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Gianpaolo Celli



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O Mistério do Tesouro dos Templários

 

Gianpaolo Celli
Revisão Histórica: Sérgio Pereira Couto

Muito se fala dos Templários, ou Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, como são realmente chamados, e sobre os mistérios de suas posses (materiais e espirituais), muitas delas nunca realmente encontradas, mas muito pouco se explica sobre o assunto. Pior do que isso, devido à falta de relatos confiáveis, muito se inventa se baseando em crenças sobre ele.
Há perguntas, entretanto, que persistem. Quem foram os Templários? Como nasceram? O que fizeram durante os séculos que estiveram em atividade? Como e porque terminaram? E o mais importante: onde está seu legado, seus lendários tesouros?
A origem dos cavaleiros templários remonta ao ano de 1119, quando nove cavaleiros, remanescentes das cruzadas, decidem continuar em Jerusalém e devotar suas vidas para proteger aqueles que resolvessem peregrinar da Europa para a Terra Santa. Lá, eles fazem voto de pobreza e são acolhidos pelo patriarca da cidade, assumindo um papel semelhante ao de uma guarda pessoal. Os novos cavaleiros ocupam um anexo de seu próprio palácio, próximo aos chamados Estábulos de Salomão, na área onde antes se erguia o famoso Templo. Essa identificação com o local faz com que adote seu primeiro nome, Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão. Pelos próximos nove anos eles lá permaneceram até voltarem a Europa em 1128 e a Igreja conceder-lhes o status de Ordem Militar e Monástica, graças à pregação de Bernardo de Clairvaux (que depois foi santificado como São Bernardo).
Assim, com o apoio do Papa e da comunidade católica, eles conseguiram se firmar não somente no Oriente, onde a instabilidade e a fragmentação dos domínios cristãos não facilitou sua situação militar, cheia de vitórias e derrotas, como também no Ocidente, onde a aprovação dos nobres e do povo fez com que a Ordem crescesse como nenhuma outra na história. Sua riqueza começou a aumentar graças aos nobres e reis que colocavam sob a guarda da Ordem suas riquezas, tornando-os assim praticamente os primeiros banqueiros da história.
Apesar da campanha militar dos Templários ter conseguido muitas vitórias no Oriente Médio quando do início de sua história, essa situação não duraria muito. Quando começaram a perder o domínio da Terra Santa, passaram a usar o dinheiro das doações na Europa e da administração das terras que recebiam para se lançarem em outros negócios.
Os templários foram inovadores quanto a questões financeiras. Com sua experiência no Oriente já possuía uma economia muito mais baseada no uso de moedas. Fizeram com que as terras provindas de doações, em vez de servirem somente para o abastecimento de seus habitantes, como era comum na época, fossem administradas tendo em vista o dinheiro que seus excedentes pudessem render.
Com o enfraquecimento no ideal cruzado que ocorreu no século XIII, contudo, a sorte dos Templários e daqueles que temiam o mistério que cercava as reuniões e cerimônias da Ordem e que buscavam conseguir seu poder, influência e dinheiro, terminou por minar totalmente suas forças. Foi assim que o rei Felipe IV, o Belo, da França, que estava devendo aos Templários por suas últimas campanhas militares contra a Inglaterra, usou seu poder e intimidade com o papa Gregório V, que só assumira o cargo devido ao poder do rei, para prender os líderes Templários e conseguir que erguessem acusações contra eles e a Ordem. Em sua maioria apenas uma variação das acusações feitas anteriormente contra diversos grupos heréticos, como os Cátaros ou os Valdenses.
Em 3 de abril de 1312, pela determinação do papa e do rei, a Ordem dos Templários, apesar de não ser condenada por seus "crimes", é suprimida. E em 18 de março de 1314, os dois dão o último golpe na Ordem manipulando julgamentos e confissões obtidas sob tortura para conseguir que o grão-mestre Jacques de Molay e o dignitário Geoffroi de Charney fossem queimados na fogueira.
A questão é que, em relação a quantidade de cavaleiros, somente uns poucos foram capturados. E só em alguns paises, como a França e a Itália, é que foram realmente torturados. Especula-se que a maioria dos templários franceses terminou por fugir para a Espanha e Portugal, onde conseguiram proteção dos soberanos daqueles países, que mudaram o nome da Ordem, assumindo assim novas identidades (como as Ordens de Cristo, em Portugal, e de Montésa em Aragão e Castela, na Espanha). Outro país especulado como destino da fuga foi a Escócia, onde teriam formado uma força complementar ao exército de Robert o Bruce na famosa batalha de Bannockburn. Outra região, com menos especulação, seria a Suíça.

