Sem querer, mas
já parodiando o grande poeta Fernando Pessoa em sua
frase 'Navegar é preciso; viver não é preciso',
cujo original em latim era do general romano Pompeu: 'Navigare
necesse; vivere non est necesse' que, segundo o historiador
Plutarco, foi dita a marinheiros amedrontados que recusavam
viajar para guerra, eu também afirmo: 'viajar é preciso,
viver não é preciso!'
- Mas por que viajar é preciso, necessário, - você pode
perguntar, leitor - mais até do que viver?
Bom, inicialmente este ponto nos remete a uma questão
básica que, devido a habitualidade de nosso cotidiano,
nós tendemos a esquecer:
Qual é seu objetivo?
Esta é um pergunta não somente interessante como
necessária pois, normalmente, estamos tão presos
ao marasmo que tomou conta de nossa existência que perdemos
de vista nossos objetivos, tanto em curto como em longo prazo,
e passamos a 'navegar' sem destino, esperando que, mesmo sem
saber para onde estamos indo, algum dia surja um vento que nos
leve para um local mais aprazível. O que esquecemos é que
sem um objetivo a seguir, sem saber aonde ir, nenhum vento é a
favor.
Sim! Pois o que nos ensinam, que devemos pensar em nós
mesmos somente por último, se é que devemos pensar
em nós mesmos, é um erro, um egoísmo, pois
a sociedade é mais importante do que o indivíduo.
O que se esquecem, ou o que nos fazem constantemente esquecer, é que
sem um indivíduo completo, a sociedade deixa de existir,
deixa de 'ser', e o que resta nada mais é do que um amontoado
de seres que tentam sobreviver, e não viver, num mesmo
local, gerando uma balburdia que é tanta, que seus conceitos
atualmente estão todos se voltando contra ela.
Assim passamos nossa vida: em relacionamentos vazios; em empregos
que não nos satisfazem; sem saber o porquê de estarmos
fazendo as coisas, e terminamos a vida com aquele sabor amargo
que poderíamos ter vivido mais, mais tempo, mais intensamente,
tendo feito mais coisas para nós mesmos.
Mais do que isso até, pois essa falta de um objetivo determinado,
que para as crianças é descobrir o mundo; para
os jovens, seguir aprendendo (ou pelo menos indo à escola,
então ao colégio e à faculdade), se perde
quando a pessoa deixa a universidade e, tendo que trabalhar para
sobreviver e sem ter quem determine seus objetivos pessoais,
ela não se vê livre, mas perdida em seu cotidiano.
- Mas isso é normal! - você pode colocar. - Acontece
com qualquer um!
É
verdade! E você estaria até matematicamente correto.
Mas como se pode aprender por si próprio quando nossos
conceitos pessoais e os conceitos sociais que nos foram impingidos
colidem?
A resposta é: Não podemos! Tanto que é assim
que se dão as famosas crises de meia-idade. As pessoas
chegam num ponto na vida em que percebem que, havendo ou não
conseguido o que a sociedade exigiu deles, suas existências
são vazias; que existe algo além daquele patamar
sócio-econômico, então elas normalmente saem
em busca de algo que perderam no meio do caminho, saem atrás
delas mesmas. É quando elas tentam lembrar de seus velhos
objetivos e saem em busca de satisfazê-los, se esquecendo
que aquelas eram metas de outros tempos, de uma outra pessoa,
não de quem elas se tornaram, de quem são agora.
- O que deveriam fazer?
Ora, deveriam buscar novas metas, novos objetivos, e se porem
atrás deles.
É
por isso que, parodiando o poeta eu digo: 'Viajar é preciso',
pois como navegar, não se pode viajar sem um objetivo.
Sejam em finais de semana, quando tiramos férias de dois
dias em sete (menos de um terço da semana), ou em um mês
por ano (num dozeavos dele. Isso é, quando não
se vende parte destes 30 dias em prol de um pouco de dinheiro)
e não viajamos, terminamos esse período, seja ele
de dois, dez, vinte ou trinta dias, com aquela sensação
de que não relaxamos como deveríamos, não
fizemos tudo que queríamos.
