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Gianpaolo Celli



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Viajar é Preciso; Viver não é Preciso

 

Sem querer, mas já parodiando o grande poeta Fernando Pessoa em sua frase 'Navegar é preciso; viver não é preciso', cujo original em latim era do general romano Pompeu: 'Navigare necesse; vivere non est necesse' que, segundo o historiador Plutarco, foi dita a marinheiros amedrontados que recusavam viajar para guerra, eu também afirmo: 'viajar é preciso, viver não é preciso!'
- Mas por que viajar é preciso, necessário, - você pode perguntar, leitor - mais até do que viver?
Bom, inicialmente este ponto nos remete a uma questão básica que, devido a habitualidade de nosso cotidiano, nós tendemos a esquecer:
Qual é seu objetivo?
Esta é um pergunta não somente interessante como necessária pois, normalmente, estamos tão presos ao marasmo que tomou conta de nossa existência que perdemos de vista nossos objetivos, tanto em curto como em longo prazo, e passamos a 'navegar' sem destino, esperando que, mesmo sem saber para onde estamos indo, algum dia surja um vento que nos leve para um local mais aprazível. O que esquecemos é que sem um objetivo a seguir, sem saber aonde ir, nenhum vento é a favor.
Sim! Pois o que nos ensinam, que devemos pensar em nós mesmos somente por último, se é que devemos pensar em nós mesmos, é um erro, um egoísmo, pois a sociedade é mais importante do que o indivíduo. O que se esquecem, ou o que nos fazem constantemente esquecer, é que sem um indivíduo completo, a sociedade deixa de existir, deixa de 'ser', e o que resta nada mais é do que um amontoado de seres que tentam sobreviver, e não viver, num mesmo local, gerando uma balburdia que é tanta, que seus conceitos atualmente estão todos se voltando contra ela.
Assim passamos nossa vida: em relacionamentos vazios; em empregos que não nos satisfazem; sem saber o porquê de estarmos fazendo as coisas, e terminamos a vida com aquele sabor amargo que poderíamos ter vivido mais, mais tempo, mais intensamente, tendo feito mais coisas para nós mesmos.
Mais do que isso até, pois essa falta de um objetivo determinado, que para as crianças é descobrir o mundo; para os jovens, seguir aprendendo (ou pelo menos indo à escola, então ao colégio e à faculdade), se perde quando a pessoa deixa a universidade e, tendo que trabalhar para sobreviver e sem ter quem determine seus objetivos pessoais, ela não se vê livre, mas perdida em seu cotidiano.
- Mas isso é normal! - você pode colocar. - Acontece com qualquer um!
É verdade! E você estaria até matematicamente correto. Mas como se pode aprender por si próprio quando nossos conceitos pessoais e os conceitos sociais que nos foram impingidos colidem?
A resposta é: Não podemos! Tanto que é assim que se dão as famosas crises de meia-idade. As pessoas chegam num ponto na vida em que percebem que, havendo ou não conseguido o que a sociedade exigiu deles, suas existências são vazias; que existe algo além daquele patamar sócio-econômico, então elas normalmente saem em busca de algo que perderam no meio do caminho, saem atrás delas mesmas. É quando elas tentam lembrar de seus velhos objetivos e saem em busca de satisfazê-los, se esquecendo que aquelas eram metas de outros tempos, de uma outra pessoa, não de quem elas se tornaram, de quem são agora.
- O que deveriam fazer?
Ora, deveriam buscar novas metas, novos objetivos, e se porem atrás deles.
É por isso que, parodiando o poeta eu digo: 'Viajar é preciso', pois como navegar, não se pode viajar sem um objetivo. Sejam em finais de semana, quando tiramos férias de dois dias em sete (menos de um terço da semana), ou em um mês por ano (num dozeavos dele. Isso é, quando não se vende parte destes 30 dias em prol de um pouco de dinheiro) e não viajamos, terminamos esse período, seja ele de dois, dez, vinte ou trinta dias, com aquela sensação de que não relaxamos como deveríamos, não fizemos tudo que queríamos.
Isso porque mesmo fora do cotidiano do trabalho, continuamos em nosso meio, a cidade, e deixamos tudo que gostaríamos de fazer 'para o dia seguinte', pois está tudo ali e para nós, sempre estará, mesmo que nós não estivermos.
Deste modo um período no qual deveríamos renovar nossas energias, relaxar e nos focar em nós mesmos termina não servindo para nada!
E o "'viajar' é preciso", especialmente se formos viajar para lugares novos, diferentes, desconhecidos. É preciso, pois deve ser planejado; pois saímos da segurança do cotidiano, de nossa cidade, indo, como o herói mítico em sua jornada mítica, em direção ao limiar.

