Gianpaolo Celli
Revisão Histórica: Sérgio Pereira Couto
Muito se fala dos Templários, ou Pobres Cavaleiros
do Templo de Salomão, como são realmente chamados,
e sobre os mistérios de suas posses (materiais e espirituais),
muitas delas nunca realmente encontradas, mas muito pouco se
explica sobre o assunto. Pior do que isso, devido à falta
de relatos confiáveis, muito se inventa se baseando
em crenças sobre ele.
Há perguntas, entretanto, que persistem. Quem foram
os Templários? Como nasceram? O que fizeram durante
os séculos que estiveram em atividade? Como e porque
terminaram? E o mais importante: onde está seu legado,
seus lendários tesouros?
A origem dos cavaleiros templários remonta ao ano de
1119, quando nove cavaleiros, remanescentes das cruzadas, decidem
continuar em Jerusalém e devotar suas vidas para proteger
aqueles que resolvessem peregrinar da Europa para a Terra Santa.
Lá, eles fazem voto de pobreza e são acolhidos
pelo patriarca da cidade, assumindo um papel semelhante ao
de uma guarda pessoal. Os novos cavaleiros ocupam um anexo
de seu próprio palácio, próximo aos chamados
Estábulos de Salomão, na área onde antes
se erguia o famoso Templo. Essa identificação
com o local faz com que adote seu primeiro nome, Pobres Cavaleiros
do Templo de Salomão. Pelos próximos nove anos
eles lá permaneceram até voltarem a Europa em
1128 e a Igreja conceder-lhes o status de Ordem Militar e Monástica,
graças à pregação de Bernardo de
Clairvaux (que depois foi santificado como São Bernardo).
Assim, com o apoio do Papa e da comunidade católica,
eles conseguiram se firmar não somente no Oriente, onde
a instabilidade e a fragmentação dos domínios
cristãos não facilitou sua situação
militar, cheia de vitórias e derrotas, como também
no Ocidente, onde a aprovação dos nobres e do
povo fez com que a Ordem crescesse como nenhuma outra na história.
Sua riqueza começou a aumentar graças aos nobres
e reis que colocavam sob a guarda da Ordem suas riquezas, tornando-os
assim praticamente os primeiros banqueiros da história.
Apesar da campanha militar dos Templários ter conseguido
muitas vitórias no Oriente Médio quando do início
de sua história, essa situação não
duraria muito. Quando começaram a perder o domínio
da Terra Santa, passaram a usar o dinheiro das doações
na Europa e da administração das terras que recebiam
para se lançarem em outros negócios.
Os templários foram inovadores quanto a questões
financeiras. Com sua experiência no Oriente já possuía
uma economia muito mais baseada no uso de moedas. Fizeram com
que as terras provindas de doações, em vez de
servirem somente para o abastecimento de seus habitantes, como
era comum na época, fossem administradas tendo em vista
o dinheiro que seus excedentes pudessem render.
Com o enfraquecimento no ideal cruzado que ocorreu no século
XIII, contudo, a sorte dos Templários e daqueles que
temiam o mistério que cercava as reuniões e cerimônias
da Ordem e que buscavam conseguir seu poder, influência
e dinheiro, terminou por minar totalmente suas forças.
Foi assim que o rei Felipe IV, o Belo, da França, que
estava devendo aos Templários por suas últimas
campanhas militares contra a Inglaterra, usou seu poder e intimidade
com o papa Gregório V, que só assumira o cargo
devido ao poder do rei, para prender os líderes Templários
e conseguir que erguessem acusações contra eles
e a Ordem. Em sua maioria apenas uma variação
das acusações feitas anteriormente contra diversos
grupos heréticos, como os Cátaros ou os Valdenses.
Em 3 de abril de 1312, pela determinação do papa
e do rei, a Ordem dos Templários, apesar de não
ser condenada por seus "crimes", é suprimida.
E em 18 de março de 1314, os dois dão o último
golpe na Ordem manipulando julgamentos e confissões
obtidas sob tortura para conseguir que o grão-mestre
Jacques de Molay e o dignitário Geoffroi de Charney
fossem queimados na fogueira.
