Durante muito tempo eu li nos livros da Marcia Frazão (que eu AMO) sobre os utensílios da cozinha. A primeira vez foi lá atrás, quando eu era ainda filhote de bruxa. Sempre achei tão lindo imaginar que uma bruxa tem horta, tem colheres de pau, tem panelas especiais etc.
Achava isso tão longe da minha realidade! Foram só alguns anos depois que eu decidi comprar minhas próprias colheres. Mas ainda as usava tão somente nas panelas convencionais. No fundo, pensava que era a mesma coisa qualquer panela, afinal, panela é panela.
Até que um dia, ano passado, eu comprei uma panela de barro no mercado municipal de BH. Voltei com ela na mala, pesando o caminho pra casa.
Ela ficou lá na mesa da cozinha, como um lindo enfeite, durante uns dias. Aí um amigo foi em casa cozinhar e resolveu prepará-la para a vida. Queimou seu interior e fez um prato nela. Não lembro qual foi, mas estava bom.
E a panela de barro foi ficando, olhando pra mim, me convidando. As colheres de pau por ali, sempre sendo usadas, em todas as ocasiões.
Um dia comecei a usá-la. Mas nossa intimidade ainda não foi assim de cara. Fomos nos conhecendo primeiro. Eu já sabia de seu capricho de demorar pra esquentar e demorar pra esfriar. Já tinha queimado um mingau de Dionísio (receita da Márcia) uma vez, numa panela alheia.
Então fomos nos conhecendo, eu, a panela de barro e as colheres de pau. Um dia uma berinjela com molho, outro uma carne com vagem... e assim fomos.
Mas a minha iniciação se deu mesmo quando resolvi fazer polenta. Tudo bem, já fiz isso antes nas panelas normais. Mas nesse dia, a de barro piscou pra mim. Então eu fiz a polenta nela. Pronto. Como passe de mágica, eu entendi tudo.
Estava eu lá, mexendo a polenta, mexendo, mexendo, mexendo com a colher de pau. Olhando aquela mistura ficando bonita, cozida. Esperando soltar da panela. Então o calor invadiu meu ventre, que estava próximo à panela.
Primeiro, um quentinho suave. Depois, quando fui perceber a coisa toda, já estava um quente mais inspirador, que ia subindo do ventre para o resto do corpo e se estendendo pelos braços e descendo para as mãos que seguravam justamente a colher de pau.
Dizem que numa cozinha ela é a varinha mágica.
Concordo plenamente.
Assim, na animação desse ciclo, eu terminei de fazer a polenta. Para na mesma panela, inclusive com as sobras da polenta, fazer o molho.
A comida ficou boa, a sensação de fazê-la foi melhor ainda.
Mesmo cozinhando há muito tempo, mesmo gostando de fazê-lo há muito tempo, nesse dia eu entendi perfeitamente os segredos da cozinha da bruxa...
É a transmutação do alimento sim. É a criação de algo novo pela mistura de diversas coisas. É também a sua energia nisso tudo. E todas essas coisas misturadas em uma panela de barro, com uma colher de pau e um ventre, tudo isso junto, isso é magia das boas! |