Isso porque mesmo fora do cotidiano do trabalho, continuamos
em nosso meio, a cidade, e deixamos tudo que gostaríamos
de fazer 'para o dia seguinte', pois está tudo ali e para
nós, sempre estará, mesmo que nós não
estivermos.
Deste modo um período no qual deveríamos renovar
nossas energias, relaxar e nos focar em nós mesmos termina
não servindo para nada!
E o "'viajar' é preciso", especialmente se formos
viajar para lugares novos, diferentes, desconhecidos. É preciso,
pois deve ser planejado; pois saímos da segurança
do cotidiano, de nossa cidade, indo, como o herói mítico
em sua jornada mítica, em direção ao limiar.
Vamos pegar algum mito de viagem ao Outro Mundo para comparar:
O Encurtar do Caminho
O Filho de Gobhaun Saor1 estava tão atarefado construindo
uma flauta enquanto aproveitava o sol na varanda da casa do
pai que não percebeu os três estranhos até que
eles tivessem muito próximos. Ele olhou para cima e
percebeu que eles usavam capas e capuzes para esconder seu
jeito rude.
- Bom dia para vocês. - cumprimentou o Filho de Gobhaun
Saor.
- Bom dia. - responderam os três. - Nós viemos
conversar com o Filho de Gobhaun Saor.
- Estão falando com ele.
- Nós viemos - disse o mais carrancudo dos três
- sob as ordens do Rei da Terra Sob as Ondas para pedir sua
ajuda. Ele tem um trabalho que nenhum de seus súditos
pode fazer, e como você tem a sabedoria os Três
Mundos em suas mãos…
- É de meu pai que você fala. - interrompeu o
Filho de Gobhaun Saor sorrindo.
- Bom, - continuou outro dos estranhos - traga seu pai para
a Terra Sob as Ondas e vocês serão bem recompensados.
O Filho de Gobhaun Saor saiu então em busca de seu pai.
- Eu tenho novidades para você, pai, e fortuna - falou
ele.
- Que novidades? - perguntou Gobhaun.
- O rei da Terra Sob as Ondas está me procurando. Se
você vier comigo a recompensa está garantida.
- Ele trouxe um suvenir de prova?
- Nenhum. Mas você acha que eu não reconheceria
seus mensageiros?
- Ah! Você é inteligente! - replicou o pai.
Na manhã seguinte eles saíram e, à medida
que caminhavam, Gobhaun Saor comentou - Filho, encurte o caminho
para mim.
- Como eu vou fazer isso, - questionou o Filho - se seus próprios
pés não conseguem?
- Como você acha que fará minha fortuna e a sua
- perguntou o pai - se você não consegue fazer
algo simples como isso? - e voltou então para casa.
Sem saber o que fazer, o Filho sentou-se numa pedra e, apoiando
a cabeça nas mãos, começou a pensar em
como ele poderia encurtar o caminho. Quanto mais ele pensava,
entretanto, mais complicada a questão parecia, de modo
que ele desistiu e começou a olhar a sua volta. Foi
quando percebeu um velho, frágil e corcunda que, com
dificuldade, cardava mechas de lã na grama verde. Sentido
pena dele, o Filho de Gobhaun Saor resolveu ajudar. Quando
se aproximou, uma brisa carregou um pouco da lã, e ele
viu que na verdade o que ele cardava não era lã,
mas espuma do mar. O velho então se endireitou. E, mesmo
com os olhos fixos na espuma, o Filho de Gobhaun Saor soube
que se tratava de Mananaun, o Deus dos Mares.
-Você vinha me ajudar, não é? - perguntou
Mananaun.
- Sim! - respondeu o rapaz, - mas parece que você não
precisa da minha ajuda.
- A mão estendida em ajuda, - continuou o Deus dos Mares,
- é aquela que sempre mais receberá em troca.
Pegue um pouco de minha lã, ela irá ajudá-lo
quando você precisar.
E quando o Filho de Gobhaun Saor abaixou-se para pegar a espuma,
um vento soprou mais forte, levantou-a, e sob ela ele pôde
ver o azul do mar, claro como cristal. E sob ele ainda, um
campo vermelho de flores balançando ao vento. Ele pegou
um pouco de espuma, que instantaneamente se transformou lã em
suas mãos. E quando ele endireitou-se, Mananaun já havia
desaparecido, e não havia nada ali a não ser
a grama verde brilhando ao sol.
