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Gamilla El Hellua



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Salomé...

 



Há muitos anos minha professora de dança do ventre distribuiu entre suas alunas cópias do trecho de um livro. Na época, não dei atenção, não havia especificação do título ou menção do autor, atualmente lamento essa falta de referência para uma pesquisa mais aprofundada. É que como todas as outras alunas eu queria saber de dançar, aprender passos, queria agilidade. Considerava leituras e vídeos a embromação... Uma lástima, mas sempre é tempo de evoluir. E hoje aqui estou, faminta de fontes de pesquisa, indo às bibliotecas, assistindo vídeos, sempre aprendendo.

Estudando Laban, reencontrei o texto! Está na página 246 do livro Domínio do Movimento, publicado pela Summus Editorial. Rudolf Laban fala sobre a dança dos sete véus baseando-se nos apontamentos de uma jovem bailarina que havia executado uma dança baseada na história de Salomé. Salomé pediu a cabeça do profeta João Batista como prêmio para a dança que apresentaria a pedido do rei Herodes, da Judéia. De acordo com a jovem bailarina citada por Laban, esses apontamentos descrevem o que a jovem sentia enquanto dançava, ouvindo a cabeça de João dizer:

"Salomé! Quando vi teus olhos pela primeira vez, enrubesci. Não por causa de timidez ou vergonha, mas porque recordei o animal que sou. Minha auto-atenção, há tanto adormecida, foi despertada."

"Salomé, vejo-te tomar consciência de teu corpo, tuas pernas, teus seios, teus lábios. Em vão me dás as costas. Eu te vejo por todos os lados, à tua volta e dentro de teu sangue. Gostarias de ocultar teu corpo, mas onde o esconderias? Não suportas enfrentar meu olhar fixo - nem eu tampouco o consegui, quando te vi pela primeira vez. Abaixa os olhos e pareça tão desconfiada quanto o desejares, ou então olhe para mim com toda a altivez de uma rainha. Logo mais nossos olhos tornar-se-ão inquietos, como aconteceu com os meus, na primeira vez em que te vi."

"Esconda teu rosto em tua veste. Lança teu corpo ao chão e esconda tua cabeça. Eu não o fiz. Fiquei de pé, ereto, mas meu coração batia ansiosamente. Estava coberto de confusão; balbuciei e fiz movimentos desajeitados. Agora é a tua vez! Teus olhos brilhantes e tua conduta excitada mostram-me que já se foi a paz de teu espírito. As observações críticas e o ridículo com que tu te dirigiste a mim, quando te vi pela primeira vez, além do orgulho e da admiração para os quais tu mudaste com tanta frivolidade não foram tão tocantes como o é teu atento olhar, agora."

"Tu tremes, gostarias de afastar o meu fitar: em vão. Do mesmo modo que o teu olhar ficou em meu sangue quando te vi pela primeira vez, está agora o meu olhar em tuas entranhas. Tira o primeiro véu da minha cabeça. Era meu rubor. Ao ouvir tuas palavras bajuladoras e sentir tua aproximação, teu toque em meu braço, minha timidez se transformou em surpresa, esta em sobressalto, esta em estupefação. Minha mente não estava mais tão distante do terror."

"Mas não foram teus dedos que me terrificaram: foi minha própria pele. Erga teus braços cada vez mais alto, do mesmo modo que eu ergui as sobrancelhas. Abra as acariciantes curvas do teu corpo do jeito que abri meus olhos e boca, tomado pelo pasmo e pelo medo. Beba as novas de minha revelação em teus lábios, como eu bebi o perfume letal de teus seios. Fiquei estonteado e aterrorizado comigo mesmo. Estonteada e aterrorizada tu haverás de ficar com teu medo."

"Balança tua cabeça de lá para cá e bata em teu peito como fiz ao te ver pela primeira vez. Fica imóvel, incapaz de mover um membro sequer, tal como fiquei com meu crescente terror frente à vida. Lança fora o véu de meu rubor e pula; pula bem alto: tu não conseguirás escapar. Eu não pulei. Estava algemado por cadeias de ferro. Só meu coração pulava em meu peito, cada vez mais alto. E abri meus olhos, cada vez mais aterrorizado. Foi então que consegui enxergar, ver o que é que tanto me amedrontava."
"Minha testa estava enrugada. Tu me perguntaste por quê. Não pude responder. Meus olhos foram olhar coisas longínquas. Minhas narinas abriram-se junto com minha boca. Precisei de mais fôlego para escapar ao terror que chegava a mim, partindo do calor do teu corpo. O intenso frio em meus braços e pernas está agora invadindo tua carne: podes senti-lo? Meus músculos relaxaram mais e mais. Temi desmaiar, cair aos teus pés. Meu queixo caiu e sufocou-se em minha garganta o inaudível grito de alarme."

