Sabem, eu passei
meu texto anterior para alguns conhecidos e, em sua maioria,
eles acharam-no muito pesado... crítico demais. O ponto é que
apesar de realmente ser, era este o objetivo. Antes de construir,
afinal de contas, temos de destruir. Não interessa se
vamos plantar algo ou levantar uma edificação,
temos de arar um terreno ou terraplana-lo para isso. E convenhamos,
ambos processos são ‘destruidores’. Fazemos
isso também pois precisamos de uma base sólida
para tudo em nossa vida.
E se você não construiria uma casa nova usando
paredes de uma ruína já existente, e não
plantaria sem haver limpado seu terreno do mato e de plantações
mais antigas, por que você deveria fazer isso com sua
espiritualidade? Nada é mais natural, portanto, do que
iniciar um processo de criação com um de destruição.
Respire fundo então, pois vamos começar a construir
uma base para sua espiritualidade, para sua crença,
sua fé, sua religião...
Inicialmente vamos considerar o que vem a ser sua crença.
Muito provavelmente estamos falando de, independente de qual
seja sua religião, de paganismo. Neo-paganismo, na verdade,
pois a maioria de nós, com acesso a supermercados, geladeiras
e produtos industrializados, não depende mais tão
diretamente da terra, pelo menos não como nossos antepassados
precisavam.
O ponto então passa a ser realmente espiritual. Mas
que ‘ponto’? O ponto do que devemos celebrar, de
que datas do ano devemos dar valor pois, no fundo, da mesma
maneira que, como neo-pagãos, consideramos toda a Terra
sagrada, também consideramos, ou pelo menos deveríamos,
todos os dias (todos os momentos, se pensarmos melhor) sagrados.
Toda Terra sagrada? Evidente, pois se o processo de criação
ainda está acontecendo e o Universo ‘e tudo que
nele existe’ é a parte física dos deuses,
tudo no universo portanto, é sagrado.
Existem, entretanto, como as florestas vivas que consideramos
especiais, datas especiais durante o ano (apesar de todo momento
ser especial). Por que então um momento é mais ‘especial’ do
que os demais?
Pois eles representam momentos especiais do universo. Inícios,
finais e meios de fenômenos naturais. Alguns exemplos?
Muito fácil... solstícios, equinócios,
fases da Lua, marés...
O que existe de especial numa fase da Lua? – Você pode
perguntar. – Como a lua crescente? Primeiro, a lua crescente,
como a minguante, não são fases, mas passagens.
Fases são a Lua Cheia (plenilúnio), quando a
Lua nos oferece sua face iluminada, e a Lua Nova (novilúnio),
quando ela se encontra em conjunção com a Terra,
tornando-se assim praticamente invisível no céu
noturno (ambas existindo por períodos de somente 36
horas).
O que isso muda em minha vida? – Você pode perguntar,
imaginando que um astro sem luz própria não pode
mudar nada na natureza.
Ledo engano! A Lua controla, por exemplo, as marés
(os líquidos da Terra). Será então que
ela também não pode controlar nossos líquidos
internos (o microcosmo como o macrocosmo)?
Os cientistas descobriram que nos períodos próximos
a lua cheia a seiva das plantas fica mais exposta, mais próxima
ao topo das mesmas, enquanto durante as datas próximas
a lua nova, a seiva se encontra próxima a raiz. A madeira,
portanto é melhor se cortada durante a lua nova, pois
será mais seca. Frutos, ao contrário, ficam mais
suculentos durante a lua cheia.
Interessante, não é verdade,mas será que é só isso?
Será que nada relacionado a nossa espiritualidade pode
vir destas ‘datas especiais’? A Lua, afinal de
contas, é um dos astros mais ligados aos deuses, a figura
da Deusa, especialmente. Será então que o nosso
inconsciente não seria como as marés? Ou como
a seiva das plantas?
E os solstícios, equinócios? – Fácil! – Você vai
responder. – São os inícios das estações! – Ai
eu pergunto novamente. – Será mesmo que são?
O que é um solstício? Um equinócio? O
equinócio é o ponto da órbita da Terra
onde a duração do dia e da noite são iguais. É o
dia a partir do qual os dias ou as noites começaram,
a crescer (respectivamente primavera e outono), até que
se chegue ao solstício, que é o ponto da órbita
da Terra onde existe a maior disparidade entre a duração
do dia e da noite. Os solstícios são, então,
o dia e a noite mais longos do ano (verão e inverno,
respectivamente).
Iniciando então no solstício de inverno (noite
mais longa do ano), é a partir desta data que os dias
começam a crescer, até que se chegue numa igualdade
entre o dia e a noite (equinócio de primavera), e continuando
até o ápice do dia no solstício de verão
(dia mais longo do ano), data a partir da qual os dias irão
diminuir até que novamente a igualdade se faça
presente entre dia e noite (equinócio de outono) e seguindo
novamente para o solstício de inverno onde nós
começamos a explicação, num ciclo perpétuo.
Ai vem a pergunta: Se dividirmos o ano em duas metade (creio
que você já deve ter ouvindo isso em algum lugar),
por que a metade clara do ano deve começar exatamente
quando os dias começam a diminuir? O mesmo acontecendo
com a metade escura, quando os dias começam a crescer?
Não seria, então, mais lógico que tais
datas fossem então os meios das estações?
Já em Shakespear encontramos o clássico ‘Sonhos
de uma Noite de Verão’, em inglês ‘A
Midsummer Night’s Dream’ ou ‘O Sonho de uma
Noite de Meio de Verão’, acontecendo num solstício.
Apresentando a data na introdução como um período
em que ‘estranhos sonhos são comuns de acontecerem.’
Mas se os solstícios e equinócios não
são inícios, mas meios, quais seriam os inícios
das estações?
Não... eu não irei responder isso! Realmente
eu creio que tal resposta deve ser descoberta antes de simplesmente
recebida. Na verdade aqui é o ponto que eu queria chegar.
Após haver destruído diversas noções
suas, deixando a ‘sagrada terra’ fértil
para o plantio (ou terraplenada para a construção),
eu mostrei com o que você pode iniciar sua plantação
(ou construção), mostrei que você deve
trabalhar, estudar, pesquisar, até praticar antes de
simplesmente aceitar verdade. Não irei, então,
trabalhar para você, ou facilitar sua vida mais ainda.
Que sua fé, sua crença, que a base de sua espiritualidade,
que todas sejam trabalhadas por você mesmo.
Por que? – Ora, porque nunca damos valor ao que recebemos
de graça!
Até a próxima, então.
Gianpaolo Celli
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