Voltando para casa, ele mostrou a lã para sua esposa,
enquanto contava com tristeza que não havia conseguido
encurtar o caminho para seu pai.
- Não fique triste por causa disso. - falou ela - qualquer
um sabe que contar uma história é o único
jeito de encurtar um caminho.
- Que a sabedoria cresça em você como a árvore
das avelãs da sabedoria! - sorriu ele em resposta. -
Eu vou seguir seu conselho. E talvez amanhã meu pai
siga comigo o caminho todo.
Na manhã seguinte eles voltaram à Estrada e
mais uma vez Gobhaun Saor disse - Filho, encurte o caminho.
O Filho então contou a história de Angus Oge
e como ele conseguiu ganhar para si a casa de Dagda Mor. Era
uma grande história, que só terminou quando eles
chegaram à praia de White Strand.
- Desde quando, - questionou Gobhaun Saor ao ver o barco velho
e mau feito, e os remadores deformados que esperavam por eles
- o Rei da Terra sob as Ondas tem Fomorians como remadores?
E desde quando ele tomaria emprestado um de seus barcos?
O filho não conseguiu responder a questão, mas
o mais feio deles aproximou-se com duas capas nas mãos
que brilhavam como o mar brilha ao sol. - Essas capas - disse
ele - são da Terra sob as Ondas, coloquem-nas sobre
suas cabeças, Gobhaun Saor, e você não
achará nem o barco mal-feito, nem a viajem longa.
- O que eu tinha dito? - alegrou-se o Filho ao ver as capas.
- Você pediu por um suvenir de prova e ai está.
Se você desistir agora mesmo eu tenho encurtado nosso
caminho, eu vou sozinho e ficarei com toda sorte e fortuna.
- Eu vou com você. - Gobhaun Saor respondeu, pegando
as capas e, entregando uma ao Filho enquanto colocava a sua
de modo a não ver os horrendos remadores.
- Olhe para a terra para onde estão nos levando. -
comentou Gobhaun Saor ao Filho ao levantar seu capuz e o de
seu Filho após algum tempo no mar. A costa que se abria
a frente deles era soturna, escura e horrenda, e além
dela a terra se estendia estéril e cinzenta, sem que
uma árvore, nem mesmo uma folha de grama, pudessem ser
vistos. Nem o sol parecia querer iluminar aquele local - Eu
creio que nós não vamos conseguir fortuna alguma
aqui, pois ao invés da Terra sob as Ondas nós
fomos trazidos aos domínios de Balor, o do Olhar Maligno,
o rei dos Fomorians.
- Vocês nos enganaram com mentiras e capas roubadas da
Terra sob as Ondas, mas não farão isso com mais
ninguém. - continuou ele para o chefe dos remadores,
jogando ao mar as duas capas que afundaram como se fossem puxadas
por alguém. - Que elas voltem a seus donos!
Os Fomorians rilharam os dentes de raiva, mas não se
atreveram a tocar Gobhaun ou seu Filho, pois sabiam Balor precisava
deles.
Gobhaun e seu Filho foram então escoltados até uma
fortaleza toda de vidro, lisa e fria, onde se viram frente
a frente com um gigante deformado cujo olhar a tudo fulminava.
- Você é um ferreiro, excelente pelo que me disseram,
e seu Filho é um sábio - comentou Balor a Gobhaun.
- Eu trouxe vocês aqui para que acendam fogo sob um caldeirão.
- Isto não é uma tarefa difícil! - respondeu
Gobhaun. - Onde está o caldeirão?
- Eu vou mostrar. - replicou o rei, levando-os a uma sala fortificada
e guardada por guerreiros Fomorian.
E lá dentro Gobhaun Saor encontrou o maior caldeirão
que já havia visto, todo em bronze, brilhante como o
sol.
- Eu quero fogo sob ele, - continuou Balor - e nenhum de meus
súditos conseguiu isso. Pois mesmo quando o fogo acendia,
eles não conseguiam fazer com que durasse mais do que
um momento. A decisão agora é sua: sorte e fortuna
se conseguirem acender o fogo, ou muito azar se falharem, pois
nenhum de você sairá vivo daqui!