A questão é que, em relação a quantidade
de cavaleiros, somente uns poucos foram capturados. E só em
alguns paises, como a França e a Itália, é que
foram realmente torturados. Especula-se que a maioria dos templários
franceses terminou por fugir para a Espanha e Portugal, onde
conseguiram proteção dos soberanos daqueles países,
que mudaram o nome da Ordem, assumindo assim novas identidades
(como as Ordens de Cristo, em Portugal, e de Montésa
em Aragão e Castela, na Espanha). Outro país
especulado como destino da fuga foi a Escócia, onde
teriam formado uma força complementar ao exército
de Robert o Bruce na famosa batalha de Bannockburn. Outra região,
com menos especulação, seria a Suíça.
Muito contestam a dita herança templária das
ordens existentes nos locais acima mencionados, mesmo assim
temos que considerar que neles existem muitos indícios
não somente de partes do tesouro templário, mas
também de seu conhecimento, sua sabedoria e de sua tradição.
Uma prova disso é que, apesar de todos os bens Templários
haverem sido tomados pela igreja, toda sua frota de navios,
inicialmente usada para levar peregrinos para a Terra Santa,
mas que na época do fim da Ordem estava toda aportada
no Atlântico, desapareceu. Então algum tempo depois
temos não somente a Espanha e Portugal começarem
as grandes navegações, como a Escócia
se tornando uma potencia na construção de embarcações.
Da mesma maneira que temos o Rito Escocês na Maçonaria,
ou todo poder bancário suíço, presente
até nos dias atuais. E tem mais, pois não somente
a guarda do Papa no Vaticano até os dias de hoje é composta
não por soldados italianos mas pelo o que originalmente
eram mercenários suíços, como também,
se lembrarmos de nossas aulas de histórias, sobre o
branco das velas das caravelas portuguesas que vieram ao Novo
Mundo havia uma cruz vermelha muito semelhante a templária.
- Coincidência? Teoria da conspiração?
Isso na verdade não é nada! Dêem uma olhada
no texto abaixo sobre uma das ultimas ações militares
templárias no Oriente e me digam se não parece
estranho:
'...e em 2 de setembro (de 1188) Saladino executou sua estratégia
ponto cerco a Darbsak (uma das fortalezas templárias
próxima a Antioquia). Logo foi feita uma brecha na muralha,
mas Ibn Shahdad conta o modo como os Templários impediram
Saladino de tomar o castelo, agindo como uma parede humana, "cada
um ocupando o lugar de seu companheiro". Essa defesa heróica
prosseguiu por quatorze dias, enquanto a maioria das outras
cidades e castelos havia capitulado para Saladino muito mais
depressa.
Mais uma vez, portanto, a coragem dos Templários foi
ressaltada; mas, nesse caso, essa coragem foi, em certo sentido,
comprometida por um acontecimento raro. Tendo resistido por
duas semanas, a guarnição pediu quartel: os Templários
abriram mão de seus víveres, grãos e armas
e concordaram relutantemente em pagar um grande resgate, que
teve de ser tirado de seu tesouro... Até mesmo Ibn Shahdad
comentou que o pagamento de um resgate pelos Templários
era algo "inaudito".'
Retirado de 'Templários: os Cavaleiros de Deus', de
Edward Burman. Editora Record Nova Era, 5 a edição,
página 137.
Não é de se estranhar que cavaleiros que nunca
tenham pagado um resgate façam isso após praticamente
duas semanas de luta sem trégua onde muitos haviam se
sacrificavam em batalha? Por que será que eles fizeram
tal coisa? Será que existia naquele castelo algum tesouro
guardado, alguma relíquia sagrada que os sarracenos
ignoravam?
Que tesouro seria esse que nunca foi encontrado, que relíquias
sagradas poderiam ser estas que fariam com que não somente
homens se sacrificassem por ela, como depois fizessem algo
que nunca haviam feito. Pois se nada houvesse ali, por que
daquela carnificina toda, por que desistirem tão fácil
depois, abrindo uma exceção completa e totalmente
inusitada que chega a empalidecer a ação anterior?
Será que não seriam relíquias mais do
que materiais? Será que não poderiam ser alguns
dos tesouros que estudiosos supõe que estiveram em poder
da Ordem?
Existem pelos três destes "tesouros" que podemos
citar aqui sem medo de errar: o tão citado Baphomet;
o cálice do Graal; e nada menos do que a Arca da Aliança
dos Hebreus.
