
Na mitologia grega, é famosa a história de Orfeu e Eurídice. Ele é filho de Apolo e da ninfa Calíope, agraciado com o dom da música e presenteado pelo pai com uma lira, de onde tira os melhores sons.
Apaixonados, pretendem se casar. Chamam Himeneu, o deus filho de Vênus que preside os casamentos, para fazer a cerimônia. O mau agouro já começa aqui, porque a chama da tocha de Himeneu apaga e a fumaça faz os olhos dos noivos lacrimejarem.
Por aí já se anunciava o que viria quando, ao fugir das investidas do pastor Aristeu, Eurídice foi picada por uma cobra e morreu.
Desesperado, Orfeu desce aos domínios de Perséfone e Hades. Pega a barca de Caronte e, ao chegar na presença dos reis do submundo, pega sua lira e canta:
"Ó divindades do mundo inferior, para o qual todos nós que vivemos teremos que vir, ouvi minhas palavras, pois são verdadeiras. Não venho para espionar os segredos do Tártaro, nem para tentar experimentar minha força contra o cão de três cabeças que guarda a entrada. Venho à procura de minha esposa, a cuja mocidade o dente de uma venenosa víbora pôs fim prematuro. O Amor aqui me trouxe, o Amor, um deus todo-poderoso entre nós, que mora na Terra e, se as velhas tradições dizem a verdade, também mora aqui. Imploro-vos: uni de novo os fios da vida de Eurídice.
Nós todos somos destinados a vós, por essas abóbadas cheias de terror, por estes reinos de silêncio, e, mais cedo ou mais tarde, passaremos ao vosso domínio. Também ela, quando tiver cumprido o termo de sua vida, será devidamente vossa. Até então, porém, deixai-a comigo, eu vos imploro. Se recusardes, não poderei voltar sozinho; triunfareis com a morte de nós dois”.
As palavras e o som da lira de Orfeu comoveram todo o mundo avernal. De acordo com o Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch, fantasmas choraram, a águia parou de comer o fígado de Prometeu e até as Fúrias tiveram suas faces molhadas por lágrimas. Emocionada, Perséfone concorda com a ida de Eurídice com Orfeu, mas sob uma condição: que ele não olhe pra trás e não fale com ela em nenhum momento até que saiam dos domínios de Hades.
Orfeu então parte na frente, com Eurídice atrás dele. Quando estão quase chegando ao “mundo superior”, Orfeu, em sua ânsia de estar com a amada e para ter certeza de que ela continua seguindo, olha pra trás. Com esse gesto, perde Eurídice novamente. Ela volta ao mundo dos mortos.
O filho de Apolo chora, se desespera, tenta voltar ao Hades, passa sete dias na frente do rio Estige, pedindo passagem para o Caronte, sem conseguir. No momento em que percebe que não haverá uma segunda chance, Orfeu vai embora, acusando as divindades avernais de crueldade.
Contei a história para quem não a conhece para que possa tocar no assunto-chave desse artigo, a confiança nos deuses. Quantas pessoas, de repente você mesmo inclusive, você não conhece que fazem rituais de prosperidade, de amor, de saúde, entre outros tantos, e caem nos erros de Orfeu?
Para mim, são dois:
- o primeiro é não ter confiança no que a divindade lhe prometeu. Em nosso caso, não precisa necessariamente ser ouvida pela voz do deus. Pode ser um sonho, um sinal, uma oportunidade que nos chega... e a gente não entende ou não ouve as palavras da divindade para quem pedimos ou fizemos o ritual. Desconsiderando essa mensagem, perdemos a oportunidade de termos o que tanto queremos.
Essa falta de confiança pode também representar falta de auto-estima. Ao pedir algo para uma divindade, será que realmente acreditamos que podemos ter aquilo? Um emprego melhor, mais dinheiro, um amor de verdade? Acho que é uma coisa importante de se ter em mente, porque a gente pode não conhecer todos os cantos escuros do nosso ser, mas os deuses conhecem. Principalmente aqueles mais ligados a nós, aqueles a quem cultuamos.
Talvez naquele momento Perséfone soubesse que Orfeu não daria conta. Por isso permitiu a saída de Eurídice dos seus domínios. Talvez a única coisa que Perséfone esperava de Orfeu fosse a confiança. Confiança nela e em tanto amor que cantou. Que suas palavras fossem traduzidas em atos.
- o que me leva à segunda observação. A que, assim como Orfeu, quando fazemos uma oração, ou um ritual aos deuses, quando pedimos de todo o coração, também temos que fazer a nossa parte. Não adianta escolher a lua correta, o dia da semana certo, os elementos adequados, a oferenda perfeita, fazer a mais linda oração possível, alcançar o deus por intermédio da devoção e da fé, se não fizermos a nossa parte.
Qual é a parte que nos cabe, é com cada um, em cada momento. Mas ela existe. Nem que seja simplesmente ter a paciência necessária para que as coisas aconteçam. Ou mandar seu currículo para os lugares que considera bons para trabalhar. Ou sair na rua com a melhor roupa e o melhor sorriso para ver e ser visto, para dessa forma encontrar uma cara metade. Não importa, precisa ser feito. Precisamos dar a nossa cota de trabalho, assim como a divindade dá a dela.
Dessa forma, o fim da nossa história será diferente da de Orfeu.
Falando nisso, o fim do mito é o seguinte: ele passa o resto de sua vida tocando a lira e se lamentando pela perda da amada. Não aceita o cortejo de nenhuma donzela, não se casa com ninguém.
Um dia, enfurecidas com tanta lamentação e descaso, as Mênades despedaçam Orfeu e jogam sua cabeça e sua lira no rio. As Musas então juntam seus pedaços e o enterram em Limetra onde, de acordo com a lenda, o rouxinol canta sobre seu túmulo de forma mais suave que em qualquer outro lugar da Grécia. Zeus colocou sua lira entre as estrelas.
E ele, morto, finalmente encontra Eurídice. Agora, nos domínios de Perséfone, podem viver seu amor.
O mito também foi inspiração para uma crença, já nos tempos tardios do Helenismo: o orfismo, na qual os fiéis ligavam a volta de Orfeu do Hades com a possibilidade de reencarnação. Mas isso é tema para outra conversa.
Fonte: “O livro de ouro da mitologia”, de Thomas Bulfinch, Ediouro, 2000.

Imagens tiradas dos seguintes sites informados pelo Google:
portas-lapsos.zip.net
justmysadness.zip.net
E do site “Art of the empath"
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