Vamos pegar algum mito de viagem ao Outro Mundo para comparar:


O Encurtar do Caminho

O Filho de Gobhaun Saor1 estava tão atarefado construindo uma flauta enquanto aproveitava o sol na varanda da casa do pai que não percebeu os três estranhos até que eles tivessem muito próximos. Ele olhou para cima e percebeu que eles usavam capas e capuzes para esconder seu jeito rude.
- Bom dia para vocês. - cumprimentou o Filho de Gobhaun Saor.
- Bom dia. - responderam os três. - Nós viemos conversar com o Filho de Gobhaun Saor.
- Estão falando com ele.
- Nós viemos - disse o mais carrancudo dos três - sob as ordens do Rei da Terra Sob as Ondas para pedir sua ajuda. Ele tem um trabalho que nenhum de seus súditos pode fazer, e como você tem a sabedoria os Três Mundos em suas mãos…
- É de meu pai que você fala. - interrompeu o Filho de Gobhaun Saor sorrindo.
- Bom, - continuou outro dos estranhos - traga seu pai para a Terra Sob as Ondas e vocês serão bem recompensados.
O Filho de Gobhaun Saor saiu então em busca de seu pai. - Eu tenho novidades para você, pai, e fortuna - falou ele.
- Que novidades? - perguntou Gobhaun.
- O rei da Terra Sob as Ondas está me procurando. Se você vier comigo a recompensa está garantida.
- Ele trouxe um suvenir de prova?
- Nenhum. Mas você acha que eu não reconheceria seus mensageiros?
- Ah! Você é inteligente! - replicou o pai.

Na manhã seguinte eles saíram e, à medida que caminhavam, Gobhaun Saor comentou - Filho, encurte o caminho para mim.
- Como eu vou fazer isso, - questionou o Filho - se seus próprios pés não conseguem?
- Como você acha que fará minha fortuna e a sua - perguntou o pai - se você não consegue fazer algo simples como isso? - e voltou então para casa.

Sem saber o que fazer, o Filho sentou-se numa pedra e, apoiando a cabeça nas mãos, começou a pensar em como ele poderia encurtar o caminho. Quanto mais ele pensava, entretanto, mais complicada a questão parecia, de modo que ele desistiu e começou a olhar a sua volta. Foi quando percebeu um velho, frágil e corcunda que, com dificuldade, cardava mechas de lã na grama verde. Sentido pena dele, o Filho de Gobhaun Saor resolveu ajudar. Quando se aproximou, uma brisa carregou um pouco da lã, e ele viu que na verdade o que ele cardava não era lã, mas espuma do mar. O velho então se endireitou. E, mesmo com os olhos fixos na espuma, o Filho de Gobhaun Saor soube que se tratava de Mananaun, o Deus dos Mares.
-Você vinha me ajudar, não é? - perguntou Mananaun.
- Sim! - respondeu o rapaz, - mas parece que você não precisa da minha ajuda.
- A mão estendida em ajuda, - continuou o Deus dos Mares, - é aquela que sempre mais receberá em troca. Pegue um pouco de minha lã, ela irá ajudá-lo quando você precisar.
E quando o Filho de Gobhaun Saor abaixou-se para pegar a espuma, um vento soprou mais forte, levantou-a, e sob ela ele pôde ver o azul do mar, claro como cristal. E sob ele ainda, um campo vermelho de flores balançando ao vento. Ele pegou um pouco de espuma, que instantaneamente se transformou lã em suas mãos. E quando ele endireitou-se, Mananaun já havia desaparecido, e não havia nada ali a não ser a grama verde brilhando ao sol.

