Gianpaolo Celli
Sabe, eu realmente não consigo compreender estas festas
de final/início de ano. Esse conceito de contagem regressiva,
a festa em si na realidade, tudo me parece fútil e falso.
A questão não é que eu não compreenda
o conceito de festa em relação a algo novo que
chega e algo velho que se vai. Eu não só estou
familiarizado, como sei que diversas culturas possuíam
e ainda possuem esse tipo de celebração. Os celtas
mesmo tinham seu ano dividido basicamente em dois, com Beltane
marcando o início da metade quente e Samhain indicando
o começo não só da parte fria, como a
mudança do ano em si, que se iniciava naquela data.
Para eles, inclusive, estas datas limítrofes que determinavam
a mudança de energias que, além de opostas eram,
e são, complementares, geravam uma 'quebra' na Roda
do Tempo, momento quando as regras que governam o mundo físico
ficavam temporariamente suspensas, criando uma assim fissura
no tecido da realidade por onde o Outro Mundo acessava o reino
dos vivos. É desta crença, inclusive, que nasceu
a famosa frase "em Samhain o véu entre os mundos
se torna mais sutil", tantas vezes repetida e tão
pouco explicada. Não é à toa, inclusive,
que na mitologia celta, foi em May Eve, o início da
noite que antecede o May Day, 1o de Maio, Beltane, que os Tuatha
Dé Danann chegaram à Irlanda; que o mar entregou
Taliesin nas redes de Gwyddno.
A questão aqui seria então: não serão
também as festas de final/início do ano datas
especiais onde se dão "quebras na roda tempo"?
Eu creio que não. Mas mesmo que tal fato aconteça,
o que se está festejando? Eu pergunto pois de tudo que
estudei na mitologia e cultura celtas, assim como em mitos
de outras culturas relacionados a celebrações
sazonais, cada uma delas possuía um propósito
muito profundo. Assim, quando se comemora o final de uma estação
e início de outra, que para os celtas, por exemplo,
acontecia no que hoje são as Grandes Celebrações
do neopaganismo (Samhain, Brigantia/Imbolc, Beltane, Lughnasadh/Lamas),
existia, além de toda a questão de se pedir aos
deuses por prosperidade, fertilidade, reflexão, dependendo
da celebração, e agradecer pelo recebido na estação
que estava se findando; uma dedicação em se verificar
os acontecimentos do período que se findava para assim
se descobrir o porque do que deu errado; de se analisar o andamento
de projetos estavam sendo iniciados, os que estavam em andamento
e os que terminavam, assim como os que estavam prosperando
e os que estavam declinando. Tudo isso para que alguns projetos
que não estavam dando certo fossem sacrificados para
os demais florescessem; para que se pudesse aprender com os
erros cometidos no período. Ou seja, havia crença
e fé, mas também havia ação e consciência.
E não adianta dizer que esta é ou não
sua religião, ou mesmo sua crença. O que se tornou
o Natal? - pergunto eu - O que se tornaram o Ano Novo, a Páscoa
e o Carnaval? Para cristãos e não-cristãos
estas datas tornaram-se respectivamente datas para se empanturrar
e ganhar presentes; para se empanturrar desejando que com o
Ano Novo as coisas ruins desapareçam como que por magia;
se empanturrar de ovos de chocolate; e finalmente para deixar
a libido, normalmente reprimida de uma maneira hipócrita,
aflorar de uma maneira anormal. Assim, a maioria das pessoas
não se lembra do significado real de tais festas, sejam
eles os originais pré-cristãos ou os que a Igreja
criou (será que alguém poderia explicar por que
aqui no sul, em pleno verão, se enfeitam pinheiros, árvores
que se mantinham verdes mesmo no inverno, com neve falsa? Será que,
ao contrário dos antigos, que pediam pela volta do verão
no inverno, nós estejamos pedindo pela volta do inverno
no verão?)
.
Da mesma maneira que ninguém pensa que, quando se plantam
cebolas, colhem-se cebolas. Ou seja, os mesmos políticos
corruptos, o mesmo presidente inepto ou o mesmo chefe idiota,
tudo que se tinha antes das festas, se terá depois delas.
O que? Você acha que eu estou sendo pessimista demais,
duro demais?
Será mesmo? Será que não é você que
está querendo demais que a fantasia de seus sonhos torne-se
a realidade de sua vida sem que você mesmo tenha que
fazer algo? Não que fantasiar seja ruim! Sonhar é importante,
necessário até para que sobrevivamos. O que não
se pode fazer é achar que estes sonhos, estas esperanças
encherão sua barriga, ou que mudarão sua vida
sem que você tenha que agir para que isso ocorra. Lembre-se,
mesmo quando se trabalha magia, iniciativa e ação
são necessárias!
Assim, seja festejando as datas sociais; as de sua religião;
ou mesmo as suas datas festivas particulares como o dia do
seu nascimento, que se celebrem os acontecimentos destes períodos;
os aprendizados que tivemos nele; os sacrifício que
fizemos e que faremos no futuro próximo para que nossos
projetos se concretizem, ao mesmo tempo em que peçamos
ao universo pelo que queremos. Ou melhor, peçamos para
que aprendamos a lidar com a fertilidade, com as energias ctônicas
que o universo nos envia para que prosperemos e cresçamos,
as quais não só normalmente ignoramos, como reclamamos
(com o universo) por havermos deixado-nas passar, como se a
culpa não houvesse sido nossa. Na verdade o que precisamos é nos
condicionar a aceitar que toda festa deve ser um ritual, assim
como todo ritual deve ser uma celebração
Finalmente, lembre que para resolver qualquer situação,
para se solucionar qualquer problema, antes mesmo de se tomar
uma ação corretiva é necessário
que se descubra como tudo aconteceu, lembrando que se algo
ocorre conosco nós também temos responsabilidade
sobre isso. Assim, aprenda a aceitar não só as
culpas por seus erros pois é só assim que se
aprende, mas também as glórias por seus sucessos.
Assim, que 2006 tenha sido um ano cheio de aprendizados e
de sucessos, e que 2007 seja prospero e completo tanto físico
como enegético e espiritualmente. |