Mas será que, só porque muitos outros citaram
nós também podemos faze-lo sem questionar o por
quê de tesouros como estes estarem nas mãos dos
Templários, ou por quê eles não tenham
sido encontrado quando a Ordem foi desfeita? Ou ainda, o que
cada um deles significa dentro do contexto histórico
dos Templários? E por fim, por quê se fala tanto
de tais objetos sem que ninguém realmente os tenha visto?
Sim, pois temos que considerar que quando falamos de uma história
tão envolta em segredos e mistérios, muito do
que se fala muitas vezes é apresentado em sentido metafórico
que, para a felicidade daqueles que gostam de teorias de conspiração,
termina por se perder com o tempo. E assim nascem os mitos.
- Mitos? - você Pode perguntar.
Sim, mitos. Pois estes não são somente, como
a maioria costuma achar, 'contos de fadas para crianças
dormirem'. Mitos são a maneira de um povo, de uma civilização,
de comentar de uma maneira simples sobre os mistérios
da vida e da morte, de suas mentes e de suas realidades interiores.
Seriam então estes 'Tesouros Espirituais' simples metáforas?
Mitos nascidos da misteriosa história dos Templários?
Bem, como eu disse na matéria de minha coluna anterior,
minha idéia era trabalhar a mescla de acontecimentos
de um momento até sobre certo ponto obscuro da história,
com conceitos de mitologia comparada, de modo a conseguir um
novo ponto de vista, menos fantasioso, mas não menos
espetacular, e através dele dar uma nova luz a estes
acontecimentos.
Como a apresentação de quem foram os Cavaleiros
Templários já foi feita, vamos falar então
de seus 'Tesouros':
Segundo acusações feitas contra os Templários,
quando estes foram a julgamento, eles adoravam um falso ídolo,
o Baphomet, ou Bafomet. Em confissões conseguidas através
de tortura, esta figura variava desde uma cabeça de
homem decepada até três cabeças ou uma
cabeça de gato, com olhos brilhantes, e que falava.
Na realidade, o assunto é um tanto polêmico, pois
se alguns estudiosos consideram que esta cabeça pudesse
ser a cabeça de uma múmia que os cavaleiros teriam
encontrado no Egito, existe um caso registrado, conhecido como
caput LVIII, do crânio de uma criança que, como
a lenda, estava envolvido em ouro, que foi encontrada pelos
soldados de Felipe o Belo no Templo de Paris.
Em toda especulação feita em torno do Baphomet
três opções foram conseguidas sobre sua
provável identidade. Seria ela a cabeça de Cristo,
a de João Batista e finalmente a de Hugues de Payens.
Vamos analisar estas três opções?
Dizer que o Baphomet é a cabeça de Jesus Cristo,
considerando que uma das provas apresentadas pelo cristianismo
de que ele ascendeu aos céus é a falta de um
corpo, nada mais é do que voltar a acusa-los de blasfemos.
Apresentar como tal ídolo a cabeça decepada de
João Batista, ao invés disto, é muito
mais interessante, pois consta que, além do Santo haver
sido decepado, dando uma corroboração "histórica",
ele foi o iniciador de Cristo. Da mesma maneira, falar de Hughes
de Payes é falar do grande iniciador da Ordem do Templo.
O interessante deste "tesouro" é que casos
de cabeças decepadas que continuavam falando após
sua morte não são uma novidade para a mitologia
ocidental. Existem três mitos bastante conhecidos que
nos apresentam tal coisa.
Da coleção de histórias do País
de Gales usada para ensinar os bardos e conhecida como 'Mabinogion'
nos vem a história d'As Magoas de Branwen' onde, após
ter desposado um rei que a renegava, Branwen foi resgatada
pelo irmão Bran (cujo nome significa 'corvo', assim
como Branwen significa 'corvo branco') e seus exércitos.
A vitória foi custosa aos dois pois, no processo, de
todo seu exército, que quando singrou os mares era tão
grande que as velas de seus barcos pareciam uma floresta, só sobraram
sete companheiros. O rei Bran então mandou que cortassem
sua cabeça, e que ele ficaria com eles, conversando,
para que o horror daquela carnificina não lhes dominasse
as almas. Conta a lenda que anos depois, a cabeça de
Bran foi enterrada no Outeiro Branco, junto a Torre de Londres,
voltada para o continente, e que enquanto ela estivesse lá a
Inglaterra nunca seria subjugada (essa lenda gerou um folclore
que existe até os dias de hoje, e é por isso
que existem sempre corvos na Torre de Londres).