Voltando para casa, ele mostrou a lã para sua esposa, enquanto contava com tristeza que não havia conseguido encurtar o caminho para seu pai.
- Não fique triste por causa disso. - falou ela - qualquer um sabe que contar uma história é o único jeito de encurtar um caminho.
- Que a sabedoria cresça em você como a árvore das avelãs da sabedoria! - sorriu ele em resposta. - Eu vou seguir seu conselho. E talvez amanhã meu pai siga comigo o caminho todo.

Na manhã seguinte eles voltaram à Estrada e mais uma vez Gobhaun Saor disse - Filho, encurte o caminho.
O Filho então contou a história de Angus Oge e como ele conseguiu ganhar para si a casa de Dagda Mor. Era uma grande história, que só terminou quando eles chegaram à praia de White Strand.
- Desde quando, - questionou Gobhaun Saor ao ver o barco velho e mau feito, e os remadores deformados que esperavam por eles - o Rei da Terra sob as Ondas tem Fomorians como remadores? E desde quando ele tomaria emprestado um de seus barcos?
O filho não conseguiu responder a questão, mas o mais feio deles aproximou-se com duas capas nas mãos que brilhavam como o mar brilha ao sol. - Essas capas - disse ele - são da Terra sob as Ondas, coloquem-nas sobre suas cabeças, Gobhaun Saor, e você não achará nem o barco mal-feito, nem a viajem longa.
- O que eu tinha dito? - alegrou-se o Filho ao ver as capas. - Você pediu por um suvenir de prova e ai está. Se você desistir agora mesmo eu tenho encurtado nosso caminho, eu vou sozinho e ficarei com toda sorte e fortuna.
- Eu vou com você. - Gobhaun Saor respondeu, pegando as capas e, entregando uma ao Filho enquanto colocava a sua de modo a não ver os horrendos remadores.

- Olhe para a terra para onde estão nos levando. - comentou Gobhaun Saor ao Filho ao levantar seu capuz e o de seu Filho após algum tempo no mar. A costa que se abria a frente deles era soturna, escura e horrenda, e além dela a terra se estendia estéril e cinzenta, sem que uma árvore, nem mesmo uma folha de grama, pudessem ser vistos. Nem o sol parecia querer iluminar aquele local - Eu creio que nós não vamos conseguir fortuna alguma aqui, pois ao invés da Terra sob as Ondas nós fomos trazidos aos domínios de Balor, o do Olhar Maligno, o rei dos Fomorians.
- Vocês nos enganaram com mentiras e capas roubadas da Terra sob as Ondas, mas não farão isso com mais ninguém. - continuou ele para o chefe dos remadores, jogando ao mar as duas capas que afundaram como se fossem puxadas por alguém. - Que elas voltem a seus donos!
Os Fomorians rilharam os dentes de raiva, mas não se atreveram a tocar Gobhaun ou seu Filho, pois sabiam Balor precisava deles.