Muito contestam a dita herança templária das ordens existentes nos locais acima mencionados, mesmo assim temos que considerar que neles existem muitos indícios não somente de partes do tesouro templário, mas também de seu conhecimento, sua sabedoria e de sua tradição. Uma prova disso é que, apesar de todos os bens Templários haverem sido tomados pela igreja, toda sua frota de navios, inicialmente usada para levar peregrinos para a Terra Santa, mas que na época do fim da Ordem estava toda aportada no Atlântico, desapareceu. Então algum tempo depois temos não somente a Espanha e Portugal começarem as grandes navegações, como a Escócia se tornando uma potencia na construção de embarcações. Da mesma maneira que temos o Rito Escocês na Maçonaria, ou todo poder bancário suíço, presente até nos dias atuais. E tem mais, pois não somente a guarda do Papa no Vaticano até os dias de hoje é composta não por soldados italianos mas pelo o que originalmente eram mercenários suíços, como também, se lembrarmos de nossas aulas de histórias, sobre o branco das velas das caravelas portuguesas que vieram ao Novo Mundo havia uma cruz vermelha muito semelhante a templária.
- Coincidência? Teoria da conspiração? Isso na verdade não é nada! Dêem uma olhada no texto abaixo sobre uma das ultimas ações militares templárias no Oriente e me digam se não parece estranho:
'...e em 2 de setembro (de 1188) Saladino executou sua estratégia ponto cerco a Darbsak (uma das fortalezas templárias próxima a Antioquia). Logo foi feita uma brecha na muralha, mas Ibn Shahdad conta o modo como os Templários impediram Saladino de tomar o castelo, agindo como uma parede humana, "cada um ocupando o lugar de seu companheiro". Essa defesa heróica prosseguiu por quatorze dias, enquanto a maioria das outras cidades e castelos havia capitulado para Saladino muito mais depressa.
Mais uma vez, portanto, a coragem dos Templários foi ressaltada; mas, nesse caso, essa coragem foi, em certo sentido, comprometida por um acontecimento raro. Tendo resistido por duas semanas, a guarnição pediu quartel: os Templários abriram mão de seus víveres, grãos e armas e concordaram relutantemente em pagar um grande resgate, que teve de ser tirado de seu tesouro... Até mesmo Ibn Shahdad comentou que o pagamento de um resgate pelos Templários era algo "inaudito".'
Retirado de 'Templários: os Cavaleiros de Deus', de Edward Burman. Editora Record Nova Era, 5 a edição, página 137.
Não é de se estranhar que cavaleiros que nunca tenham pagado um resgate façam isso após praticamente duas semanas de luta sem trégua onde muitos haviam se sacrificavam em batalha? Por que será que eles fizeram tal coisa? Será que existia naquele castelo algum tesouro guardado, alguma relíquia sagrada que os sarracenos ignoravam?
Que tesouro seria esse que nunca foi encontrado, que relíquias sagradas poderiam ser estas que fariam com que não somente homens se sacrificassem por ela, como depois fizessem algo que nunca haviam feito. Pois se nada houvesse ali, por que daquela carnificina toda, por que desistirem tão fácil depois, abrindo uma exceção completa e totalmente inusitada que chega a empalidecer a ação anterior? Será que não seriam relíquias mais do que materiais? Será que não poderiam ser alguns dos tesouros que estudiosos supõe que estiveram em poder da Ordem?

