Uma das coisas que
eu costumo dizer é que: “ao sábio o mundo
mostra sabedoria, enquanto ao tolo ele mostra tolices.” – “O
que isso quer dizer?” – você pode perguntar.
Quer dizer que na maioria das vezes o mundo (e tudo que está nele) é como
um espelho, refletindo somente a nós mesmos. Pense então,
se somos sábios, aprendemos com o mundo que se abre à nossa
frente, enquanto se somos tolos, o mundo parece vazio, desprovido
de conhecimento.
Por que estou colocando isso? Porque antes de começar
realmente a falar do que me propus (fé, destino e livre-arbítrio,
e o que eles podem mudar em nossa vida), gostaria de dizer como
a inspiração chegou a mim.
Bom, eu leio muito, tanto leitura técnica (mitologia,
psicologia, história) como leitura de hobbie (ficção,
fantasia) e, muito das lições importantes que aprendi
o fiz lendo histórias que muitas vezes nada esperavam
além de entreter, mas que apesar disso possuíam
palavras ricas, tanto em sentido como em significado. E assim
como encontrei a sabedoria em livros, encontrei também
em conversas triviais, em filmes que também em sua maioria
só buscavam entreter por não mais do que duas ou
três horas. Encontrei uma sabedoria profunda, em especial
nas comédias, que apesar de buscar mostrar o lado cômico
das coisas e do cotidiano, normalmente o faz mostrando situações
cheias de sabedoria.
Foi assim que chegou a inspiração de fazer este
texto que, apesar de não ser uma história de ficção
cheia de uma sabedoria oculta (quem sabe um dia eu escrevo),
também traz algo a se pensar. O livro em questão ‘Dragons
of Autumn Twilight’, em português ‘Dragões
do Crepúsculo de Outono’ de uma trilogia de fantasia
de autoria de Margareth Weis e Tracy Hickman. Em linhas gerais,
na história em questão os deuses haviam deixado
o mundo onde a história acontece já há algum
tempo, sendo substituídos, após um evento chamado
cataclismo, por falsos deuses, criados pelos homens e desprovidos
de poder (pois o ser humano precisar de algo em que acreditar),
e somente centenas de anos depois, quando a história acontece,
que os deuses verdadeiros retornaram. Na passagem que me inspirou,
uma das personagens, que acredita nestes deuses ancestrais, recebendo
assim suas bênçãos e poderes, é questionada
por um sábio sobre os mesmos. “– Você diz
trazer as palavras dos deuses antigos. Se realmente fomos nós
humanos que desistimos deles, e não os deuses que desistiram
de nós como sempre pensamos, por que então eles
demoraram tanto para voltar?” – questiona o sábio à jovem
clériga. Esta por sua vez responde: “– Imagine
que você esteja andando por uma floresta carregando consigo
sua mais preciosa posse, uma jóia rara e valiosa. Subitamente
um animal feroz o ataca e você larga a jóia e sai
correndo. Você percebe que perdeu sua jóia, mas
tem medo de voltar à floresta para procura-la. Você encontra
então alguém com outra jóia, uma que, no
fundo, você sabe que não é tão valiosa
quanto a que possuía, mas você ainda tem medo de
voltar para procurar a outra. Agora, isso quer dizer que a jóia
esquecida deixou a floresta, ou será que ela continua
lá, brilhando por entre a folhagem, esperando que você retorne?”
Quando eu li essa passagem, logo lembrei-me das placas que as
vezes vejo penduradas pela cidade agradecendo a algum santo ou
santa pelo pedido realizado. – “Mas você está falando
de crentes, de cristãos!” – você pode
dizer. – “Nós neo-pagãos somos diferentes!”.
Ai eu pergunto: “Será mesmo?!” – E pergunto
pois vejo muitos pagãos usando seus rituais somente para
pedir coisa que desejam e acham que merecem e quase nunca para
agradecer coisas que receberam por merecimento. Ou mesmo pela
sabedoria que adquiriram (ou deveriam ter adquirido com suas
experiências).
Ou seja, a impressão que eu tenho é que, em sua
maioria, as pessoas esperam que a relação com os
deuses seja sempre de uma só mão, e não
de duas mãos, como deveria ser qualquer relação.
Lembramos dos deuses somente quando precisamos, sendo eles assim
como nossa fé, colocada de lado quando estamos bem. E
depois reclamamos quando os deuses demoram a responder, ou ainda,
quando não respondem às nossas preces, achando
que eles são injustos ou que não existem.
O pior é que analisando a questão eu vejo um aspecto
mais profundo nisso. Pois só quando estamos mal queremos
acreditar nos deuses, em destino, que a culpa da situação
não é nossa; da mesma maneira queremos acreditar
que uma força maior pode, deve e irá nos ajudar.
Quando estamos bem, por sua vez, a idéia de que nosso
sucesso não é somente nossa responsabilidade, que
talvez o destino, ou os deuses tenham nos ajudado, é rapidamente
repudiada. Isso pois a fé vai contra a idéia de
competência que a sociedade nos ensinou a acreditar, assim
como o fracasso nos mostra uma falsa noção de incompetência,
que a sociedade também nos ensinou, só que a negar.
Assim temos nossa questão de ‘fé, destino
e livre-arbítrio’. O orgulho nos faz negar a fé,
o destino ou os deuses quando estamos bem, nos impede de uma
visão completa do universo, pois nega a influencia externa
dos deuses e do destino. Esse mesmo orgulho faz com que abracemos
nossa fé cegamente quando estamos mal, fazendo com que
neguemos a responsabilidade por nossos atos e pelo que acontece
conosco. Ou seja, de uma maneira ou de outra, não conseguimos
enxergar o todo.
O ponto portanto é aprender a sempre ver o universo de
maneira completa, como Físico, Energético e Espiritual,
entendendo que tudo em nossa vida é uma soma tanto de
energias maiores como de nossas escolhas, e que a triangulação
destas duas forças, Deuses e livre-arbítrio, gerará o
que chamamos de destino. Deste modo sempre teremos parte da responsabilidade
nele. Assim, da mesma maneira que devemos pedir aos deuses pelo
que achamos que merecemos, também devemos agradecer a
eles por tudo que acontece conosco, mesmo quando é nossa
a glória pelos resultados. Os deuses, afinal de contas,
também moram em cada um de nós.
Fazendo isso, agradecendo as coisas boa que nos acontecem, o
aprendizado que recebemos, não só implorando e
esquecendo, perceberemos inclusive que os Deuses passaram a responder
mais rapidamente. Afinal de contas, se você não
gosta daquele amigo que só o procura quando está com
problemas, esquecendo-se de você quando não tem
mais necessidade (pois ninguém gosta deste tipo de gente),
não seja assim você também, nem para seus
amigos, nem para os deuses.
Gianpaolo Celli
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