- Saiam todos! Só eu e meu filho devemos ficar aqui,
- exclamou Gobhaun Saor - até que descubramos quanto
de nossos poderes será necessário.
E quando só ele e seu Filho restavam na grande sala,
ele disse - Vamos circundar o grande caldeirão. Você irá do
Leste para o Oeste e eu do Oeste para o Leste, e vamos que
inspiração nós conseguiremos.
E eles circundaram o grande caldeirão nove vezes até que
Gobhaun Saor perguntou - Alguma inspiração meu
Filho?-
- Eu creio - respondeu o Filho - que este é o caldeirão
de Dagda Mor.
- Suas palavras são verdadeiras - replicou Gobhaun -
pois este é o Caldeirão da Fartura, que se usado
pode alimentar todos os homens da Irlanda de uma só vez.
Quando ele pertencia ao Dagda qualquer um conseguia dele a
comida que mais apreciasse. E foi usando de traição
e mentiras que os Fomorians o conseguiram, por isso que eles
não conseguem acender fogo algum sob ele.
- Podem vir agora - gritou ele aos Fomorians - pois a inspiração
e a saberia já foram obtidas!
- Você vai acender o fogo, - questionou o Filho - para
os ladrões que destruíram a Irlanda?
- Shhh! - replicou Gobhaun Saor - quem disse que eu vou acender
o fogo?
- Digam a Balor,- disse ele aos Fomorians que haviam entrado
correndo - que eu preciso de nove tipos de madeira, recentemente
cortada, sob o caldeirão, e duas pedras para conseguir
fogo. Tragam-me madeira de Carvalho, madeira de Freixo, de
Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro e de Avelã, madeira
de Teixo, de Pilriteiro, e um galho de Alecrim-do-Norte; e
me tragam uma pedra branca que esteja junto à porta
de um Brugh-fer2, e uma pedra negra que esteja sob a porta
da casa de um poeta que saiba as nove canções
douradas, e então eu acenderei o fogo sob o caldeirão.
Eles correram a seu líder com as notícias, e
ele ficou negro de raiva ao ouvi-las. - Onde eu conseguirei
toda essa madeira num país desolado como uma tumba?
- questionou - E qual dos meus poetas saberá canções
que não sátiras ou maldições? E
que Brugh-fer teria eu, que nunca dei um prato de carne a um
estranho em toda minha vida? Deixe-os responder, - continuou
Balor, - como estas coisas devem ser conseguidas?
- Será difícil conseguir qualquer destas coisas
num país como este. - respondeu Gobhaun Saor quando
eles perguntaram - Como você nada possui, uma visita
a terra dos De Danaans será necessária. O filho
e filha de Balor deverão ir à minha casa na Irlanda
e perguntar à mulher que lá encontrarem por todas
estas coisas.
Os filhos de Balor saíram então em viagem, levados
por um vento conjurado pelos druidas do Rei que os levaria
ao país dos De Danaans mais rápido do que uma
tempestade vernal. Eles foram então à casa de
Gobhaun Saor, e a esposa de seu Filho os atendeu.
- Ó mulher da casa, - disseram eles - nós temos
uma mensagem de Gobhaun Saor. Ele deverá acender um
fogo para Balor, e nos mandou aqui para conseguir madeira de
Carvalho, de Freixo, de Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro
e de Avelã, madeira de Teixo, de Pilriteiro, e um galho
de Alecrim-do-Norte. Além disso, você deve nos
conseguir uma pedra branca da entrada da casa de um Brugh-fer
e uma pedra negra da porta de um poeta que conheça as
nove canções douradas.
- Um excelente pedido. Sejam bem vindos! - respondeu a mulher
- Que o filho de Balor venha até a câmara secreta
da casa.
Ele foi, e lá ela pediu - Mostre-me suvenir que meu
marido te deu.
O filho de Balor, contudo, não possuía suvenir
algum, de modo que mostrou seu próprio anel e disse
- Aqui está!
Assim que tocou o anel ela soube que ele pertencia ao filho
de Balor e não a seu marido, então saiu rapidamente
do cômodo secreto e, ainda com o filho de Balor preso,
trancou-o com sete cadeados que só ela poderia abrir.