Existem pelos três destes "tesouros" que podemos citar aqui sem medo de errar: o tão citado Baphomet; o cálice do Graal; e nada menos do que a Arca da Aliança dos Hebreus.
Mas será que, só porque muitos outros citaram nós também podemos faze-lo sem questionar o por quê de tesouros como estes estarem nas mãos dos Templários, ou por quê eles não tenham sido encontrado quando a Ordem foi desfeita? Ou ainda, o que cada um deles significa dentro do contexto histórico dos Templários? E por fim, por quê se fala tanto de tais objetos sem que ninguém realmente os tenha visto?
Sim, pois temos que considerar que quando falamos de uma história tão envolta em segredos e mistérios, muito do que se fala muitas vezes é apresentado em sentido metafórico que, para a felicidade daqueles que gostam de teorias de conspiração, termina por se perder com o tempo. E assim nascem os mitos.
- Mitos? - você Pode perguntar.
Sim, mitos. Pois estes não são somente, como a maioria costuma achar, 'contos de fadas para crianças dormirem'. Mitos são a maneira de um povo, de uma civilização, de comentar de uma maneira simples sobre os mistérios da vida e da morte, de suas mentes e de suas realidades interiores.
Seriam então estes 'Tesouros Espirituais' simples metáforas? Mitos nascidos da misteriosa história dos Templários?
Bem, como eu disse na matéria de minha coluna anterior, minha idéia era trabalhar a mescla de acontecimentos de um momento até sobre certo ponto obscuro da história, com conceitos de mitologia comparada, de modo a conseguir um novo ponto de vista, menos fantasioso, mas não menos espetacular, e através dele dar uma nova luz a estes acontecimentos.

Como a apresentação de quem foram os Cavaleiros Templários já foi feita, vamos falar então de seus 'Tesouros':
Segundo acusações feitas contra os Templários, quando estes foram a julgamento, eles adoravam um falso ídolo, o Baphomet, ou Bafomet. Em confissões conseguidas através de tortura, esta figura variava desde uma cabeça de homem decepada até três cabeças ou uma cabeça de gato, com olhos brilhantes, e que falava. Na realidade, o assunto é um tanto polêmico, pois se alguns estudiosos consideram que esta cabeça pudesse ser a cabeça de uma múmia que os cavaleiros teriam encontrado no Egito, existe um caso registrado, conhecido como caput LVIII, do crânio de uma criança que, como a lenda, estava envolvido em ouro, que foi encontrada pelos soldados de Felipe o Belo no Templo de Paris.
Em toda especulação feita em torno do Baphomet três opções foram conseguidas sobre sua provável identidade. Seria ela a cabeça de Cristo, a de João Batista e finalmente a de Hugues de Payens. Vamos analisar estas três opções?
Dizer que o Baphomet é a cabeça de Jesus Cristo, considerando que uma das provas apresentadas pelo cristianismo de que ele ascendeu aos céus é a falta de um corpo, nada mais é do que voltar a acusa-los de blasfemos. Apresentar como tal ídolo a cabeça decepada de João Batista, ao invés disto, é muito mais interessante, pois consta que, além do Santo haver sido decepado, dando uma corroboração "histórica", ele foi o iniciador de Cristo. Da mesma maneira, falar de Hughes de Payes é falar do grande iniciador da Ordem do Templo.
O interessante deste "tesouro" é que casos de cabeças decepadas que continuavam falando após sua morte não são uma novidade para a mitologia ocidental. Existem três mitos bastante conhecidos que nos apresentam tal coisa.
Da coleção de histórias do País de Gales usada para ensinar os bardos e conhecida como 'Mabinogion' nos vem a história d'As Magoas de Branwen' onde, após ter desposado um rei que a renegava, Branwen foi resgatada pelo irmão Bran (cujo nome significa 'corvo', assim como Branwen significa 'corvo branco') e seus exércitos. A vitória foi custosa aos dois pois, no processo, de todo seu exército, que quando singrou os mares era tão grande que as velas de seus barcos pareciam uma floresta, só sobraram sete companheiros. O rei Bran então mandou que cortassem sua cabeça, e que ele ficaria com eles, conversando, para que o horror daquela carnificina não lhes dominasse as almas. Conta a lenda que anos depois, a cabeça de Bran foi enterrada no Outeiro Branco, junto a Torre de Londres, voltada para o continente, e que enquanto ela estivesse lá a Inglaterra nunca seria subjugada (essa lenda gerou um folclore que existe até os dias de hoje, e é por isso que existem sempre corvos na Torre de Londres).
A mitologia clássica nos traz a história de 'Orfeu e sua Musica Encantada'. Nela Orfeu é um músico de tamanha habilidade que, quando ele toca sua lira, a Terra inteira se cala para ouvir. Os pássaros param de cantar, o vento de soar, e o leão se deita junto à ovelha, todos encantados por sua musica maravilhosa. Acontece que ele se apaixona pela ninfa Eurídice, tanto que, quando ela morre e vai para o Submundo, Orfeu também vai e pede para Hades e Perséfone que, em troca de uma apresentação musical, sua amada fosse libertada. Perséfone termina por liberar Eurídice, mas profetiza que, se Orfeu olhasse para ela antes que eles houvessem voltado a Terra, ela voltaria ao Inferno como a Sombra que havia se tornado. Não conseguindo refrear sua curiosidade e paixão, Orfeu olha para sua amada antes de sua volta e perde-a para sempre. Não agüentando a perda, ele termina morrendo anos depois, e sua cabeça é carregada por sua lira até o rio Hebrus e ao mar, onde é levada à ilha de Lesbos, onde se prende a uma rocha e, apesar de decepada, ela continua com a capacidade de falar. E por muitos anos a cabeça de Orfeu faz predições aos marinheiros os barcos que por lá passam.
Na mitologia germânica, por sua vez, temos a história de Mimir, o Sábio dos Aesires. Além de guardião da Fonte da Inspiração a qual Odin sacrificou um olho para beber e obter o conhecimento poético e místico, este Deus foi preso pelos Vanires, que terminaram por decepar sua cabeça. Nesta história Odin termina por conseguir a cabeça do sábio Mimir, pois mesmo cortada de seu corpo ela mantém o dom da fala e da profecia, de modo que Odin a consulta sempre que precisa.
Temos então em três culturas diferentes, quatro se considerarmos o mito do Baphomet, referências a cabeças decepadas que foram preservadas após a morte de seus corpos e que falam e fazem profecias. O que isso quer dizer?
A cabeça de um morto, é a cabeça de alguém que está ou já esteve no mundo dos mortos. Ela na verdade está 'entre os mundos', podendo assim manter um contato contínuo com a sabedoria espiritual, do Outro Mundo; a sabedoria sagrada do Além Vida.
Não podemos esquecer que, inclusive, desde o início que mesmo não sabendo, o ser humano já cogitava que era na cabeça de onde vinham os pensamentos, e que era ela, portanto, que guardava a Alma. Assim, uma cabeça que mantêm o poder da fala é uma cabeça que ainda possui alma, mas que por estar morta já entrou em contato com o Outro Mundo, provado aqui pelo poder de profetizar, de entender a Morte, destas cabeças.