"Tu sentes meus dedos gelados em volta do teu pescoço? Chora, grita, urra! Eu não pude fazê-lo, quando te vi pela primeira vez. E ergui minhas mãos abertas acima de minha cabeça e toquei meu próprio rosto para cobri-lo, envergonhado de mim mesmo. Caí de joelhos, trêmulo - à tua frente - como jamais o houvera feito antes, salvo quando rezava. E orei para que eu parasse de sentir, de ouvir e de ver. Voa, fuja - se puderes - eu estou em toda parte. Tu estás te sentindo torturada e completamente enroscada: arrasta-te mais e mais perto de minha cabeça e despedaça-a completamente. Esse, o segundo véu é o véu de meu horror."

"Cresceu dentro de mim o desprezo por mim mesmo. Um nojo tal como se eu tivesse comido carne podre, tivesse cheirado o odor mais fétido, tocado a mais nauseante massa de cobras putrefatas, visto o rosto hediondo do nada. Engulhos e vômitos sacudiam minhas entranhas e eu ergui minha cabeça, curvei-a para trás e fechei meus olhos."

"Mostra teu mais profundo desprezo, tua majestosa arrogância, pequena Salomé, e olha para baixo, para onde está minha cabeça solitária, aqui no chão, aos teus pés. Mas tu não conseguirás estar tão desdenhosa em relação ao meu crânio quanto eu o estava de mim mesmo e de meu intercâmbio com tua paixão, ao ver-te pela primeira vez. Desfaça-o, empurra-o, amassa-o, acaba com este nó que te entrelaça e prende, tecido por meus braços invisíveis ao teu redor. Foi assim que me senti - lembra-te Salomé? - quando tentaste quebrar minha altivez pendurando teus macios braços ao redor de meu pescoço. Salomé, eu não senti desprezo por ti, então; desprezei, mas a mim mesmo."

"O desdém e o desprezo com que te afastei de mim foi a aversão por minha própria carne. Tu sentes, tu consegues sentir náusea de teu próprio e resplandecente corpo? Tu parecias culpada com aquele teu olhar furtivo. Mas era eu o culpado. Eram monstruosos minha vaidade e orgulho. E pousavam sobre ti essa vaidade e esse orgulho. Encolhi meus ombros ao abaixar a cabeça, ocultando meu segredo. Meus olhos inquietos não conseguiam suportar teu olhar ofendido. E procuraste abrigar-te na astúcia; voltando a cabeça para a direita e os olhos para a esquerda, na minha direção, tu maquinavas uma maneira de vencer meu orgulho; desconfiavas da minha firmeza. Tu interpretaste o meu encolher de ombros como aquiescência; Salomé, era submissão."
"Mas empertigada e cheia de ti como um pavão ou peru, tentaste olhar pra mim de cima para baixo, mas eu estava ainda mais no alto que tu, ainda mais altivo. Contraiu-se o meu pescoço e eu fiquei desamparado. Curvei-me para trás como um cão, pacientemente aguardando os golpes de seu amo. Tu me deste as costas, abandonando-me ao meu desprezo e ao nojo que sentia de mim. Erga, Salomé, o terceiro véu, o véu de meu orgulho quebrado."

"Meu desdém e ódio voltaram-se contra ti. A injúria sofrida por meu orgulho fazia meu pulso palpitar. Novamente corei. Meu peito alçou-se e minhas narinas tremeram. Como é que te rebelas contra ti mesma? É por não teres compreendido minha submissão? Tu odeias a tua própria e estúpida arrogância, tua falta de paciência? Vejo teus dentes cerrados. Sinto a vingança do insulto que me fizeste na tensão dos teus músculos. A rigidez que antecede ao ataque. Ataca tu mesma, erga teus braços, fecha os punhos, dê socos em ti mesma, apunhala-te. Joga-te ao solo e esmurra a terra. Ameaça os céus e rasga em mil pedaços, com gestos frenéticos e despropositados, tudo o que estiver ao teu alcance."

