Como você chamaria uma mulher que se diz bruxa, cultua particularmente o panteão grego, sem ser helenista e que freqüenta um coven que segue o panteão egípcio?
Uma salada né? Mas esta sou eu. Gosto de pensar no neopaganismo como uma deliciosa salada colorida, com multifaces, com várias possibilidades. O básico é similar: autoconhecimento, despertar do poder interno, culto aos deuses antigos, profundo respeito ao divino feminino e à natureza e, de preferência, leveza e bom humor.
Uma das vantagens que temos ao nosso favor é a quantidade de informação existente sobre os mais diversos panteões e estilos de vida daqueles que nos precederam no culto aos deuses antigos. Podemos escolher quais divindades cultuar, se uma, duas ou várias do mesmo núcleo ou até mesmo de diversos.
Ao pensar neste tema, me lembrei de quando comecei meus estudos sobre bruxaria. Era início da década de 90 e a quantidade de literatura disponível ou pessoas para conversar era pequena. Porém, a liberdade de culto era mais respeitada. De repente, as coisas ficaram mais estruturadas, mais livros à disposição, mais organização de rituais. Eu acho isso tudo excelente. Mais espaço para o neopaganismo é mais do que bom, é nosso direito de culto sendo realizado.
Mas como tudo em nossa vida e crença, há o outro lado.
A opção por uma tradição específica, com regras e dogmas preestabelecidos é um dos caminhos a seguir. Mas o que acontece quando um neopagão não quer seguir normas? Problemas? Em primeiro lugar, a falta de um rótulo incomoda. "Ah, mas então você não é wicca, é bruxa!"; "Ah não, se você cultua um casal sagrado e trabalha com a roda do ano, não pode ser chamada de bruxa, porque bruxaria é só a tradicional. Você é wicca!". E por aí segue a tentativa de colocar uma etiquetinha em sua linda e colorida vassoura!
Tais situações vivem ocorrendo por aí. Eu já vi e eu já passei por elas. Há em algumas pessoas a necessidade de colocar vida, amor, crenças e tudo o mais em potinhos coloridos para deixar à vista em prateleiras, prontos para o consumo. Talvez seja assim que a maioria veja a vida e, mesmo quando tenta escapar, muitas vezes procura uma outra forma de adequação. Uma fôrma onde se acomodar.
Acredito que o neopaganismo, em qualquer uma de suas diversas vertentes, seja um dos caminhos espirituais mais difíceis dentre os disponíveis. É algo pessoal, que vai mudar sua vida se você deixar, vai abrir sua percepção para algo maior do que seu cérebro pode encaixar. E tentar moldar isso em uma caixinha pode tirar uma parte do grande barato dessa experiência.
"Fundamentalismo neopagão" é para mim uma das piores coisas possíveis dentro do que nos propomos ao escolher este caminho. Pessoas já torceram o nariz para a forma como eu trabalho e talvez você que me lê faça a mesma coisa. Outras torcem o nariz para quem pensa na coisa toda como uma filosofia de vida e a encaixa em outras crenças.
Não sou contra tradições já existentes, caminhos percorridos por outros. Sou contra formas de controle. Sou contra pessoas que dizem o que é certo ou errado para os outros. Que querem que todos se moldem ao que lhes convém.
Não enxergo o controle como uma forma legítima de se organizar o neopaganismo no Brasil. Não acredito que dizer "ah, você não é um sacerdote porque é autoiniciado", ou qualquer outra dessas famosas frases que ouvimos por aí, ajude alguém a crescer dentro do culto aos deuses antigos.
Seria isso tudo culpa do momento histórico, que compreende uma exacerbada valorização da aparência, em todos os níveis? Será correto formalizar demais o que é essencialmente livre?
Deixo essas questões aqui. E para aqueles que torcem o nariz para a nossa liberdade neopagã, uma grande gargalhada de Uzume!
Cassia Larubia
|