Gobhaun e seu Filho foram então escoltados até uma fortaleza toda de vidro, lisa e fria, onde se viram frente a frente com um gigante deformado cujo olhar a tudo fulminava.
- Você é um ferreiro, excelente pelo que me disseram, e seu Filho é um sábio - comentou Balor a Gobhaun. - Eu trouxe vocês aqui para que acendam fogo sob um caldeirão.
- Isto não é uma tarefa difícil! - respondeu Gobhaun. - Onde está o caldeirão?
- Eu vou mostrar. - replicou o rei, levando-os a uma sala fortificada e guardada por guerreiros Fomorian.
E lá dentro Gobhaun Saor encontrou o maior caldeirão que já havia visto, todo em bronze, brilhante como o sol.
- Eu quero fogo sob ele, - continuou Balor - e nenhum de meus súditos conseguiu isso. Pois mesmo quando o fogo acendia, eles não conseguiam fazer com que durasse mais do que um momento. A decisão agora é sua: sorte e fortuna se conseguirem acender o fogo, ou muito azar se falharem, pois nenhum de você sairá vivo daqui!
- Saiam todos! Só eu e meu filho devemos ficar aqui, - exclamou Gobhaun Saor - até que descubramos quanto de nossos poderes será necessário.
E quando só ele e seu Filho restavam na grande sala, ele disse - Vamos circundar o grande caldeirão. Você irá do Leste para o Oeste e eu do Oeste para o Leste, e vamos que inspiração nós conseguiremos.
E eles circundaram o grande caldeirão nove vezes até que Gobhaun Saor perguntou - Alguma inspiração meu Filho?-
- Eu creio - respondeu o Filho - que este é o caldeirão de Dagda Mor.
- Suas palavras são verdadeiras - replicou Gobhaun - pois este é o Caldeirão da Fartura, que se usado pode alimentar todos os homens da Irlanda de uma só vez. Quando ele pertencia ao Dagda qualquer um conseguia dele a comida que mais apreciasse. E foi usando de traição e mentiras que os Fomorians o conseguiram, por isso que eles não conseguem acender fogo algum sob ele.
- Podem vir agora - gritou ele aos Fomorians - pois a inspiração e a saberia já foram obtidas!
- Você vai acender o fogo, - questionou o Filho - para os ladrões que destruíram a Irlanda?
- Shhh! - replicou Gobhaun Saor - quem disse que eu vou acender o fogo?

- Digam a Balor,- disse ele aos Fomorians que haviam entrado correndo - que eu preciso de nove tipos de madeira, recentemente cortada, sob o caldeirão, e duas pedras para conseguir fogo. Tragam-me madeira de Carvalho, madeira de Freixo, de Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro e de Avelã, madeira de Teixo, de Pilriteiro, e um galho de Alecrim-do-Norte; e me tragam uma pedra branca que esteja junto à porta de um Brugh-fer2, e uma pedra negra que esteja sob a porta da casa de um poeta que saiba as nove canções douradas, e então eu acenderei o fogo sob o caldeirão.

Eles correram a seu líder com as notícias, e ele ficou negro de raiva ao ouvi-las. - Onde eu conseguirei toda essa madeira num país desolado como uma tumba? - questionou - E qual dos meus poetas saberá canções que não sátiras ou maldições? E que Brugh-fer teria eu, que nunca dei um prato de carne a um estranho em toda minha vida? Deixe-os responder, - continuou Balor, - como estas coisas devem ser conseguidas?

- Será difícil conseguir qualquer destas coisas num país como este. - respondeu Gobhaun Saor quando eles perguntaram - Como você nada possui, uma visita a terra dos De Danaans será necessária. O filho e filha de Balor deverão ir à minha casa na Irlanda e perguntar à mulher que lá encontrarem por todas estas coisas.

Os filhos de Balor saíram então em viagem, levados por um vento conjurado pelos druidas do Rei que os levaria ao país dos De Danaans mais rápido do que uma tempestade vernal. Eles foram então à casa de Gobhaun Saor, e a esposa de seu Filho os atendeu.
- Ó mulher da casa, - disseram eles - nós temos uma mensagem de Gobhaun Saor. Ele deverá acender um fogo para Balor, e nos mandou aqui para conseguir madeira de Carvalho, de Freixo, de Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro e de Avelã, madeira de Teixo, de Pilriteiro, e um galho de Alecrim-do-Norte. Além disso, você deve nos conseguir uma pedra branca da entrada da casa de um Brugh-fer e uma pedra negra da porta de um poeta que conheça as nove canções douradas.
- Um excelente pedido. Sejam bem vindos! - respondeu a mulher - Que o filho de Balor venha até a câmara secreta da casa.
Ele foi, e lá ela pediu - Mostre-me suvenir que meu marido te deu.
O filho de Balor, contudo, não possuía suvenir algum, de modo que mostrou seu próprio anel e disse - Aqui está!
Assim que tocou o anel ela soube que ele pertencia ao filho de Balor e não a seu marido, então saiu rapidamente do cômodo secreto e, ainda com o filho de Balor preso, trancou-o com sete cadeados que só ela poderia abrir. Ela chegou para a outra Fomorian e disse - Volte para seu país e diga a Balor que eu prendi seu filho, e que ele não voltará até que eu tenha de volta os dois homens que daqui saíram, e que antes que ele tenha as coisas que pediu, um suvenir de meu próprio povo deverá ser trazido para mim.