A mitologia clássica nos traz a história de 'Orfeu
e sua Musica Encantada'. Nela Orfeu é um músico
de tamanha habilidade que, quando ele toca sua lira, a Terra
inteira se cala para ouvir. Os pássaros param de cantar,
o vento de soar, e o leão se deita junto à ovelha,
todos encantados por sua musica maravilhosa. Acontece que ele
se apaixona pela ninfa Eurídice, tanto que, quando ela
morre e vai para o Submundo, Orfeu também vai e pede
para Hades e Perséfone que, em troca de uma apresentação
musical, sua amada fosse libertada. Perséfone termina
por liberar Eurídice, mas profetiza que, se Orfeu olhasse
para ela antes que eles houvessem voltado a Terra, ela voltaria
ao Inferno como a Sombra que havia se tornado. Não conseguindo
refrear sua curiosidade e paixão, Orfeu olha para sua
amada antes de sua volta e perde-a para sempre. Não
agüentando a perda, ele termina morrendo anos depois,
e sua cabeça é carregada por sua lira até o
rio Hebrus e ao mar, onde é levada à ilha de
Lesbos, onde se prende a uma rocha e, apesar de decepada, ela
continua com a capacidade de falar. E por muitos anos a cabeça
de Orfeu faz predições aos marinheiros os barcos
que por lá passam.
Na mitologia germânica, por sua vez, temos a história
de Mimir, o Sábio dos Aesires. Além de guardião
da Fonte da Inspiração a qual Odin sacrificou
um olho para beber e obter o conhecimento poético e
místico, este Deus foi preso pelos Vanires, que terminaram
por decepar sua cabeça. Nesta história Odin termina
por conseguir a cabeça do sábio Mimir, pois mesmo
cortada de seu corpo ela mantém o dom da fala e da profecia,
de modo que Odin a consulta sempre que precisa.
Temos então em três culturas diferentes, quatro
se considerarmos o mito do Baphomet, referências a cabeças
decepadas que foram preservadas após a morte de seus
corpos e que falam e fazem profecias. O que isso quer dizer?
A cabeça de um morto, é a cabeça de alguém
que está ou já esteve no mundo dos mortos. Ela
na verdade está 'entre os mundos', podendo assim manter
um contato contínuo com a sabedoria espiritual, do Outro
Mundo; a sabedoria sagrada do Além Vida.
Não podemos esquecer que, inclusive, desde o início
que mesmo não sabendo, o ser humano já cogitava
que era na cabeça de onde vinham os pensamentos, e que
era ela, portanto, que guardava a Alma. Assim, uma cabeça
que mantêm o poder da fala é uma cabeça
que ainda possui alma, mas que por estar morta já entrou
em contato com o Outro Mundo, provado aqui pelo poder de profetizar,
de entender a Morte, destas cabeças.
Outro 'Tesouro Espiritual' que estudiosos chegaram a considerar
que estaria nas mãos dos Templários é o
cálice Graal, tão famoso devido ao Ciclo Arturiano
e cuja morada, segundo a Igreja pode estar em diversas cidades
da Europa, como o País de Gales, a Toscana, ou a cidadezinha
de Cebreiro, no norte da Espanha.
Dizem as histórias que este seria tanto o cálice
em que Cristo teria bebido durante a última ceia, como
também que recolheu o sangue que dele verteu quando,
como aconteceu com Odin em sua busca pela sabedoria (para mais
informações busque minha matéria 'Visão
da Mitologia' na parte de mitologia do Tribos). Este, segundo
as lendas, teria sido levado, por José de Arimatéia,
para Inglaterra.
Como estaria então, o Graal, ligado aos Templários?
Acontece que foi em grande parte devido aos Templários
que, no século XII, o ideal da cavalaria começou
a espalhar-se no norte da França. Tanto que em seu poema épico
Percival, Chrétien deTroyes adota a causa da cavalaria
(o autor inclusive nasceu na região de Borgonha, onde
havia acontecido o Concílio em os Templários
receberam a Regra, passando oficialmente a serem uma Ordem
militar Cristã). Assim, como o ideal influenciou o Ciclo
Arturiano, este terminou influenciando os mitos ligados aos
cavaleiros do Templo.
Mas O que o Graal? O que ele significa dentro da história
dos Templários?
