Escrever sobre a Wicca é uma tarefa que encaro com muito carinho pois meu encontro com a Sagrada Arte da Deusa ajudou a formar minha identidade. Há muitos anos a Wicca vem sendo discutida e divulgada e com isso ganhando novos contornos, como tudo que está em construção. Teve sua origem, seu ápice e terá seu fim, apenas não sabemos quando será.
Existem várias formas de se compreender e viver a Wicca e a Bruxaria, mas a principal para o praticante é seguir a que vai de encontro ao seu coração, pois se não houver sentimento e crença na sua prática não obterá resultados a partir dela. Religiosidade não é um assunto que se resolva apenas com o uso da razão, por isso argumentos lógicos e históricos muitas vezes não solucionam dúvidas sobre questões de fé.
Frustra-se quem tenta explicar e aborrece-se quem era para ser esclarecido. Então, acredito que o melhor é conversar sobre o assunto, sem muita pretensão e vamos ver sobre qual Wicca iremos falar, pois existem várias. Eu conheço apenas algumas.
Identifico formas de Wicca em algumas obras de arte, como no filme do cineasta Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut, “De Olhos Bem Fechados”, por exemplo. Não é a que eu sigo, mas está ali. Será que algum seguidor ou divulgador não a identifica, a nega ou rejeita ali por não ser a sua linha? Acredito que sim, mas eu não. Afinal, sou Bruxa de Tradição Eclética.
Alguns acreditam também que a Wicca é uma Religião simples, eu não acho. Acho que temos que passar o que sabemos de uma forma condensada, mas nada é tão fácil quando se vive na prática.
Certamente não passaria a visão do Kubrick em um programa da tarde, mas jamais diria que aquilo não é familiar a determinados segmentos da Wicca. Acho que seria hipocrisia. E a melhor forma é fazer como ele fez, linda e sutilmente em uma obra de arte. Demoliu um casamento, mas aí, é outra história...coincidências, conseqüências.
Se o sentimento religioso e a fé são inerentes a toda sociedade conhecida, e a Religião é estudada como fenômeno social, o que uma religião como a Wicca demonstra sobre a sociedade que foi criada? E o que ela demonstra sobre a nossa sociedade atual onde ela chegou causando tanto impacto?
Uma religião que diz que você pode fazer o que quiser desde que não faça mal a nada nem a ninguém, em um ambiente no pós guerra na Europa de Gardner nos anos 50; nos anos 60 nos Estados Unidos e no Brasil dos anos 90. O que estas sociedades podem ter em comum para o florescer de tal filosofia?
A linguagem não patriarcal da Wicca ainda que levada a público por expoentes do sexo masculino, como o já citado Gerald Gardner, e outros como Alex Sanders e mais tarde o mais libertário e único criador de Tradições-tronco pós-gardnerianas ainda vivo Raymond Buckland, atrai pela flexibilidade em usos e costumes, inclusive de ordem sexual e de foro íntimo; afinal, a maioria das demais religiões impõe determinados limites enquanto que a Wicca os remove. Ou, pelo menos, tenta.
A liberdade proposta é em todos os níveis, mas a própria ritualística denota a importância da sexualidade na relação Divina entre a Deusa e o Deus. Daí já se explica um certo interesse maior despertado, tanto pelos melhores e mais nobres motivos, tanto pelos mais escusos, também, infelizmente. Afinal, sexo&religião não são temas distantes dos delírios de qualquer louco que encontremos nas praças à toa. Estas duas energias movem a psique humana como poucas; na seqüência, temos o binomio dinheiro e poder.
Voltando ao filme do Kubrick e suas possíveis conseqüências ou quem sabe reflexos na vida real, questiono, como ele, será que é possível fazer tudo o que quiser sem causar mal a nada nem a ninguém?
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