Quando comecei a estudar bruxaria, tinha um pensamento: que pessoas que trabalhavam a espiritualidade não tinham mais grandes problemas. Que conforme o tempo fosse passando, eu me tornaria uma espécie de mestre zen.
Nada mais me atrapalharia, tiraria meu sono, me faria chorar. Forte como uma rocha, eu seria profundamente intuitiva e saberia com antecedência o rumo da minha vida, flutuando por ela.
A realidade se tornou bem diferente.
Talvez fosse o caso de ter procurado o budismo e me tornado monja.
Mas é que eu prefiro mesmo a agradável companhia dos deuses antigos.
Deuses que amam, odeiam, sofrem, mentem, enganam, sorriem, julgam, morrem, nascem. Tudo como nós.
De onde vinha essa minha idéia pré-concebida?
Talvez dos livros, dos filmes (embora aquela menina do "Jovens bruxas" tenha ficado completamente louca no final, hehehehe), talvez do conceito de esotérico e do controle das emoções para que a vida seja feliz. Não importa. O que é certo é que as coisas definitivamente não caminharam para esse lado.
Me levaram, isso sim, para um constante exercício de construção e desconstrução do meu "eu". É a frase de Apolo no Oráculo de Delfos: "conhece a ti mesmo", pura e simplesmente. Conhecer a gente é o canal, é a chave, é tudo.
Já deve ter ouvido a frase "quando eu acho que tenho as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas". Acho que é mais ou menos isso mesmo. Quando tudo está certo, sedimentado, vem o raio de Zeus e derruba tudo. É meio como o arcano XVI do tarô, a Torre.
E todas as vezes, temos que estar preparados para reconstruir, nunca abalando nossa fé em nós mesmos e em quem nos acompanha em todos os momentos.
Mas nem só de mortes e recomeços vivemos não é?
Tem o dia a dia também, de contas pra pagar, pessoas para conviver, empregos pra tocar, casas para organizar. Enfim, pagãos são pessoas comuns. Se soubesse disso aos 18 anos, ficaria realmente surpresa.
Mas ao chegar aos 34 fazendo diversas coisas novas e diferentes por mim mesma, sinto que é esse o caminho: desbravar uma estrada difícil, mas que temos certeza de que é o caminho certo, para depois ver que estava errada, voltar e começar por outra. Mudar de idéia de vez em quando, só para exercitar a flexibilidade. Trabalhar os aspectos da nossa vida que nos atrapalha, seja com terapia, consultas xamânicas, tarô ou uma boa vela no altar. Melhorar alguns dias, piorar outros, chorar um tanto, rir mais.
Da mesma forma que nossos deuses. Todos os dias.
Publicado em 11.11.2007
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