Ela chegou para a outra Fomorian e disse - Volte para seu país
e diga a Balor que eu prendi seu filho, e que ele não
voltará até que eu tenha de volta os dois homens
que daqui saíram, e que antes que ele tenha as coisas
que pediu, um suvenir de meu próprio povo deverá ser
trazido para mim.
Balor não ficou sem resposta ao ouvir as novidades
- Homem por homem! - disse ele - ela capturou um e por isso
terá de volta um, mas eu terei o que quero pelo outro.
Gobhaun Saor pagará caro por enviar meu filho nesta
jornada tola. Chamou então seus guerreiros e ordenou
- Tranquem Gobhaun Saor e seu Filho na parte mais fortificada
de minha fortaleza e os vigiem esta noite. Amanhã eu
mandarei o Filho de Gobhaun à Irlanda para ter de volta
meu filho, e também terei o sangue de Gobhaun Saor.
E pai e Filho foram levados a um cômodo e deixados sozinhos,
sem luz ou sem comida, onde passaram uma longa noite ouvindo
o marchar de soldados Fomorians pesadamente armados.
- Eu só sinto ter trazido você aqui em busca de
sorte e fortuna, pai. - disse o Filho - Mas vamos torcer para
que tenhamos alguma boa idéia para que possamos sair
desta.
- A culpa não é só sua, filho - respondeu
Gobhaun - Eu creio que carrego algo dela também. Por
que mandei somente dois mensageiros? Por que não enviei
três, que é um número de sorte? Pois ai
ela poderia guardar dois e mandar um de volta. Na realidade,
daqui por diante qualquer um saberá sua sorte nestes
estranhos números.
- Não seria tão ruim se nós tivéssemos
alguma luz, - comentou o Filho - ou se eu tivesse minha flauta
para tocar alguma canção. - Ele então
lembrou da flauta que estivera fazendo no dia em que encontrou
os três Fomorians e começou a procurá-la
em suas coisas.
E num dos bolsos encontrou a bola de lã que havia ganhado
de Mananaun.
- Que tolo tenho sido, - comentou - de não ter pensado
nisso antes!
- O que você tem ai? - questionou Gobhaun.
- Um punhado de lã do deus dos mares, que me ajudará agora
que preciso.
Ele então pegou a lã e ordenou - Me dê luz!
- e todo o cômodo ficou iluminado. Dividiu então
a lã em dois punhados e continuou - Tornem-se capas
de escuridão e invisibilidade! - e em suas mãos
duas capas surgiram, escuras como o oceano profundo. - Cubra-se
com uma - disse ao pai, enquanto vestia a outra.
Eles abriram a porta e fugiram, enquanto um sono mágico
fazia com que os guardas dormissem.
- Vamos deixar que uma luz diminuta ilumine a estrada à nossa
frente - o Filho disse a Gobhaun Saor - e eles então
seguiram a salvo, apesar de não haverem estrelas no
céu do país de Balor. E quando chegaram à costa
escura, o Filho tocou a ponta de sua capa na água e
um barco se aproximou. Ele não tinha remos ou velas,
era do cristal mais puro e brilhava como a enorme estrela do
nascente, que surge no céu antes da chegada do sol.
- É o Ocean-Sweeper3, - disse Gobhaun - Mananaun nos
mandou sua própria embarcação!
- Que ela seja bem vinda mil vezes, - sorriu o Filho - e que
Mananaun tenha boa sorte e honra enquanto houver ondas no mar!
Mal eles adentraram ao barco e este já chegava a costa
de White Strand, pois o Ocean-Sweeper não só tem
a velocidade do pensamento como também leva seus ocupantes
num momento aos locais onde estão seus corações.
- É bom estar de volta a nossa terra! - comentou Gobhaun
quando seus pés tocaram o solo da Irlanda.
- É mesmo! Que vivamos muito para apreciá-lo.
- concordou o Filho - e ambos não pararam até chegarem à casa
de Gobhaun e lá encontrarem a Mulher do Filho. Eles
contaram para ela por tudo que haviam passado, e ela contou-lhes
como havia prendido o filho de Balor.
- Solte-o, - falou Gobhaun - e convide os homens da Irlanda
para um banquete. Que os Fomorian recebam de volta uma lição
pelo tratamento que nos deram.
