada ao aspecto espiritual, sejam feitos. Assim, como algo inconsciente, semiconsciente ou totalmente consciente, podemos usar tanto do sagrado como da magia no simples ato de cozinhar.

Perceba, entretanto, que, quando se trata de trabalhar com a comida de outra pessoa, fora exceções como cura e espiritualidade por exemplo, deve-se pedir permissão antes de se fazer magia, encantamentos e poções na receita (magias do amor ou alguma outra que influencie o livre arbítrio). Afinal de contas, não podemos esquecer nunca da lei da física que diz que “toda ação tem uma reação de intensidade semelhante e sentido oposto”, ou da lei tríplice da wicca que diz que “tudo que fazemos nos volta três vezes”, especialmente quando falamos de magia, onde temos contato com os três mundos, o físico, o energético e o espiritual.

Na próxima matéria eu continuarei falando dA Magia e o Sagrado no Cotidiano, só que falando de outros aspectos de nossas atividades rotineiras.

Até mais!

Gianpaolo Celli


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