Balor não ficou sem resposta ao ouvir as novidades - Homem por homem! - disse ele - ela capturou um e por isso terá de volta um, mas eu terei o que quero pelo outro. Gobhaun Saor pagará caro por enviar meu filho nesta jornada tola. Chamou então seus guerreiros e ordenou - Tranquem Gobhaun Saor e seu Filho na parte mais fortificada de minha fortaleza e os vigiem esta noite. Amanhã eu mandarei o Filho de Gobhaun à Irlanda para ter de volta meu filho, e também terei o sangue de Gobhaun Saor.

E pai e Filho foram levados a um cômodo e deixados sozinhos, sem luz ou sem comida, onde passaram uma longa noite ouvindo o marchar de soldados Fomorians pesadamente armados.
- Eu só sinto ter trazido você aqui em busca de sorte e fortuna, pai. - disse o Filho - Mas vamos torcer para que tenhamos alguma boa idéia para que possamos sair desta.
- A culpa não é só sua, filho - respondeu Gobhaun - Eu creio que carrego algo dela também. Por que mandei somente dois mensageiros? Por que não enviei três, que é um número de sorte? Pois ai ela poderia guardar dois e mandar um de volta. Na realidade, daqui por diante qualquer um saberá sua sorte nestes estranhos números.
- Não seria tão ruim se nós tivéssemos alguma luz, - comentou o Filho - ou se eu tivesse minha flauta para tocar alguma canção. - Ele então lembrou da flauta que estivera fazendo no dia em que encontrou os três Fomorians e começou a procurá-la em suas coisas.
E num dos bolsos encontrou a bola de lã que havia ganhado de Mananaun.
- Que tolo tenho sido, - comentou - de não ter pensado nisso antes!
- O que você tem ai? - questionou Gobhaun.
- Um punhado de lã do deus dos mares, que me ajudará agora que preciso.
Ele então pegou a lã e ordenou - Me dê luz! - e todo o cômodo ficou iluminado. Dividiu então a lã em dois punhados e continuou - Tornem-se capas de escuridão e invisibilidade! - e em suas mãos duas capas surgiram, escuras como o oceano profundo. - Cubra-se com uma - disse ao pai, enquanto vestia a outra.

Eles abriram a porta e fugiram, enquanto um sono mágico fazia com que os guardas dormissem.
- Vamos deixar que uma luz diminuta ilumine a estrada à nossa frente - o Filho disse a Gobhaun Saor - e eles então seguiram a salvo, apesar de não haverem estrelas no céu do país de Balor. E quando chegaram à costa escura, o Filho tocou a ponta de sua capa na água e um barco se aproximou. Ele não tinha remos ou velas, era do cristal mais puro e brilhava como a enorme estrela do nascente, que surge no céu antes da chegada do sol.

- É o Ocean-Sweeper3, - disse Gobhaun - Mananaun nos mandou sua própria embarcação!
- Que ela seja bem vinda mil vezes, - sorriu o Filho - e que Mananaun tenha boa sorte e honra enquanto houver ondas no mar!

Mal eles adentraram ao barco e este já chegava a costa de White Strand, pois o Ocean-Sweeper não só tem a velocidade do pensamento como também leva seus ocupantes num momento aos locais onde estão seus corações.
- É bom estar de volta a nossa terra! - comentou Gobhaun quando seus pés tocaram o solo da Irlanda.
- É mesmo! Que vivamos muito para apreciá-lo. - concordou o Filho - e ambos não pararam até chegarem à casa de Gobhaun e lá encontrarem a Mulher do Filho. Eles contaram para ela por tudo que haviam passado, e ela contou-lhes como havia prendido o filho de Balor.
- Solte-o, - falou Gobhaun - e convide os homens da Irlanda para um banquete. Que os Fomorian recebam de volta uma lição pelo tratamento que nos deram.