Outro 'Tesouro Espiritual' que estudiosos chegaram a considerar que estaria nas mãos dos Templários é o cálice Graal, tão famoso devido ao Ciclo Arturiano e cuja morada, segundo a Igreja pode estar em diversas cidades da Europa, como o País de Gales, a Toscana, ou a cidadezinha de Cebreiro, no norte da Espanha.
Dizem as histórias que este seria tanto o cálice em que Cristo teria bebido durante a última ceia, como também que recolheu o sangue que dele verteu quando, como aconteceu com Odin em sua busca pela sabedoria (para mais informações busque minha matéria 'Visão da Mitologia' na parte de mitologia do Tribos). Este, segundo as lendas, teria sido levado, por José de Arimatéia, para Inglaterra.
Como estaria então, o Graal, ligado aos Templários?
Acontece que foi em grande parte devido aos Templários que, no século XII, o ideal da cavalaria começou a espalhar-se no norte da França. Tanto que em seu poema épico Percival, Chrétien deTroyes adota a causa da cavalaria (o autor inclusive nasceu na região de Borgonha, onde havia acontecido o Concílio em os Templários receberam a Regra, passando oficialmente a serem uma Ordem militar Cristã). Assim, como o ideal influenciou o Ciclo Arturiano, este terminou influenciando os mitos ligados aos cavaleiros do Templo.
Mas O que o Graal? O que ele significa dentro da história dos Templários?
O Graal, ou Sangreal, como ele também é conhecido, e sua busca no ciclo arturiano, para fazer com que o rei doente e a Terra voltassem a ser um, e tanto o rei como a Terra se tornassem sãos e produtivos nos remetem não somente aos diversos caldeirões encantados existentes nos mitos celtas, capazes de trazer sabedoria, a abundância e trazer aqueles que morreram de volta a vida, como no mito de Bran, citado acima, mas ao próprio mito de Lia Fail a pedra que grita (para mais informações busque minha matéria 'Visão da Mitologia' na parte de mitologia do Tribos), a qual simbolizava a soberania irlandesa. Assim, ele nada mais é do que, como o próprio ciclo arturiano, de uma adaptação tardia e cristianizada de mitos celtas anteriores.
Mesmo assim eu creio que um exemplo mais se faz necessário para não deixar duvida quanto a metáfora escondida sob todos estes mitos. Ela é muito clara nesta história dos cinco filhos do rei irlandês Eochaid.
Tendo ido caçar, num certo dia, viram-se eles perdidos, afastados de tudo e de todos. Sedentos, puseram-se, um por um, a buscar água. Fergus foi o primeiro: E ele encontra um poço, junto ao qual há uma velha mulher, de sentinela. Tem a velha a seguinte aparência: é mais negra que o carvão eram todas as suas Juntas e partes, da cabeça aos pés; comparável ao rabo de um cavalo selvagem era a dura massa cinzenta que ocupava a parte superior da cabeça; com o golpe de uma presa esverdeada que dali saia, encurvada ate tocar-lhe a orelha, ela podia cortar o verdejante galho de um carvalho em plena pujança; tinha olhos escurecidos e esfumaçados; nariz torto, com amplas narinas; barriga pintalgada e encarquilhada, acometida de todo tipo de doenças; canelas horrivelmente deformadas, guarnecidas de maciços tornozelos e de pés que pareciam grandes pás; tinha nodosos joelhos e unhas cor de chumbo. Com efeito, todos os traços da megera eram desagradáveis. 'É aqui, não é?', disse o rapaz; 'Justa-mente', respondeu ela. 'Estas guardando o poço?', perguntou ele; e ela disse: 'Sim'. 'Permites que eu leve um pouco de água?' 'Claro', consentiu ela, 'mas terei de receber de ti um beijo na face.' 'Nada disso', disse ele. 'Então não te darei água.' 'Dou-te minha palavra', ele prosseguiu, 'que, antes de dar-te um beijo, possa eu morrer de sede!' E o Jovem partiu para o local onde estavam seus irmãos e lhes disse que não havia conseguido água'.
Olioll, Brian e Fiachra, que foram buscar água em seguida, um após outro, também chegaram ao mesmo poço. Todos pediram a velha que lhes desse água, mas lhe negaram o beijo. Por fim, chegou a vez de Niall, que chegou ao mesmo poço. 'Deixa-me tomar água, mulher!', exclamou, 'Por certo', disse ela, 'e tu me darás um beijo,' Ele respondeu:
'Alem do beijo, dou-te também um abraço!' E ele se inclina para abraça-la e lhe da um beijo. Feito isso, ele a olha e eis que não havia no mundo uma jovem mais graciosa, de aparência mais bela que a dela: semelhante a ultima neve a cair, espalhada em valas, era cada uma de suas partes, do topo da cabeça a sola dos pés; antebraços roliços e majestosos, dedos longos e delgados, pernas bem-torneadas de cor agradável; duas sandálias de um belo bronze se interpunham entre os lisos e suaves pés e a terra; havia sobre ela uma ampla manta da melhor lã, puro carmesim, e, sobre suas vestes, um broche de prata branca; tinha ela brancos dentes perolados, grandes olhos magnificentes, a boca rubra como a sorva. 'Ha aqui, mulher, uma galáxia de encantos', disse o jovem rapaz. 'E de fato verdade.' 'E quem es?', prosseguiu, 'Sou a Regra Real', respondeu ela, e disse: 'Rei de Tara! Sou a Regra Real...' 'Vai agora', disse ela, 'para ter com teus irmãos e leva água contigo; doravante, de ti e dos teus filhos para sempre o reino e o poder supremo serão... E tal como me viste antes feia, embrutecida, repugnante, e, no final, bela, assim e a regra real: pois, sem batalhas, sem implacável conflito, ela não pode ser ganha; mas, no final, aquele (que ganha) é rei de tudo de atraente e belo que resulte.'
Retirado de 'O Herói de Mil Faces', de Joseph Campbell, Editora Pensamento-Cultrix, 7 a edição, páginas 117 e 118
Assim, como podemos ver, o Graal, Sangreal, Lia Fail, ou Regra Real, nada mais são do que a ligação com a Terra; seu direito à soberania que pode ser tanto graciosamente recebido, como retirado, de acordo com as atitudes, seja do herói, do cavaleiro, ou mesmo do deus, e que se não recuperada, pode causar o termino de um ciclo, como acontece com o reinado de Conn nos mitos celtas (para mais informações busque minha matéria 'Visão da Mitologia' na parte de mitologia do Tribos), de Arthur no Ciclo Arturiano, e dos Templários em nossa história.

