Sempre penso no conceito de liberdade. Me parece uma idéia utópica, um estado de absolutamente nenhuma necessidade, no qual tudo o que se precisa está dentro de nós. Livre, não preciso me preocupar com o que o outro está pensando, da mesma forma que não teria a necessidade de convencer o outro de que minha linha de raciocínio está correta.
Também não necessitaria amor, porque teria o suficiente dentro de mim, da mesma forma que não iria atrás de dinheiro, pois necessidades materiais não seriam mais difíceis de ser atendidas, por serem poucas.
Por isso disse ali em cima que me parece uma idéia utópica. Um tanto quanto budista.
Mas por que não procurar sempre a perfeição, não é mesmo?
Pois então, o que isso tem a ver com as Tribos de Gaia? Ah pra mim, muita coisa, porque liberdade também passa por liberdade religiosa.
O termo me parece um pouco deturpado em sua essência, porque religiões não são necessariamente livres. Existem dogmas, leis, regras que criam um espaço no qual você exerce sua fé, mas dentro de um determinado limite.
E será que nossa fé deve ter limitações?
É certo que o ser humano necessita de regras, de limites. Não sendo assim, como seria a vida em sociedade. Sem as leis, o certo e errado, o bom e o mau, nosso intelecto não teria se desenvolvido tanto, nosso lado animal seria o comandante e... bem... olho por olho, dente por dente e essas coisas todas seriam bem presentes em nossa vida.
Mas quando falamos de espiritualidade, não tenho muita certeza de ter que seguir o mesmo raciocínio. Vejo a espiritualidade como algo muito pessoal, afinal de contas lida com o espírito, essa parte do nosso ser que mora dentro do corpo. Sendo assim, tem seu canto e convive com o mundo material de forma indireta, sendo responsável por uma parte da vivência, mas não necessariamente das ações.
Pra mim o espírito convive conosco e é o grande mestre/aluno. Ou seja, ele se comunica através do nosso intelecto, das nossas emoções e do nosso corpo. Com ele, nossa existência aprende muito, e ele aprende também muito com a nossa existência, visto que é pra isso que está aqui, para melhorar, progredir, se desenvolver. Suas recordações, que não são exatamente as nossas, alimentam sutilmente essa cadeia de aprendizado e ensinamentos.
Sendo o espírito algo tão individual, por que a visão da vida espiritual das pessoas devem ser as mesmas? Ou parecidas?
Podem ser claro, cada um está aí para seguir a vida como acha melhor ou como pode, mas me parece um pouco incoerente eu pensar em Perséfone do mesmo jeito que você. Também me parece complicado achar ruim com você se sua visão de Perséfone seja diferente da minha. Isso para exemplificar.
Se essas questões são pertinentes, então por que é tão difícil para nós respeitarmos a forma do outro enxergar o divino e a forma de chegar a ele? Por que precisamos convencer as pessoas de que nossa forma está correta e a do outro, errada?
Ta, tudo bem, existem bizarrices também. Já ouvi e presenciei algumas. Mas aí são outros quinhentos. E também podem nem ser. Que diferença faz para Ares, por exemplo, se ele é chamado de Ares, Marte, Ogum ou São Jorge? Sei lá, se eu fosse um deus... nenhuma...
O que eu quero dizer com isso tudo é que somos livres para entender nossa espiritualidade como achamos melhor. E a vivenciarmos como acreditamos ser a maneira correta para a nossa própria evolução, autoconhecimento e paz de espírito. E a aprender a ter responsabilidade por nossos atos religiosos, espirituais e mágicos, porque a Lei do Retorno existe, podem acreditar.
Essa liberdade é conquistada com estudo e prática, aliando os dois você tem capacidade de pensar, separar o que interessa do que não interessa e utilizar o seu conhecimento em benefício próprio e para o bem geral e de quem você ama.
Me lembro de quando estava na faculdade. Tínhamos que fazer um trabalho sobre diversos movimentos culturais brasileiros. Um grupo de alunos fez sobre a Tropicália. Eles fizeram as pesquisas, entraram no clima do movimento e resolveram não entregar o material dentro das normas acadêmicas da faculdade (tipo de letra, espaçamentos, parágrafos etc).
Mesmo tendo um conteúdo ok, nosso professor baixou consideravelmente a nota deles por terem desrespeitado essas normas em prol do anarquismo conhecido no tema do trabalho. A justificativa dele? Que era preciso conhecer muito bem uma regra, entender seu funcionamento, o motivo dela existir, para poder subvertê-la.
É por isso que ali em cima eu falei sobre estudo e prática como ferramentas para a liberdade religiosa/espiritual. Porque é conhecendo aquilo que você quer cultuar, a forma de fazê-lo, os fundamentos de cada prática e aí fazer, seguir mesmo a receitinha de bolo por um tempinho, que será possível pensar: “hummmm, e se eu, ao invés de acender esse incenso de rosas pra Afrodite, juntar diversas pétalas de rosa, colocar um perfume e queimar no turíbulo (ilustração apenas, pessoal!)?”
Sempre com responsabilidade, proteção e respeito.
Acredito mesmo que num primeiro momento é extremamente importante ter um guia. E aí você precisa saber quem é a pessoa e como ela vai trabalhar com você. Mas acho que depois de um tempo todos precisamos ficar sozinhos conosco e com nossas divindades, para conhecê-las melhor e ser conhecidos por elas.
Para silenciar e aprender com o que já foi feito. Para experimentar possibilidades, acertar e errar e levantar a cabeça e tentar de novo.
E aí um dia, quem sabe, voltar tudo de novo, procurar outro mestre, outro grupo, outras formas de ver o que vai dentro de você e como isso espelha do lado de fora... Ou não... são inúmeras as possibilidades!
Seu caminho espiritual é só seu. De mais ninguém. É difícil pra qualquer pessoa entender isso, inclusive nós mesmos. Mas no fim das contas, essa é a grande verdade...
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