E naquela noite aconteceu o maior banquete do mundo. O maior
caldeirão da casa de Gobhaun foi usado e o próprio
Gobhaun acendeu o fogo sob ele, usando madeira de Carvalho,
de Freixo, de Pinheiro, de Sorveira, de Abrunheiro e de Avelã,
madeira de Teixo, de Pilriteiro, e um galho de Alecrim-do-Norte.
E usando a pedra branca que conseguira junto à porta
de um Brugh-fer e a negra que pegara na entrada da casa de
um poeta que conhecia as nove canções douradas,
ele ateou fogo na lenha sob o caldeirão, que brilhou
com o brilho das labaredas, azuis, escarlates e de todas as
cores do arco-íris.
E não houve escuridão ou silêncio na casa
de Gobhaun Saor naquela noite, e mesmo que todos os campeões
do mundo lá aparecessem, com a fome de quem não
come a sete anos, eles achariam comida bastante no banquete
de Gobhaun.
1 Gobhaun Saor é algo como 'Ferreiro Livre'. Gabha
- Ferreiro, Saor - Livre.
2 Os Brugh-fer, ou Brugaid (broo-fer: broo-ey) eram oficiais
de uma classe social muito honrada conhecida como bo-aire.
Como os Cavaleiros Hospitaleiros, eles deixavam suas casas
abertas e sempre tinham um fogo aceso para receber os estrangeiros
que por ela passassem.
3 Traduzindo Ocean-Sweeper, ficaria algo como Varredor do
Oceano.
Obs. Carvalho, Freixo, Pinheiro, Sorveira, Abrunheiro, Avelã,
Teixo, Pilriteiro, Alecrim-do-Norte são traduções
de Oak, Ash, Pine tree, Quicken, Blackthorn, Hazel, Yew, Whitethorn,
Bog-myrtle.
Do livro: Celtic Wonder-Tales, editora Dover
Recontado por Ella Young
Traduzido e adaptado por Gianpaolo Celli
É
evidente que as idas ao Outro Mundo da mitologia não
podem ser comparadas a uma simples viagem de férias.
Nestes mitos, para falar a verdade, a viagem nada mais é do
que uma análise do inconsciente, sendo cada monstro,
cada adversário, cada situação a ser vivenciada
nada mais do que uma representação de aspectos
não trabalhados de nós mesmos, sendo os aliados,
aspectos já desenvolvidos. Tanto que existem mitos de
Jornada ao Outro Mundo nos quais o herói não
precisa fazer nada, e ao invés de monstros e provas
e aprendizado, o Outro Mundo é um paraíso com
donzelas, bom vinho e comida farta, normalmente vinda de jarros
de onde a bebida nunca pára de jorrar e com pratos de
comida que nunca acaba; fato que notamos no mito acima, após
a volta dos heróis, pois no caso a jornada serviu para
que eles conseguissem acesso à inspiração
e à sabedoria.
De qualquer maneira a viagem, como diversas outras nos mitos,
acontece com um objetivo que, apesar de se modificar com o
andar da história, nunca deixa de existir, e apesar
de ter de concordar que uma simples viagem não se compara
a Jornada (ou 'Viagem') Mítica da iniciação,
que transforma os seres humanos em iniciados, em deuses. Esta é,
dentro do que deixa nossa vida 'mundana', a experiência
que mais se assemelha a ela.
Vamos ver como e por que. Então embarque comigo nesta
'Jornada' e veja como o mito de viagem acima pode ser igual
a uma simples viagem de férias:
Tanto a Jornada como a viagem, começam no cotidiano,
no mundo do nosso dia-a-dia, onde sabemos, ou achamos que sabemos,
o que irá acontecer. A separação então
acontece através do Chamado à Aventura. Na Jornada
do Herói este chamado se dá através de
um acontecimento anormal que quebra a rotina do herói.
Em nossa realidade acontece o mesmo. Existe uma pausa em nossa
vida cotidiana, um final de semana, feriado, nossas férias,
período em que decidimos viajar.
O segundo ponto da Jornada é a chamada 'Recusa do Chamado',
onde o herói normalmente busca usar o conformismo para
ignorar essa nova situação e tentar se eximir
de tomar uma atitude.
