Dando continuidade
a meu texto anterior: todo esse medo de morrer, esse receio
de viver, ou melhor, de não viver, nos toma de maneira
tão inexorável que quando percebemos que o fim é inevitável
terminamos por questionar a real necessidade da morte. Não
só ela é tão necessária como a
vida da maneira que nós conhecemos, como também
a existência de uma seria impossível sem a existência
da outra. Em poucas palavras: a vida se alimenta da morte como
a morte se alimenta da vida.
Inclusive, todo o processo de alimentação, independentemente
de quem ou o que estiver se alimentando, assim como do que este
ser estiver se alimentando, é um ato matar. Todos matam
para viver, essa é uma lei natural e imutável e
não há nada que possamos fazer a respeito.
–
Mas as plantas não matam para viver! – você pode
responder.
Aí eu coloco outra questão: – Você já ouviu
falar em dois termos agrícolas: “rotação
de plantio” e “descanso de solo”?
Bom, se não, eu vou explicar: “Rotação
de plantio” é quando se trocam as plantações
de um determinado campo para que a terra não fique totalmente
exaurida de um dado componente utilizado pela planta em seu crescimento.
Da mesma maneira “descanso de solo” é quando
não se planta nada por toda uma estação,
adubando a terra para que ela volte a ter total capacidade de
manutenção de vida vegetal. Ou seja, para sobreviverem
as plantas também matam; a única coisa é que
elas não matam seres vivos, pelo menos não como
a ciência determina, mas a terra onde elas estão
plantadas. Terra esta a qual, segundo a Teoria de Gaia, também é um
ser vivo.
Aí você pode colocar que “na natureza isso
não acontece!”
Muito pelo contrário, acontece sim. a diferença é que
a diversidade existente na natureza não deixa que a terra
morra totalmente. Assim, as mesmas árvores que drenam
a terra, a alimentam ao deixar caírem galhos, folhas e
frutos que apodrecem e terminam por tonificar a própria
terra onde a árvore está. Ainda assim existem desertos
pelo mundo onde antes existiam florestas.
Deste modo nós temos aqui o aspecto energético
da morte. Seu aspecto mais natural. O ciclo eterno, não
de Roda-do-Ano, mas de seu semelhante, o ciclo de vida-morte-renascimento.
Este é um ponto interessante pois mesmo a ciência
nos dava, até algum tempo atrás, um ponto de
vista errado da vida e seus ciclos. Aprendíamos em biologia
sobre cadeia ou pirâmide alimentar, sobre como os herbívoros
comem as plantas e os carnívoros comem os herbívoros
numa pirâmide até chegar nos grandes predadores
que, por não terem inimigos naturais, não servem
de alimento para ninguém.
Aí eu perguntava: – Não são mesmo?
E o que acontece com suas carcaças quando eles morrem?
Não se tornam alimento dos necrófagos? Animais,
insetos, vermes e bactérias que se alimentam dos mortos?
Seus corpos mortos não se decompõem na própria
terra que alimentou suas presas? Ou seja, como se ensina agora,
estamos falando de um ciclo, o que vem da terra e vai para
ela!
Eu sei que há muito tempo nós temos colocado
nossos mortos em caixões fechados e forrados como camas,
em tumbas lacradas de cimento e aço, onde o corpo, sem
real contato com a terra, quase só apodrece, servido
de alimento para vermes que morrem ali mesmo no cimento sem
alimentar realmente a terra, mas a questão se mantém:
–
Por que cavamos túmulos? Por que “devolvemos nossos
mortos ao ventre da Mãe Terra”? – Não
será para que eles mesmos voltem a se tornar parte dela,
renascendo, desta forma, como alimento para plantas, que serão
alimento de herbívoros, que se tornarão alimentos
de carnívoros?
Ou seja, é aquela Lei da Conservação da
Massa, formulada por Lavoisier em 1789: “Na natureza
nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.”
Vendo tudo isso e lendo nas entrelinhas podemos chegar à conclusão
que a própria física determina a existência
do renascimento. O que era matéria se torna energia
para tornar-se matéria uma vez mais.
Indo mais fundo inclusive, considerando conceitos da homeopatia
que determinam que tudo possui memória, as idéias
de renascimento e reencarnação, passam de meras
fantasias para verdades. Nossa memória, mental e física
(genética) fica impregnada no solo em que fomos enterrados
e de onde nosso corpo agora faz parte. Essa terra alimentará plantas
que alimentarão animais, no ciclo mais de uma vez citado
acima. A mesma matéria, a mesma energia vinda da vida,
tornando-se morte para então novamente voltar a ser
vida.
Depois de ver tudo isso, passagens folclóricas relativas
ao processo de reencarnação ou renascimento como
a lenda indígena sul-americana que reza que se alguma
grávida passar por um local onde alguém jaz morto,
a alma desta pessoa passa a habitar a criança ainda
não nascida passam a ter uma nova lógica, não é mesmo?
Mesmo assim continua a questão: Será que é só isso?
Será que não existe mais uma das FACES DA MORTE
para analisarmos? Uma talvez mais profunda, que complete toda
essa teia de uma maneira memorável? Vamos esperar...
Gianpaolo Celli |