E naquela noite aconteceu o maior banquete do mundo. O maior caldeirão da casa de Gobhaun foi usado e o próprio Gobhaun acendeu o fogo sob ele, usando madeira de Carvalho, de Freixo, de Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro e de Avelã, madeira de Teixo, de Pilriteiro, e um galho de Alecrim-do-Norte. E usando a pedra branca que conseguira junto à porta de um Brugh-fer e a negra que pegara na entrada da casa de um poeta que conhecia as nove canções douradas, ele ateou fogo na lenha sob o caldeirão, que brilhou com o brilho das labaredas, azuis, escarlates e de todas as cores do arco-íris.
E não houve escuridão ou silêncio na casa de Gobhaun Saor naquela noite, e mesmo que todos os campeões do mundo lá aparecessem, com a fome de quem não come a sete anos, eles achariam comida bastante no banquete de Gobhaun.

1 Gobhaun Saor é algo como 'Ferreiro Livre'. Gabha - Ferreiro, Saor - Livre.

2 Os Brugh-fer, ou Brugaid (broo-fer: broo-ey) eram oficiais de uma classe social muito honrada conhecida como bo-aire. Como os Cavaleiros Hospitaleiros, eles deixavam suas casas abertas e sempre tinham um fogo aceso para receber os estrangeiros que por ela passassem.

3 Traduzindo Ocean-Sweeper, ficaria algo como Varredor do Oceano.

Obs. Carvalho, Freixo, Pinheiro, Sorveira, Abrunheiro, Avelã, Teixo, Pilriteiro, Alecrim-do-Norte são traduções de Oak, Ash, Pine tree, Quicken, Blackthorn, Hazel, Yew, Whitethorn, Bog-myrtle.

Do livro: Celtic Wonder-Tales, editora Dover
Recontado por Ella Young
Traduzido e adaptado por Gianpaolo Celli


É evidente que as idas ao Outro Mundo da mitologia não podem ser comparadas a uma simples viagem de férias. Nestes mitos, para falar a verdade, a viagem nada mais é do que uma análise do inconsciente, sendo cada monstro, cada adversário, cada situação a ser vivenciada nada mais do que uma representação de aspectos não trabalhados de nós mesmos, sendo os aliados, aspectos já desenvolvidos. Tanto que existem mitos de Jornada ao Outro Mundo nos quais o herói não precisa fazer nada, e ao invés de monstros e provas e aprendizado, o Outro Mundo é um paraíso com donzelas, bom vinho e comida farta, normalmente vinda de jarros de onde a bebida nunca pára de jorrar e com pratos de comida que nunca acaba; fato que notamos no mito acima, após a volta dos heróis, pois no caso a jornada serviu para que eles conseguissem acesso à inspiração e à sabedoria.
De qualquer maneira a viagem, como diversas outras nos mitos, acontece com um objetivo que, apesar de se modificar com o andar da história, nunca deixa de existir, e apesar de ter de concordar que uma simples viagem não se compara a Jornada (ou 'Viagem') Mítica da iniciação, que transforma os seres humanos em iniciados, em deuses. Esta é, dentro do que deixa nossa vida 'mundana', a experiência que mais se assemelha a ela.
Vamos ver como e por que. Então embarque comigo nesta 'Jornada' e veja como o mito de viagem acima pode ser igual a uma simples viagem de férias:

