Interessante que
sempre que eu penso no neo-paganismo como movimento, o conceito
de peso e medida me surge a mente. Por que? – Ora, porque
apesar da maioria de seus praticantes pregarem uma busca pela
verdade, quase todos realmente se contentam com mentiras poéticas,
mais para dar glamour a suas crenças do que para amparar
suas ações.
Como assim? – Bem, posso começar com as besteiras
que li: ‘A Wicca é celta’, o ‘pentagrama é celta’,
a ‘Wicca existe desde o paleolítico’ ou ainda
o mais que famoso ‘tempo das fogueiras’(burning times),
que praticamente apresenta a inquisição queimando
sacerdotisas pagãs como se estas tivessem sido capturadas
nuas em volta de grandes caldeirões no meio da floresta.
A imagem pode ser bonita, a idéia de uma ancestralidade
ou de uma sabedoria que vem direta de tempos imemoriais pode
ser atrativa, ainda mais com o preconceito que existe atualmente
mas, se não tratar-se da verdade, de nada valerá.
A lista segue indefinidamente... conceitos contradizendo outros
conceitos somente para dar uma aparência bonita, mesmo
que as mesmas pessoas que façam disso digam que o que
vale é o conteúdo.
Que conteúdo? – pergunto eu, quando o mesmo praticante
que se diz pagão muitas vezes nunca foi ao campo, isso
quando saiu da cidade. Eu nem falo em buscar florestas virgens
porque isso seria quase impossível. Que culto a natureza é esse?
Que neo-paganismo é esse onde o praticante ao invés
de ser ativo segue? Ao invés de buscar se aprofundar
contenta-se com meias verdades copiadas um sem número
de vezes?
A pergunta continua quando vemos pessoas dizendo seguir a
egrégora (sendo que muitas vezes nem sabem o significado
da palavra), invertendo celebrações e chamando
um verão de quase 30 graus de inverno; gente na internet
pedindo informações sem ao menos haver se dado
ao trabalho de procurar no Google (não digo em livros
pois creio que seria pedir demais); praticantes que somente
porque leram dois ou três livros já se acham mestres
capazes de montar e gerenciar um grupo (que chamam de coven)
para difedirem com outros sua ‘sabedoria’; gente
que apesar de se dizer neo-pagão, continua com os mesmos
conceitos e preconceitos cristãos de culpa e pecado,
de ser temente a deus.
E a coisa vai de mal a pior, pois apesar de lerem que é necessário
fazer as coisas com Vontade, com a Alma, com o Coração,
não somente para as celebrações, mas para
todo o dia-a-dia, pois no paganismo (e no neo-paganismo por
conseguinte) todo a universo é sagrado, assim como todos
os momentos, vemos o pagão reclamando das celebrações
que ele TEM que fazer (como se realmente elas fossem uma obrigação),
e fazendo-as como tal.
Mas é uma verdade, não é mesmo?! Para
que fazer um hidromel, que leva um ano inteiro para ficar pronto,
ou mesmo um vinho para o ritual, que demora cerca de dois meses,
quando se pode comprar um Chapinha ou um Chalise por R$ 3,00
reais num mercado próximo; para que se preocupar em
fazer biscoitos, um bolo ou um pão quando se pode comprar
baratinho um rocambole, não é verdade? Afinal
nos dias de hoje tradição e lixo é a mesma
coisa!
Como é? Se eu faço vinho para minhas celebrações? – Não!
Eu faço vinho para tomar quando eu quiser, INCLUSIVE
nas celebrações; faço biscoitos com receitas
vindas da Escócia ou da Irlanda especialmente para celebrações
de datas celtas não somente para minhas celebrações,
eu preparo comida com receitas do velho mundo para tentar sentir
o paladar do povo cuja cultura eu estudo, cuja sabedoria eu
busco, no dia-a-dia pois aprendi que todo momento pode ser
sagrado se assim o quisermos.
O texto não pareceu muito bonito ou glamuroso, não é mesmo? – O
que? Ele muitas vezes pareceu acertar em pontos fracos? Que
bom, pois esse era o objetivo. A verdade, afinal, muitas vezes
não é bonita, mas temos que enfrenta-la para
aprender, para evoluir. Mas para não sizerem que eu
não fiz uma coisa bonita, eu deixo vocês com um
velho ditado irlandes:
‘
Sé an t-uisge is éadomhuine is mo tormán.’ – O
que, você não sabe irlandês?! Ok, ok, eu
traduzo: ‘A água que faz mais barulho é a
rasa.’ |