Finalmente chegamos ao último, porém não menos importante, 'Tesouro Espiritual' Templário, a Arca da Aliança.
Sua ligação com os cavaleiros é a mais simples, pois é uma ligação geográfica. Apesar de estudiosos considerarem que a Arca da Aliança possa estar escondida desde a Etiópia até na igreja de Rosslyn, o que, inclusive, a ligaria aos Maçons e, por conseguinte aos Templários, segundo a Bíblia, a última morada da Arca da Aliança, a qual conteria os dez mandamentos por Ele ditados a Moises foi no Templo de Salomão em Jerusalém que, nas primeiras décadas do século XI, se tornou a sede no oriente, dos nove cavaleiros que depois se tornariam, como já foi colocado acima, os Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, ou Templários.
Mas qual seria o significado da Arca?
Bom, em 1 Samuel 3-4, temos não somente que, quando souberam que a Arca de Iahweh chegara ao acampamento dos israelitas, eles se encheram de medo, pois sabiam que 'Deus veio ao acampamento', como também que, quando tomada pelos filisteus e colocada no templo do deus Dagon, Deus destrói a estatua de Dagon e traz doenças aos filisteus, até que sua Arca seja devolvida ao povo de Israel. Apesar de uma mitologia diferente, com um deus celeste ao invés de deuses ctônicos das mitologias pagãs, podemos perceber que para os Israelitas, a Arca era a ligação com sua divindade, com o divino, como acontece com o Graal, Lia Fail, e o Caldeirão, nas culturas pagãs européias.