Tanto a Jornada como a viagem, começam no cotidiano, no mundo do nosso dia-a-dia, onde sabemos, ou achamos que sabemos, o que irá acontecer. A separação então acontece através do Chamado à Aventura. Na Jornada do Herói este chamado se dá através de um acontecimento anormal que quebra a rotina do herói. Em nossa realidade acontece o mesmo. Existe uma pausa em nossa vida cotidiana, um final de semana, feriado, nossas férias, período em que decidimos viajar.
O segundo ponto da Jornada é a chamada 'Recusa do Chamado', onde o herói normalmente busca usar o conformismo para ignorar essa nova situação e tentar se eximir de tomar uma atitude.
- Isso não acontece no início de uma viagem de férias! - você pode dizer.
Realmente, eu tenho que concordar, mas não completamente, pois é uma constante: antes de sair para uma viagem, todo nosso mundo parece querer vir abaixo. São contas que vencerão no período em que estaremos fora e que devem ser pagas; plantas e animais que devem ser tratados; nossa casa ou nosso carro que devem estar seguros. Em outras palavras: é o cotidiano tentando nos fazer mudar de idéia, nos fazer recusar a aventura.
É nesta hora que, na Jornada, acontece o 'Encontro com o Mentor', algo ou alguém mais experiente que orienta o herói, fazendo com que ele supere seus medos. É verdade que isso normalmente não acontece em nossa realidade, mas mesmo assim encontramos amigos que nos dão dicas em relação ao local aonde iremos; revistas de turismo com matérias explicativas; guias que nos ajudarão; ao mesmo tempo em que conhecidos cuidarão de nossas coisas até que voltemos.
E assim, como o herói em sua Jornada Mágica, tomamos um avião, um trem, um ônibus ou mesmo um carro e saímos da rotina 'Atravessando o Limiar' que nos leva ao Outro Mundo, a uma realidade diferente da nossa, pouco ou totalmente desconhecida.
Evidente que, diferente do que acontece no monomito da Jornada do Herói, no 'Outro Mundo' de nossa viagem não iremos encontrar Aliados que nos ajudem ou Inimigos a serem derrotados, nem passaremos por testes e provações, pois não é esse o objetivo de sair de férias. Mesmo assim estaremos num local desconhecido, talvez onde se fale uma língua que não é a nossa, com uma cultura diferente; e nós faremos novas amizades que nos ajudarão em nossa adaptação ao local em estivermos, que facilitarão nossa vida durante as dificuldades da viagem, da qual, como o herói em sua Jornada, conquistaremos recompensas.
E novamente como o herói mítico, voltaremos para nossa realidade mundo, para nossa vida cotidiana, onde encontraremos tudo que deixamos para trás, nossas velhas amizades, nossos velhos problemas. Mas como o herói, não seremos mais os mesmos, pois mesmo desta simples viagem traremos uma nova experiência que nos terá transformado para sempre.

Assim, como podemos ver, se encarada com a devida seriedade, uma viagem de férias pode se tornar muito mais do que um simples passatempo. Fora de nossa casa, de nossa cidade, muitas vezes de nosso país, estamos longe de um ambiente familiar. Instintivamente portanto, nosso consciente fica naturalmente mais afiado, mais conectado; percebemos coisas que normalmente não fariamos em casa por esse simples fato. O choque cultural é outra coisa que nos afeta totalmente. Ir de encontro a uma cultura dispar muitas vezes nos faz refletir sobre coisas que normalmente não fariamos em casa. E olhe que eu digo por experiência própria, a simples junção destes dois aspectos pode nos mostrar coisas incríveis sobre nós mesmos. Não é para menos que peregrinar sempre foi, em praticamente qualquer religião, um ato de conecção com o sagrado.
É normal! Quantas vezes vamos a exposições e a museus quando estamos viajando e não vamos quando estamos em nossa cidade, pelo simples fato de não 'conseguirmos' encaixar estas idas ao nosso 'cotidiano', mesmo muitas vezes ficando em casa sem fazer absolutamente coisa nenhuma?

Na verdade, é como eu disse no início, melhor do que esperar por estes poucos momentos para aliar o entretenimento com o crescimento pessoal é determinarmos nossos objetivos e segui-los, é tomarmos as rédeas de nossas vidas e tentarmos, mesmo que não completamente, nos vermos como responsáveis não só pelo que acontece conosco como pelo o que ocorre a nossa volta. Este peso, contudo, pode ser, e normalmente é grande demais para ser tomado de uma vez só. Assim, fazer aos poucos, iniciando em momentos que temos maior controle para depois seguirmos para o restante de nossa vida, já é um começo.

Abraços,

Gianpaolo Celli
17/10/06

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