- Isso não acontece no início de uma viagem de
férias! - você pode dizer.
Realmente, eu tenho que concordar, mas não completamente,
pois é uma constante: antes de sair para uma viagem,
todo nosso mundo parece querer vir abaixo. São contas
que vencerão no período em que estaremos fora
e que devem ser pagas; plantas e animais que devem ser tratados;
nossa casa ou nosso carro que devem estar seguros. Em outras
palavras: é o cotidiano tentando nos fazer mudar de
idéia, nos fazer recusar a aventura.
É
nesta hora que, na Jornada, acontece o 'Encontro com o Mentor',
algo ou alguém mais experiente que orienta o herói,
fazendo com que ele supere seus medos. É verdade que
isso normalmente não acontece em nossa realidade, mas
mesmo assim encontramos amigos que nos dão dicas em
relação ao local aonde iremos; revistas de turismo
com matérias explicativas; guias que nos ajudarão;
ao mesmo tempo em que conhecidos cuidarão de nossas
coisas até que voltemos.
E assim, como o herói em sua Jornada Mágica,
tomamos um avião, um trem, um ônibus ou mesmo
um carro e saímos da rotina 'Atravessando o Limiar'
que nos leva ao Outro Mundo, a uma realidade diferente da nossa,
pouco ou totalmente desconhecida.
Evidente que, diferente do que acontece no monomito da Jornada
do Herói, no 'Outro Mundo' de nossa viagem não
iremos encontrar Aliados que nos ajudem ou Inimigos a serem
derrotados, nem passaremos por testes e provações,
pois não é esse o objetivo de sair de férias.
Mesmo assim estaremos num local desconhecido, talvez onde se
fale uma língua que não é a nossa, com
uma cultura diferente; e nós faremos novas amizades
que nos ajudarão em nossa adaptação ao
local em estivermos, que facilitarão nossa vida durante
as dificuldades da viagem, da qual, como o herói em
sua Jornada, conquistaremos recompensas.
E novamente como o herói mítico, voltaremos para
nossa realidade mundo, para nossa vida cotidiana, onde encontraremos
tudo que deixamos para trás, nossas velhas amizades,
nossos velhos problemas. Mas como o herói, não
seremos mais os mesmos, pois mesmo desta simples viagem traremos
uma nova experiência que nos terá transformado
para sempre.
Assim, como podemos ver, se encarada com a devida seriedade,
uma viagem de férias pode se tornar muito mais do que
um simples passatempo. Fora de nossa casa, de nossa cidade,
muitas vezes de nosso país, estamos longe de um ambiente
familiar. Instintivamente portanto, nosso consciente fica naturalmente
mais afiado, mais conectado; percebemos coisas que normalmente
não fariamos em casa por esse simples fato. O choque
cultural é outra coisa que nos afeta totalmente. Ir
de encontro a uma cultura dispar muitas vezes nos faz refletir
sobre coisas que normalmente não fariamos em casa. E
olhe que eu digo por experiência própria, a simples
junção destes dois aspectos pode nos mostrar
coisas incríveis sobre nós mesmos. Não é para
menos que peregrinar sempre foi, em praticamente qualquer religião,
um ato de conecção com o sagrado.
É
normal! Quantas vezes vamos a exposições e a
museus quando estamos viajando e não vamos quando estamos
em nossa cidade, pelo simples fato de não 'conseguirmos'
encaixar estas idas ao nosso 'cotidiano', mesmo muitas vezes
ficando em casa sem fazer absolutamente coisa nenhuma?
Na verdade, é como eu disse no início, melhor
do que esperar por estes poucos momentos para aliar o entretenimento
com o crescimento pessoal é determinarmos nossos objetivos
e segui-los, é tomarmos as rédeas de nossas vidas
e tentarmos, mesmo que não completamente, nos vermos
como responsáveis não só pelo que acontece
conosco como pelo o que ocorre a nossa volta. Este peso, contudo,
pode ser, e normalmente é grande demais para ser tomado
de uma vez só. Assim, fazer aos poucos, iniciando em
momentos que temos maior controle para depois seguirmos para
o restante de nossa vida, já é um começo.
Abraços,
Gianpaolo Celli
17/10/06 |