O Graal, ou Sangreal, como ele também é conhecido,
e sua busca no ciclo arturiano, para fazer com que o rei doente
e a Terra voltassem a ser um, e tanto o rei como a Terra se
tornassem sãos e produtivos nos remetem não somente
aos diversos caldeirões encantados existentes nos mitos
celtas, capazes de trazer sabedoria, a abundância e trazer
aqueles que morreram de volta a vida, como no mito de Bran,
citado acima, mas ao próprio mito de Lia Fail a pedra
que grita (para mais informações busque minha
matéria 'Visão da Mitologia' na parte de mitologia
do Tribos), a qual simbolizava a soberania irlandesa. Assim,
ele nada mais é do que, como o próprio ciclo
arturiano, de uma adaptação tardia e cristianizada
de mitos celtas anteriores.
Mesmo assim eu creio que um exemplo mais se faz necessário
para não deixar duvida quanto a metáfora escondida
sob todos estes mitos. Ela é muito clara nesta história
dos cinco filhos do rei irlandês Eochaid.
Tendo ido caçar, num certo dia, viram-se eles perdidos,
afastados de tudo e de todos. Sedentos, puseram-se, um por
um, a buscar água. Fergus foi o primeiro: E ele encontra
um poço, junto ao qual há uma velha mulher, de
sentinela. Tem a velha a seguinte aparência: é mais
negra que o carvão eram todas as suas Juntas e partes,
da cabeça aos pés; comparável ao rabo
de um cavalo selvagem era a dura massa cinzenta que ocupava
a parte superior da cabeça; com o golpe de uma presa
esverdeada que dali saia, encurvada ate tocar-lhe a orelha,
ela podia cortar o verdejante galho de um carvalho em plena
pujança; tinha olhos escurecidos e esfumaçados;
nariz torto, com amplas narinas; barriga pintalgada e encarquilhada,
acometida de todo tipo de doenças; canelas horrivelmente
deformadas, guarnecidas de maciços tornozelos e de pés
que pareciam grandes pás; tinha nodosos joelhos e unhas
cor de chumbo. Com efeito, todos os traços da megera
eram desagradáveis. 'É aqui, não é?',
disse o rapaz; 'Justa-mente', respondeu ela. 'Estas guardando
o poço?', perguntou ele; e ela disse: 'Sim'. 'Permites
que eu leve um pouco de água?' 'Claro', consentiu ela,
'mas terei de receber de ti um beijo na face.' 'Nada disso',
disse ele. 'Então não te darei água.'
'Dou-te minha palavra', ele prosseguiu, 'que, antes de dar-te
um beijo, possa eu morrer de sede!' E o Jovem partiu para o
local onde estavam seus irmãos e lhes disse que não
havia conseguido água'.
Olioll, Brian e Fiachra, que foram buscar água em seguida,
um após outro, também chegaram ao mesmo poço.
Todos pediram a velha que lhes desse água, mas lhe negaram
o beijo. Por fim, chegou a vez de Niall, que chegou ao mesmo
poço. 'Deixa-me tomar água, mulher!', exclamou,
'Por certo', disse ela, 'e tu me darás um beijo,' Ele
respondeu:
'Alem do beijo, dou-te também um abraço!' E ele
se inclina para abraça-la e lhe da um beijo. Feito isso,
ele a olha e eis que não havia no mundo uma jovem mais
graciosa, de aparência mais bela que a dela: semelhante
a ultima neve a cair, espalhada em valas, era cada uma de suas
partes, do topo da cabeça a sola dos pés; antebraços
roliços e majestosos, dedos longos e delgados, pernas
bem-torneadas de cor agradável; duas sandálias
de um belo bronze se interpunham entre os lisos e suaves pés
e a terra; havia sobre ela uma ampla manta da melhor lã,
puro carmesim, e, sobre suas vestes, um broche de prata branca;
tinha ela brancos dentes perolados, grandes olhos magnificentes,
a boca rubra como a sorva. 'Ha aqui, mulher, uma galáxia
de encantos', disse o jovem rapaz. 'E de fato verdade.' 'E
quem es?', prosseguiu, 'Sou a Regra Real', respondeu ela, e
disse: 'Rei de Tara! Sou a Regra Real...' 'Vai agora', disse
ela, 'para ter com teus irmãos e leva água contigo;
doravante, de ti e dos teus filhos para sempre o reino e o
poder supremo serão... E tal como me viste antes feia,
embrutecida, repugnante, e, no final, bela, assim e a regra
real: pois, sem batalhas, sem implacável conflito, ela
não pode ser ganha; mas, no final, aquele (que ganha) é rei
de tudo de atraente e belo que resulte.'