"Foi assim que procedi, vítima de minha violenta ira, quando tu me deixaste, Salomé. Eu estava rolando no chão, berrando, chutando, arranhando e mordendo meus próprios braços, ao invés dos teus, que haviam ido embora. Mas não era paixão por ti, Salomé. Era a paixão de meu orgulho ferido. Comecei a tremer e meus lábios petrificados recusavam-se a proferir as imprecações que eu desejara endereçar a ti. Meu sorriso forçado se transformou numa violenta risada de ódio. Minha mente estava obscurecida pelo desejo de matar-te e a mim. A natureza bruta despertada pelo teu toque me sacudia convulsivamente. Não é tu quem se balança para trás e para frente, Salomé. É a minha vontade trabalhando em teu corpo frágil, meu ódio selvagem de ti e de mim."

"Meus olhos esbugalhados perscrutavam a distância, esperando alcançar-te, absorver-te, assassinar-te com o fulminante olhar de minhas pupilas dilatadas. Mas, nada. Nada. Vácuo. E o lusco-fusco da noite que se aproximava fazia-se visível na solidão de minha cabana. Puxa-o, o quarto véu, o véu de minha ira e de meu ódio, Salomé"

"Recuperei minha compostura e vi-me sentado de sobrolhos abatidos. Senta-te, Salomé, e pensa, pensa, pensa na nossa perdida absorção um do outro. Pensa no eterno obstáculo entre nós, pensa em nosso amor-ódio. Tu estás perplexa, temerosa, perseguida pelos pensamentos que dançam em tua cabeça. São os mesmos pensamentos que dançavam em minha cabeça, quando recuperei a razão e comecei a meditar no que havia sucedido. Que é que havia acontecido exatamente? Nada. Uma criança que brincava havia acendido fogo; os prejuízos podem ser reparados. O fogo pode ser extinto." "Tu estás torcendo o nariz, Salomé. Tu não acreditas que consigamos extinguir o fogo? Covarde! Tu te abaixas, esse torcer de nariz está tomando todo o teu corpo. Tu estás encolhendo, desaparecendo! Salomé, Salomé, fique. Ainda não terminou. Terminará um dia? Pensa, Salomé, pensa. Parece que estás lutando para discernir algumas coisas distantes. Quais são elas? Seriam meus pensamentos que se encontrarão com teus pensamentos? Busca, Salome', busca."

"Tu fechaste os olhos. Tu não queres ver a luz. Mas dentro, Salomé, dentro, onde estou morando, eu, João, como se fosse um dragão numa caverna; na tua cabeça, Salomé, pega-o, segura-o entre tuas mãos, aperta-o, estourará. João, o dragão, estará livre, correrá para os céus e te deixará só, só sobre a Terra, só ma companhia de teu mau-humor, do teu desespero, do teu assassinato. E eu, em meu ódio, desejei te assassinar, Salomé. Meus olhos tornaram-se vazios, apáticos. A dor que tu tens aí dentro ergue tuas pálpebras descaídas. Tu levas a mão à testa, à boca, à garganta. Tu dobras os braços sobre teus seios. Estás com frio, Salomé? É o sopro gelado de meus suspiros que te faz tremer. Feia, feia é a vida, a morte. Feio é o nascimento, o amor. Mostra o descaso, afasta-te disso. Fora com tão amargos pensamentos, com idéias tão torturantes, fora com esse enxame de moscas"

"O quinto véu é o véu da minha alma meditativa. Quando despertei esta manhã, Salomé, soube que te amava. A pequena réstia de sol que furtiva tocava a parede de meu tugúrio fez-me levantar e esticar os braços em direção da luz. Meu coração estava repleto de contentamento. Erga os braços, Salomé! Dança! Dança e dança sem qualquer objetivo e sem pensar no porquê. Isto é alegria, alegria de viver, a alegria da ternura."

