A POSTURA SACERDOTAL
Por Dayne Anglius.
Durante todo o tempo em que fui treinada para tornar-me sacerdotisa o
que eu mais ouvia é que o conhecimento, a habilidade e a postura são
as três coisas mais importantes que um sacerdote pode possuir para
merecer respeito e agir corretamente dentro de seu ofício. No inicio
eu entendia perfeitamente a necessidade de se possuir conhecimento e
habilidades, mas não compreendia muito bem porque a postura era tão
importante. Claro que entendia a necessidade de um bom comportamento,
mas os meus sacerdotes diziam que a postura era ainda mais necessária
que o conhecimento e habilidade. Por muitos anos refleti sobre isso,
analisei os fervorosos debates nas comunidades e fóruns, assisti
palestras de diferentes personalidades pagãs e constatei que eles
estavam certos; a postura é muito mais importante que possuir
habilidades e conhecimentos diversos.
Escrevo a minha primeira coluna nesse portal com tal tema por ter
visto ao longo dos anos que a grande maioria dos ditos sacerdotes
pagãos não possuem sequer um terço do comprometimento,
responsabilidade e maturidade necessários para que sejam respeitados e
vistos como clérigos sólidos e não motivos de chacotas.
Quantas pessoas nós vemos nas comunidades pagãs internet afora ou em
eventos que se definem sacerdotes e falam mal, menosprezam, agridem e
desdenham dos sacerdotes de outras religiões, das outras religiões,
dos novatos pedindo ajuda e até mesmo dos próprios sacerdotes de sua
fé? Eu me pergunto como as religiões pagãs podem ser respeitadas e
levadas a sério quando aqueles que se definem epresentantes dessa fé
são motivos de chacota tanto dentro como fora de suas comunidades.
O que eu tenho visto de mais gritante está ligado à religião Wicca,
uma religião de crescimento constante em todo o mundo que possui uma
imagem muito distorcida e confusa daquilo que ela realmente é. Vemos
ditos sacerdotes wiccanianos que quando indagados sobre coisas simples
da religião não sabem responder ou respondem errado, que não auxiliam
os novatos, que são extremamente grosseiros e se consideram detentores
de um status de superioridade inexistente.
Quando converso com cristãos, espíritas ou ateus vejo surpresa nos
olhos deles quando digo que sou pagã, não por ser pagã em si, mas
porque eles não acreditam que uma pessoa “tão normal” possa fazer
parte de um contexto religioso tão “bobo e sem alicerces”. Pois é isso
que as pessoas de outras religiões pensam de nós quando não são
agressivos pensando que adoramos o diabo ou coisa do gênero.
O preconceito e a falta de mérito que recebemos por parte das outras
culturas religiosas é culpa nossa. É culpa da nossa arrogância, das
nossas guerrinhas internas por status e “títulos”, é culpa da nossa
falta de profundidade no conhecimento adquirido, da nossa leviandade
com as palavras e acima de tudo é culpa da nossa falta de postura como
religiosos e sacerdotes.
Por sermos pagãos nossa visão de certo e errado difere bastante das
religiões abraâmicas, não possuímos um rígido código de “moral e bons
costumes”, não possuímos a crença em pecados e tampouco somos
regulamentados por um papa ou dirigente similar. Mas ainda assim
possuímos ética, responsabilidades e crenças que nos remetem a um
comportamento social adequado. O Paganismo prega a liberdade, não a
libertinagem. E é sob esta égide que baseio meus argumentos sobre esse
tema.
A postura sacerdotal compreende não só o comportamento social como
também é um reflexo direto do comprometimento, ética, sabedoria e
maturidade que o sacerdote possui e atribui a sua comunidade
religiosa. Para construir tal postura é preciso desenvolver um estudo
e vivencia profundos sobre suas crenças pessoais em relação às crenças
de sua religiosidade. É necessário conhecer diferentes temas e possuir
um bom desenvolvimento em suas práticas, podar as atitudes e palavras
ditas e o mais importante, é preciso respeitar tudo e todos para que
assim possa também ser respeitado.
Ser gentil, prestativo e atencioso é uma obrigação de qualquer
sacerdote, se não está com tempo ou paciência para responder uma
dúvida ou debater algum assunto com alguém simplesmente peça licença,
diga que responde outra hora e saia. Não é preciso ser arrogante ou
grosseiro. Atitudes simples como essa mudam completamente a forma como
somos vistos frente à sociedade. Evitar comportamentos chamativos
demais, evitar o uso excessivo de palavrões e gírias, manter-se
informado sobre os acontecimentos da comunidade e estar sempre
estudando e desenvolvendo reflexões sobre suas práticas e crenças é
essencial para o sacerdócio.
Essa postura não se constrói de uma hora para a outra e tampouco é
adquirida em rituais ou com iniciações, essa postura é construída e
podada com o tempo através de nossa dedicação em sermos, de fato,
merecedores do cargo de representantes de um culto e receptáculos
sagrados dos nossos deuses. Praticantes imaturos, sem fé e ignorantes
quanto à história, liturgia e crenças de sua religião não são e nunca
serão sacerdotes. Por isso, peço a todos os buscadores e praticantes
que lêem esse artigo: desenvolvam uma correta postura sacerdotal,
sejam realmente merecedores do sagrado ofício de representar os deuses
e a fé pagã.
Um feliz e prospero caminhar a todos.
Abraços,
Dayne Anglius.
QUEM SOU EU:
Artesã e escritora, Dayne Anglius é uma estudiosa das culturas pagãs
européias e desde sua adolescência optou por seguir o paganismo como
religiosidade. Tornou-se sacerdotisa de um pequeno caminho voltado a
cultos do mediterrâneo com foco na Grécia. Desenvolve pesquisas e
auxilia novos buscadores através de seus textos no portal Old Religion
(sendo representante do mesmo), de seu fórum e em diferentes
comunidades, eventos e projetos.
Amante da mitologia Grega vem ao longo dos anos desenvolvendo grupos
de estudos e palestrando sobre o tema em importantes projetos como os
Encontros Sociais Pagãos do Rio de Janeiro e Niterói. Tendo também
participado do ESPão, ou ESP-Brasil e auxiliando na organização do dia
do orgulho pagão do Rio de Janeiro. Junto com o Stand da Loja Virtual
do Site Old Religion participa já a alguns anos da CWED, Conferência
de Wicca e Espiritualidade da Deusa, organizada pelo escritor
Claudiney Prietto e voltada à comunidade Wiccana. Reside na cidade de
Maricá no estado do Rio de Janeiro.
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