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Gianpaolo Celli



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Fé, Destino e Livre-Arbítrio

 

Uma das coisas que eu costumo dizer é que: “ao sábio o mundo mostra sabedoria, enquanto ao tolo ele mostra tolices.” – “O que isso quer dizer?” – você pode perguntar. Quer dizer que na maioria das vezes o mundo (e tudo que está nele) é como um espelho, refletindo somente a nós mesmos. Pense então, se somos sábios, aprendemos com o mundo que se abre à nossa frente, enquanto se somos tolos, o mundo parece vazio, desprovido de conhecimento.
Por que estou colocando isso? Porque antes de começar realmente a falar do que me propus (fé, destino e livre-arbítrio, e o que eles podem mudar em nossa vida), gostaria de dizer como a inspiração chegou a mim.
Bom, eu leio muito, tanto leitura técnica (mitologia, psicologia, história) como leitura de hobbie (ficção, fantasia) e, muito das lições importantes que aprendi o fiz lendo histórias que muitas vezes nada esperavam além de entreter, mas que apesar disso possuíam palavras ricas, tanto em sentido como em significado. E assim como encontrei a sabedoria em livros, encontrei também em conversas triviais, em filmes que também em sua maioria só buscavam entreter por não mais do que duas ou três horas. Encontrei uma sabedoria profunda, em especial nas comédias, que apesar de buscar mostrar o lado cômico das coisas e do cotidiano, normalmente o faz mostrando situações cheias de sabedoria.
Foi assim que chegou a inspiração de fazer este texto que, apesar de não ser uma história de ficção cheia de uma sabedoria oculta (quem sabe um dia eu escrevo), também traz algo a se pensar. O livro em questão ‘Dragons of Autumn Twilight’, em português ‘Dragões do Crepúsculo de Outono’ de uma trilogia de fantasia de autoria de Margareth Weis e Tracy Hickman. Em linhas gerais, na história em questão os deuses haviam deixado o mundo onde a história acontece já há algum tempo, sendo substituídos, após um evento chamado cataclismo, por falsos deuses, criados pelos homens e desprovidos de poder (pois o ser humano precisar de algo em que acreditar), e somente centenas de anos depois, quando a história acontece, que os deuses verdadeiros retornaram. Na passagem que me inspirou, uma das personagens, que acredita nestes deuses ancestrais, recebendo assim suas bênçãos e poderes, é questionada por um sábio sobre os mesmos. “– Você diz trazer as palavras dos deuses antigos. Se realmente fomos nós humanos que desistimos deles, e não os deuses que desistiram de nós como sempre pensamos, por que então eles demoraram tanto para voltar?” – questiona o sábio à jovem clériga. Esta por sua vez responde: “– Imagine que você esteja andando por uma floresta carregando consigo sua mais preciosa posse, uma jóia rara e valiosa. Subitamente um animal feroz o ataca e você larga a jóia e sai correndo. Você percebe que perdeu sua jóia, mas tem medo de voltar à floresta para procura-la. Você encontra então alguém com outra jóia, uma que, no fundo, você sabe que não é tão valiosa quanto a que possuía, mas você ainda tem medo de voltar para procurar a outra. Agora, isso quer dizer que a jóia esquecida deixou a floresta, ou será que ela continua lá, brilhando por entre a folhagem, esperando que você retorne?”
Quando eu li essa passagem, logo lembrei-me das placas que as vezes vejo penduradas pela cidade agradecendo a algum santo ou santa pelo pedido realizado. – “Mas você está falando de crentes, de cristãos!” – você pode dizer. – “Nós neo-pagãos somos diferentes!”. Ai eu pergunto: “Será mesmo?!” – E pergunto pois vejo muitos pagãos usando seus rituais somente para pedir coisa que desejam e acham que merecem e quase nunca para agradecer coisas que receberam por merecimento. Ou mesmo pela sabedoria que adquiriram (ou deveriam ter adquirido com suas experiências).
Ou seja, a impressão que eu tenho é que, em sua maioria, as pessoas esperam que a relação com os deuses seja sempre de uma só mão, e não de duas mãos, como deveria ser qualquer relação. Lembramos dos deuses somente quando precisamos, sendo eles assim como nossa fé, colocada de lado quando estamos bem. E depois reclamamos quando os deuses demoram a responder, ou ainda, quando não respondem às nossas preces, achando que eles são injustos ou que não existem.
O pior é que analisando a questão eu vejo um aspecto mais profundo nisso. Pois só quando estamos mal queremos acreditar nos deuses, em destino, que a culpa da situação não é nossa; da mesma maneira queremos acreditar que uma força maior pode, deve e irá nos ajudar. Quando estamos bem, por sua vez, a idéia de que nosso sucesso não é somente nossa responsabilidade, que talvez o destino, ou os deuses tenham nos ajudado, é rapidamente repudiada. Isso pois a fé vai contra a idéia de competência que a sociedade nos ensinou a acreditar, assim como o fracasso nos mostra uma falsa noção de incompetência, que a sociedade também nos ensinou, só que a negar.
Assim temos nossa questão de ‘fé, destino e livre-arbítrio’. O orgulho nos faz negar a fé, o destino ou os deuses quando estamos bem, nos impede de uma visão completa do universo, pois nega a influencia externa dos deuses e do destino. Esse mesmo orgulho faz com que abracemos nossa fé cegamente quando estamos mal, fazendo com que neguemos a responsabilidade por nossos atos e pelo que acontece conosco. Ou seja, de uma maneira ou de outra, não conseguimos enxergar o todo.
O ponto portanto é aprender a sempre ver o universo de maneira completa, como Físico, Energético e Espiritual, entendendo que tudo em nossa vida é uma soma tanto de energias maiores como de nossas escolhas, e que a triangulação destas duas forças, Deuses e livre-arbítrio, gerará o que chamamos de destino. Deste modo sempre teremos parte da responsabilidade nele. Assim, da mesma maneira que devemos pedir aos deuses pelo que achamos que merecemos, também devemos agradecer a eles por tudo que acontece conosco, mesmo quando é nossa a glória pelos resultados. Os deuses, afinal de contas, também moram em cada um de nós.
Fazendo isso, agradecendo as coisas boa que nos acontecem, o aprendizado que recebemos, não só implorando e esquecendo, perceberemos inclusive que os Deuses passaram a responder mais rapidamente. Afinal de contas, se você não gosta daquele amigo que só o procura quando está com problemas, esquecendo-se de você quando não tem mais necessidade (pois ninguém gosta deste tipo de gente), não seja assim você também, nem para seus amigos, nem para os deuses.

Gianpaolo Celli

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