Assim, tendo analisado comparativamente os três principais tesouros templários a mitos e histórias de outras religiões, podemos chegar a conclusão de que muito mais do que artefatos reais eles eram metáforas do que os Templários conseguiram durante sua história.
A mescla da sabedoria ocidental com a oriental que fizeram deles proprietários de terra ricos, banqueiros poderosos, navegadores astutos e guerreiros ousados, sem falar de toda a sabedoria esotérica que a Ordem devia possuir. Sabedoria essa que não se perdeu somente porque a Ordem acabou, pois já vimos que tudo tem um começo, um meio e um fim, mas que eles nos deixaram não somente nas mãos dos Templários Modernos, dos Cavaleiros de Cristo e Montésa, ou na Maçonaria e nas diversas Ordens que dela nasceram, mas em nossa história, como as culturas anteriores nos deixaram em seus mitos, só bastando para nós abrir os olhos e aprender com estes mistérios.

Bibliografia:
- Burman, Edward - Templários: os Cavaleiros de Deus - Editora Nova Era, 5 a edição.
- Campbell, Joseph - O Herói de Mil Faces - Editora Pensamento - Cultrix, 7 a edição.
- Cotterell, Arthur - Celtic Mythology - Select Editions.
- Davidson, H.R.Ellis - Deuses e Mitos do Norte da Europa - Madras Editora, 2004.
- Ferguson, Diana - History of Myths Retold - Chancelor Press, 2000.
- Montagnac, Élizé de - História dos Cavaleiros Templários - Madras Editora, 2005.
- Bíblia de Jerusalém - Edições Paulisnas, 1981

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