Retirado de 'O Herói de Mil Faces', de Joseph Campbell,
Editora Pensamento-Cultrix, 7 a edição, páginas
117 e 118
Assim, como podemos ver, o Graal, Sangreal, Lia Fail, ou Regra
Real, nada mais são do que a ligação com
a Terra; seu direito à soberania que pode ser tanto
graciosamente recebido, como retirado, de acordo com as atitudes,
seja do herói, do cavaleiro, ou mesmo do deus, e que
se não recuperada, pode causar o termino de um ciclo,
como acontece com o reinado de Conn nos mitos celtas (para
mais informações busque minha matéria
'Visão da Mitologia' na parte de mitologia do Tribos),
de Arthur no Ciclo Arturiano, e dos Templários em nossa
história.
Finalmente chegamos ao último, porém não
menos importante, 'Tesouro Espiritual' Templário, a
Arca da Aliança.
Sua ligação com os cavaleiros é a mais
simples, pois é uma ligação geográfica.
Apesar de estudiosos considerarem que a Arca da Aliança
possa estar escondida desde a Etiópia até na
igreja de Rosslyn, o que, inclusive, a ligaria aos Maçons
e, por conseguinte aos Templários, segundo a Bíblia,
a última morada da Arca da Aliança, a qual conteria
os dez mandamentos por Ele ditados a Moises foi no Templo de
Salomão em Jerusalém que, nas primeiras décadas
do século XI, se tornou a sede no oriente, dos nove
cavaleiros que depois se tornariam, como já foi colocado
acima, os Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, ou
Templários.
Mas qual seria o significado da Arca?
Bom, em 1 Samuel 3-4, temos não somente que, quando
souberam que a Arca de Iahweh chegara ao acampamento dos israelitas,
eles se encheram de medo, pois sabiam que 'Deus veio ao acampamento',
como também que, quando tomada pelos filisteus e colocada
no templo do deus Dagon, Deus destrói a estatua de Dagon
e traz doenças aos filisteus, até que sua Arca
seja devolvida ao povo de Israel. Apesar de uma mitologia diferente,
com um deus celeste ao invés de deuses ctônicos
das mitologias pagãs, podemos perceber que para os Israelitas,
a Arca era a ligação com sua divindade, com o
divino, como acontece com o Graal, Lia Fail, e o Caldeirão,
nas culturas pagãs européias.
Assim, tendo analisado comparativamente os três principais
tesouros templários a mitos e histórias de outras
religiões, podemos chegar a conclusão de que
muito mais do que artefatos reais eles eram metáforas
do que os Templários conseguiram durante sua história.
A mescla da sabedoria ocidental com a oriental que fizeram
deles proprietários de terra ricos, banqueiros poderosos,
navegadores astutos e guerreiros ousados, sem falar de toda
a sabedoria esotérica que a Ordem devia possuir. Sabedoria
essa que não se perdeu somente porque a Ordem acabou,
pois já vimos que tudo tem um começo, um meio
e um fim, mas que eles nos deixaram não somente nas
mãos dos Templários Modernos, dos Cavaleiros
de Cristo e Montésa, ou na Maçonaria e nas diversas
Ordens que dela nasceram, mas em nossa história, como
as culturas anteriores nos deixaram em seus mitos, só bastando
para nós abrir os olhos e aprender com estes mistérios.
Bibliografia:
- Burman, Edward - Templários: os Cavaleiros de Deus
- Editora Nova Era, 5 a edição.
- Campbell, Joseph - O Herói de Mil Faces - Editora
Pensamento - Cultrix, 7 a edição.
- Cotterell, Arthur - Celtic Mythology - Select Editions.
- Davidson, H.R.Ellis - Deuses e Mitos do Norte da Europa -
Madras Editora, 2004.
- Ferguson, Diana - History of Myths Retold - Chancelor Press,
2000.
- Montagnac, Élizé de - História dos Cavaleiros
Templários - Madras Editora, 2005.
- Bíblia de Jerusalém - Edições
Paulisnas, 1981 |