"Bata palmas, bata os pés, ria! As crianças sempre riem quando estão brincando! A risada sem sentido à melhor risada. E foi assim que ri quando soube que te amava! Os sorrisos, os risinhos à toa, de pura felicidade, quando se sente a suprema carícia da vida, esta é que é o verdadeiro sentido da existência. Nunca antes eu o soubera, desde minha infância eu jamais dera uma risada. Que louco eu fui! E, enquanto era criança, ficava do lado de fora da brincadeira dos outros, coisa que eu não conseguia enxergar. Não entendia por que eles riam. Mas agora eu sei. Tu me ensinaste a rir. Tu libertaste minhas enrijecidas articulações. Desejei que caíssem as algemas de meus punhos e tornozelos. Não porque eu desejasse ser livre, mas porque eu queria dançar."

"Mas não é doloroso o sacudir de teu corpo? Doloroso como o são as convulsões da morte? A vida e a morte sempre estão lado a lado, Salomé, dois gêmeos inseparáveis e tu me enviaste o outro. Mas tudo isso não adianta nada, Salomé, pois as solas de teus pés tocam delicadamente o chão sobre o qual jaz imóvel e inerte a minha cabeça. Não toque este solo aterrorizante que bebe meu sangue! Não o toque! Teus delicados pés poderiam ficar manchados de sangue. Sacuda e enrola os dedos dos teus pés e cessará o erguer espasmódico de teu peito. Não é medo, Salomé. Não é o terror da minha morte que contrai teus dedos. É o riso! É o amor!"

"As ilusões da tua riqueza, da tua posição social, da tua grandeza se desmancham em ti como eu desejara que se desmanchassem em mim as minhas algemas. Tuas coxas tremem prenunciando os saltos e vôos a que darão surgimento. Teus olhos claros e brilhantes iluminam intensamente teu rosto soerguido. Não te incomodes com meus olhos fechados! Mas fecha também os teus, Salomé, para o último êxtase."

"Tu tens vontade de tocar a minha odiosa cabeça. Aproxima-te, Salomé. Aproxima-te, terna e suave. Teu ajoelhar humilde, tuas mãos voltadas para cima, e o unir das tuas palmas mostram-me tua devoção. Chega mais perto, Salomé, mais perto de mim, mais perto ainda, e leva embora meu sexto véu, o véu de meu amor."

"Após meu paroxismo de alegria, vi os dois soldados descendo até minha cabana. Que será que trazem? A liberdade que tu me prometeste se eu te beijasse - eu não o fiz - e que estou louco para fazer; terias estado a ler meu coração? Jamais me defendi. Era muito orgulhoso e a vida me parecia sem valor. Mas agora, quando um dos soldados desembainhou sua espada - eu o compreendi - lutei violentamente, freneticamente, por minha vida."

"Mas meus olhos ficaram embaçados, ao pensar em ti, em tua juventude insensível e repulsiva e meu corpo estirou-se pela última vez, como eu desejara ter-me estirado na luz, fora do meu abrigo, para ver-te, Salomé, uma última vez. Quando tu vieres retirar o último dos véus, verás o arco inquiridor formado por minhas sobrancelhas. Estarão te perguntando: 'por quê?' Elas se congelaram nesta posição abarcando a última visão do terno arco formado por teus seios. As ondas das rugas que se estendem ao largo de toda a extensão de minha fronte são de ondas congeladas de um oceano de amor."

"Bata uma na outra as tuas mãos semifechadas, ritmicamente, sem te interromperes, interminavelmente, como se para todo o sempre. É a batida do tempo que cessou a jornada através de meu coração. Trabalha, trabalha com teus músculos tensos, durante todo o tempo em que viveres. Meus músculos também estão enrijecidos, mas não posso mais trabalhar. Não me movo mais. Os cantos de tua boca estão descaídos, como se padecesse de nojo, ansiedade e desprezo. Curva teu pescoço. Minha orgulhosa princesa, por que esses golpes selvagens, tão diferentes da tua dança de contentamento, saltitando sobre a terra como as folhas de uma tempestade de outono? Tu sentes meu desespero? Não o desespero de morrer, mas o desespero de não mais te ver..."

"Chora, Salomé, e mistura tuas lágrimas ao meu sangue. Que possa viçar em teu coração a mais rara das flores da Terra: a verdadeira compaixão. Salpica o germe desta flor com o fluxo da vida de nós dois juntos, com tuas lágrimas e com meu sangue.”
“E agora, Salomé, erga o último véu, o sétimo, com cautela e suavidade, o véu de meu desespero, e enterra meus lábios mortos entre teus seios em botão."


Publicado em 04.04.2009

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